Ponto e Vírgula Tops
16 de maio de 2012 por marimessias

A censura da pornografia

Não sei se vocês tão ligados, mas só começamos a chamar pornografia de pornografia por volta de 1860. E já como uma forma de censura. Não que antes disso não existisse algum tipo de pornografia, a diferença é que ela não se chamava assim. Os humanos, nós, registramos gente nua e gente fazendo sexo desde, bom, desde sempre, mesmo.

Só que foi mais ou menos quando os vitorianos se depararam com os mosaicos e afrescos super coloridos e explícitos de Pompéia que começou o uso do termo pornografia, por isso essa data aí de cima, apesar de essa coisa de data ser meio complicada, né.

De toda forma, os sujeitos chegaram na ruína mais bem conservada do império romano e viram todo tipo de representação sexual: estátuas com pênis gigante, mosaicos de posições sexuais, moedinhas para pagar prostitutas. Alias, a organização e a o volume da prostituição eram tão, digamos, significativos, que eles chamaram esse tipo de arte de pornografia, que vem do grego e quer dizer, mais ou menos, retratar prostitutas.

Daí eles pegaram todo o tipo de representação sexual e levaram para um lugar chamado Museu Secreto. E diferente do bar, o Museu era secreto mesmo. E fechado para os visitantes, por muito tempo.

Mas aí tu pensa: se sempre existiu algum tipo de pornografia, por qual motivo ela foi proibida depois de Pompéia? O José Paulo Paes, sujeito foda, diz que tudo tem a ver com religião. No começo tanto sexo quanto nudez estavam ligados com religião, depois passam a ser o oposto, quase o Lex Luthor, da religião.

Não que isso tenha acontecido só em 1860, vale lembrar que ja no Renascimento o velho Michelangelo (que curtia muito um nu, como toda a galera da época) foi acusado de obscenidade e imoralidade, por ter pintado santos peladões (que depois ganharam uns paninhos cobrindo suas vergonhas). E, obviamente, não foi o único. O Paes diz que isso começa no próprio império romano, na transição religiosa que começou lá.

Poisé, mas como tudo tem dois lados, a própria proibição e separação da religiosidade foram o que possibilitou essa evolução da pornografia: ela ficou mais variada, mais bizarra, mais rica.

Por exemplo, muito pouco tempo depois do surgimento do cinema surgiu o cinema pornográfico e, claro, a censura do cinema pornográfico. Aliás, um dos maiores clássicos do gênero, Garganta Profunda, passou por tantos julgamentos e proibições quanto existem. Entre eles, ficou banido por dez anos no Reino Unido e foi o primeiro filme que teve um ator acusado de obscenidade pelo governo estadunidense.

Mas nada disso impediu que a indústria dos filmes pornô faturasse mais de 1 bilhão em 2001, segundo a Forbes.

E ainda que a maior parte das pessoas ache que os filmes são sinônimo de pornografia nos dias de hoje, não podemos esquecer da pornografia ficcional escrita, um estilo possivelmente tão antigo quanto a própria ficção escrita. E que nunca deixou de ser proibido: de Ovídio até Henry Miller, muitos passaram por isso.

E, você, que acha que eu sou saudosista e agora tudo mudou, você ta por foríssima. Volta lá no infográfico desse mês e lê a parte de Fanfic. Leu? Agora atenta ao bestseller 50 Shades of Grey, ebook de fanfic baseado em Crepúsculo, que foi vendido por 5 milhões pra Universal, que pretende transformar em filme. Poisé, ele acaba de ser banido na Florida. Sabe por qual motivo? Por ser obsceno. Pessoal do Flavorwire se rebelou e fez logo uma lista de livros preconceituosos e toscos que são muito mais danosos que ele. Vale ler.

Então, ufa, acho que a conclusão é que nunca devemos esquecer quanta gente se esforçou pra podermos consumir pornografia hoje. Por isso bora fazer valer o esforço heróico dessas almas nobres e o resto é como diriam os Menudos: não se reprima.

O assunto te interessou e tu quer saber mais?  (estamos aceitando sugestões, ein ô)
Sex & Punishment (livro sobre a história das punições relacionadas com sexualidade)
Poesia erótica em tradução e Antologia de Pornografia (livros de poemas pornográficos organizados cronologicamente)
Pornography: A Secret History of Civilisation (documentário do Channel 4 sobre a história da pornografia)
Eroticism (clássico do Bataille sobre o tema)
Personas Sexuais (outro clássico, agora da Paglia)

13 comentários para A censura da pornografia

  1. Andrei Domovic disse:

    Hoje saiu artigo no io9 sobre arte pré-histórica, com especulação sobre uma possível vagina entalhada na pedra (http://io9.com/5910425/the-worlds-oldest-cave-art-is-of-a-vagina).

    (com alguns links sobre arte erótica do período Paleolítico)

    • marimessias disse:

      bah, muito bom! valeu por dividir \o/

  2. marcelo firpo disse:

    O Alan Moore escreveu ou organizou um livrão sobre esse assunto, acho que o nome é algo na linha “50.000 years of sex”. Bjs!

    • Paulo disse:

      Trecho do livro: “Sexually progressive cultures gave us literature, philosophy, civilization and the rest, while sexually restrictive cultures gave us the Dark Ages and the Holocaust”. (Alan Moore)”

      Achei fantástico! Segue o link: http://www.amazon.com/25-000-Years-Erotic-Freedom/dp/081094846X

      • marimessias disse:

        Bah, Alan Moore é um sujeito foda, mesmo. Cobiça eterna.

  3. Beatriz Vivanco disse:

    Adorei essa série sobre pornografia. Estão de parabéns!
    Um assunto bacana que vocês poderiam abordar também é um movimento chamado Make Love Not Porn que é liderado pela Cindy Gallop (http://www.ted.com/speakers/cindy_gallop.html), que acredita que a pornografia como vem sendo produzida e divulgada acaba educando de uma maneira perigosa e que prega machismo e submissão ao invés da busca pelo prazer de verdade.
    Não é só sobre feminismo ou gêneros, é sobre uma sociedade com mais consciência sexual e menos suscetíveis a padrões massificados. Vale a pena ver o talk dela (http://blog.ted.com/2009/12/02/cindy_gallop_ma/) e pesquisar um pouco mais sobre o tema.

    • Paulo disse:

      Não sei se é relacionado a isso, mas sites de pornografia hoje tem a categoria “female friendly” que eu acho que vai neste sentido. Na minha opinião, todos os vídeos deveriam ser “female friendly”, porém, já é um começo não?

      • Beatriz Vivanco disse:

        Pra mim a questão vai além de ser ‘female friendly’. Essa cultura que a pornografia criou em torno do que se considera ‘normal’ numa relação sexual foi por anos baseada num único ponto de vista, o do homem. E o pior, não de TODOS os homens, mas de alguns que tomaram a frente para criar. Segundo o que a própria Cindy conta no vídeo isso cria a falsa ilusão de que o que acontece lá é o real e serve pra todo mundo. O legal é que ela incentiva a conversa entre pais e filhos e a participação da escola na educação sexual como parte importante no desenvolvimento da sexualidade.
        Em relação a pornografia para mulheres existem umas iniciativas bem bacanas de produtoras no Brasil e em outros países. A Lust Films, da sueca Erika Lust, é uma produtora bem bacana que faz filmes ótimos voltados pra esse público. É ótimo que exista essa ‘categoria’, mas acho que a discussão não deve se fechar só nisso.

        • Andrei disse:

          Ai, aquela sutil divisa entre “conscientização” e “direcionamento”.

          Segurem esta apoteose onanista: toda pornografia é fetichista e não uma representação de qualquer nível d’O Normal. Não há normal.

          Quem reclama das relações machistas em pornografia conhece muito pouco do assunto, viu pouquíssimo pornô. Pornô “mainstream”, o que mais vende, é sim machista e objetificante, mas pornô é tão diverso quanto a sexualidade humana e nele há espaço (perdão) para tudo.

          Inclusive para o fetiche da objetificação de quem quer OBJETIFICAR e ser OBJETIFICADO(A)(OS)(AS)(E)(ES). Contestar esse fato é perseguição de pessoas. Ponto.

        • marimessias disse:

          Mas, sabe Beatriz, acho que isso tem mudado bastante. Como tu falou, existe esse ramo crescente na árvorezinha dos filmes pornográficos, dirigidos ao público feminino, muitas vezes coordenados por mulheres, também. La no infográfico citamos o estilo. E, admito, não sei do que se trata female friendly, mas talvez seja exatamente isso.
          Por outro lado, tou sabendo desses estudos sobre pornografia e expectativas, só que não levo muita fé neles, preciso admitir. Acho que assim como foi para tudo, também para a pornografia a internet tem sido libertária: mais vozes, mais espaço. Tem pra todo mundo, como deveria ser. E, fugindo do mainstream previsível (e feioso) vemos que as coisas mudam um pouco de figura.
          Mas também boto fé que uma criação ficcional é ficcional, e precisa das suas liberdades. Não concordo com toda a construção pornográfica, sinto falta e excesso de um monte de coisas, mas não acho que ela deva ser necessariamente criada dentro do que eu busco ou precise ser diretamente instrutiva, saca? Por ser uma criação ficcional, mesmo. Meio que me lembro do pessoal falando do Stalin obrigando a produção artística a ser instrutiva da sua revolução e os artistas dizendo que foi a desforra dos medíocres e morro de medo. Hehehe

          • Beatriz Vivanco disse:

            Andrei e Mari, concordo com vocês.
            Meu ponto era justamente de não existir o ‘normal’ e ir além de gêneros. O que disse não era de maneira alguma pra defender um pornô ‘politicamente correto’ ou educativo, era pra mostrar uma iniciativa que eu acho válida como discussão e não como verdade absoluta.
            Falava justamente desse mainstream previsível, como a Mari chamou. Quem gosta de pornô, como em qualquer área de interesse, tem curiosidade suficiente para sair da média. A preocupação no caso era com quem fica preso ali e não conhece a diversidade.

  4. Cláudia disse:

    “Vagina entalhada na pedra”. hehehe

  5. Roberto disse:

    Eu diria “Vagina entalhada na pedra” “aiii!!!”. Desde sempre, tem neguinho tarado que enfia o dito-cujo até em buraco de fechadura. De repente uma pedra legal, aquecida pelo sol batendo na caverna, acolhedora, a gente não tava fazendo nada mesmo, não tinha mamute pra caçar naquele dia…

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