Ponto e Vírgula Tops
14 de junho de 2012 por marimessias

Nem tudo são flores

Talvez nem todo ódio seja uma construção, mas no caso de Sodoma e Gomorra, por exemplo, foi. Não sei se vocês tão ligados, mas a cidade que até hoje é vista como um antro de perdição, nem sempre foi sinônimo de sexualidade. Eles eram, isso sim, conhecidos como um povo nada hospitaleiro, e isso era uma coisa muito grave. Junto desse comportamento, mais alguns apareciam em antiquíssimas interpretações judaicas, como o fato de serem corruptos, hereges e mesquinhos com os menos afortunados.

E a punição teria vindo, dizem os estudiosos do passado, por esse comportamento que fechava os olhos para as injustiças sociais e que pregava completa falta de compaixão. É sério. Até hoje em hebraico e iídiche procrusto é conhecida como cama de Sodoma. Ta até na Wikipedia. Procrusto, se tu não sabe, é uma referência ao ladrão mitológico, que tinha uma cama de ferro do seu tamanho, daí os hospedes que dormiam nela e eram maiores ou menores que ele eram ajustados para caber nela. Saca, aquele apetrecho de tortura? Poisé.

E como a maior parte das coisas parece, mesmo, depender do que acreditamos e do que decidimos interpretar das nossas crenças em nosso favor, o homem por trás do famoso Ato de Sodomia de 1533 é uma das figuras mais controvertidas da história inglesa. Durante o reinado de Henrique VIII, ele matou o responsável pela primeira Bíblia traduzida para o inglês (até então a Bíblia era em Latim, a tradução foi uma iniciativa do protestantismo), mas isso foi antes de ele romper com a igreja Católica (eventualmente sendo excomungado pelo Papa himself) para poder casar de novo. E depois ele matou a segunda mulher, pra poder casar outra vez. E, bom, por aí vai.

E foi graças a esse amor de pessoa que muita gente foda foi condenada a cadeia (a morte, a perder seus bens, a ser persona non grata) partindo do pressuposto que a sodomia era um ato sexual contra a natureza, a vontade de Deus e dos homens. Agora releia o parágrafo anterior.

Uma das pessoas mais conhecidas que sofreu as consequências dessa idéia idiota foi o genial Oscar Wilde que, como todos sabem, foi preso e acabou a vida na vala, mas sem deixar de olhar para as estrelas mesmo tendo sido abandonado pela família e pelos amigos.

Outro caso, nem tão conhecido mas ainda mais sofrido é o do Alan Turing. Turing é conhecido por ter formalizado o conceito de algoritmo e considerado por muitos como o pai da computação e da inteligência artificial, com sua Turing Machine. Durante a WWII ele foi o responsável por quebrar criptografias nazi e ajudar o mundo a ser menos escroto, como tal. Mas nem sua inteligência incrível nem seu coração de ouro nem seu talento para os esportes foram o suficientes para que ele não fosse processado por sodomia e acabasse tendo que cumprir a pena de castração química (com hormônios femininos) que acabaram com sua auto-estima e qualquer possível alegria de viver. Turing se matou dois anos depois, em 1954.

Só em 2009 (e graças a cobranças da galera) o Primeiro Ministro inglês pediu desculpas por essa escrotidão. Depois do Turing já ter virado estátua (mas ainda um pouco antes de virar selo).

Bem pouco tempo depois da morte do Turing as pessoas começaram a pensar sobre esse ódio. Nos anos de 1960 foi cunhado o termo homofobia que, como o nome indica, é uma doença.

E ainda que pareça absurdo demais pensar em um mundo onde coisas assim aconteceram, elas continuam acontecendo. E muito. Especialmente no Brasil, tu não pode acreditar o quanto. Somos o país que mais mata por homofobia no mundo (e isso sem falar daqueles casos nunca resolvidos, que devem ser muitos). Só nos últimos seis anos a homofobia cresceu 118% por aqui.

E, ao que tudo indica, vivemos em um país tão, mas tão homofóbico que sequer conseguimos a aprovação de uma lei que puna de maneira concreta esses crimes. Mas, convenhamos, só pessoas doentes poderiam tentar nos convencer de que existe qualquer lógica nesse papo.

De toda forma, estamos cansados de saber que nem tudo são flores, mas juro pra vocês que jamais poderíamos imaginar a quantidade de ódio, ameaças e gritinhos histéricos com os quais temos sido obrigados a lidar durante nossa linda semana LGBT.

Essas manifestações de babaquice só nos fizeram notar o quanto é importante que a maioria de nós aprenda a reciclar os conceitos e formular suas próprias idéias. Assim como, imagino eu, tu não toleraria um governante assassino/messiânico (feito o Henrique VIII), também não deveriamos achar que ódio pode ter qualquer tipo de fundamento (seja moral ou religioso). PFV:

12 comentários para Nem tudo são flores

  1. marcelo firpo disse:

    Excelente, parabéns.

    • marimessias disse:

      Valeu, Firpo <3
      E Desi, sua querida ;~

  2. Lindo, Mari.
    Uma flor na cara da ignorância e do preconceito.

  3. Erico disse:

    Muito bom Messias. Ótimo escrita.
    BTM, seu gato vai bem?

    • marimessias disse:

      Erico, velho, são duas gatas. Nem te apresenta com piadinha incompleta, saca?

      • Erico disse:

        Que rancor, Messias. Ainda bem que jornalista não precisa de faculdade, saca.
        Take your time…

  4. Rita Cássia disse:

    Caramba. Aprendi muita coisa nessa semana LGBT, e espero que as pessoas percebam que esse ódio não faz sentido,não se pode continuar com o pensamento parado em 1533.

    • marimessias disse:

      Né? Eu também tou aprendendo muito. Ta sendo, mesmo, uma viagem massa.

  5. Cib Fontoura disse:

    Parabéns pelo texto, Mari.
    Por isso que eu digo que vc é uma musa!
    Beijo enorme

  6. marcella disse:

    Foda, mari! :)
    E minha parte favorita foi: “Essas manifestações de babaquice só nos fizeram notar o quanto é importante que a maioria de nós aprenda a reciclar os conceitos e formular suas próprias idéias”

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