Comportamento Ponto e Vírgula Tops
19 de julho de 2012 por marimessias

Muita afinidade só avacalha

Durante muito tempo (e possivelmente ainda hoje, em alguns lugares) o profissional ideal tinha pelo menos meia dúzia de características de um psicopata. É sério. Não quer acreditar em mim, acredita no Jon Ronson, jornalista e autor de Homens que encaravam Cabras, que pesquisou e lançou um livro sobre o assunto. Ele mesmo esclarece que um psicopata não tem alguns traços básicos que nos tornam “humano”, como por exemplo: empatia, remorso e gentileza.

Mas, claro, em um mundo que acreditava na produção acima de tudo e todos, ninguém que compreendesse os sentimentos e problemas dos outros, se sentisse mal por demitir alguém ou fosse muito amistoso pareceria ter chances. Ronson chega a citar exemplos de CEOs foda que sentiam prazer em demitir pessoas.

Né.

Nesse mesmo sentido, muita gente foi criada dentro do preceito de que dormir é, no final das contas, uma perda de tempo. Isso sem falar, claro, na idéia de que ”Deus ajuda a quem cedo madruga” e que que todos temos que viver nos mesmos turnos do dia. Sobre isso o cronobiólogo Til Roenneberg fala muito diretamente: “O mito de que quem acorda cedo é gente honesta e quem acorda tarde é preguiçoso tem suas razões e méritos nas sociedades rurais, mas se torna questionável na sociedade moderna, que nunca dorme”. Para ele o tempo social (não nosso tempo interno nem o tempo natural, ditado pelo sol) é um dos grandes vilões das maneiras nocivas como acabamos vivendo.

Quem não tem pelo menos um amigo que se entope de café para conseguir acordar em um horário que, afinal de contas, não é o horário onde ele se sente mais criativo e produtivo?

Poisé, mas como em toda revolução orgânica, as coisas tem mudado progressivamente. Um dos principais motivos, imagino eu, é notar que o que nos impede de viver uma perfeição sistematizada, longe de serem problemas, são as coisas que nos tornam humanos.

E humanizar o trabalho, desdizer aquele discurso furreco de que tu não importa e ninguém quer saber dos teus problemas tem se mostrado a escolha mais esperta. Especialmente para as empresas massa que querem manter satisfeitos seus funcionários mais criativos e, normalmente, mais problemáticos.

Pelo menos é isso que defende o Jeff Stibel. Para ele, as empresas podem identificar seus empreendedores mais facilmente se prestarem atenção naqueles que costumam ter dificuldade de aceitar a sabedoria convencional. Ele também diz que essas pessoas tiram suas qualidades e limitações da mesma fonte, e se da bem quem souber não reprimir elas.

É o caso do pessoal com Déficit de Atenção, que tem dificuldade de manter o foco e fica sonhando acordado, lendo fofocas durante o expediente ou só olhando para o nada pensando na música. Mas que também (e por isso mesmo) são as pessoas que costumam ter mais capacidade de resolver problemas de maneira criativa. Ao menos foi isso que concluíram pesquisadores das Universidades de Toronto, Memphis, Michigan e Harvard. Tanto é que ja tem gente tentando emular essa capacidade de deslizar pelo foco e viver de maneira mais criativa.

Alias, sabe quem tem essa capacidade, também? Os disléxicos. Aquele pessoal que tem dificuldade de leitura, escrita e soletração também tem muitas vantagens. Além de mais criativos, eles são bons em pensamento abstrato, lidam profundamente com o ambiente onde estão, tendem a pensar mais em imagens e tem uma imaginação mais vivida. Por essas e por outras existem muitos artistas disléxicos. Mas como a dislexia é um espectro muito amplo mesmo (de não saber diferenciar direita e esquerda a não conseguir ler direito), garanto que tu conhece e, possivelmente, trabalha com disléxicos e nem sabe.

Aliás, se tu for introvertido é mais provável que tu tenha notado algo, já que os introvertidos são bons em prestar atenção nos pequenos detalhes. E tudo que eles tem de vantagem nesse sentido, os extrovertidos tem de vantagem em momentos de socialização. Enquanto os primeiros trabalham melhor sozinhos, os seguintes trabalham melhor em grandes grupos.

Como (e por qual motivos precisaríamos) escolher qual o melhor, né?

Agora imagina um local de trabalho (ou colégio, ou mundo) com tudo isso e muito mais. Todas essas pessoas incríveis e diferentes e cheias e qualidades e defeitos, convivendo e construindo juntas. Um lugar onde quem desliza socialmente de maneira graciosa e quem prefere pensar em silêncio são capazes de conviver em harmonia.

Longe de ser uma utopia, isso é o que o Jonah Lehrer aponta como o mais produtivo possível dos ambientes de trabalho. E sabe por qual motivo? Pois os ambientes mais criativos são aqueles onde não se chega a um consenso imediato, os ambientes heterogêneos, onde somos capazes de atritar idéias até criar um pensamento novo.

 

4 comentários para Muita afinidade só avacalha

  1. Concordo com tudo…pena que nem todas as empresas e locais de trabalho estão preparados ainda para deixar a geração de baby boomers para trás e seus computadores e relatórios quadrados.

    Jonah Leher também falou outra coisa interessantíssima sobre a criatividade e a labuta. Ele diz em um dos seus artigos que estamos muito mais dispostos a encontrar a solução correta para um problema ou A resposta criativa quando “descansamos nossos cérebros”. Ou seja, quanto mais continuamos a trabalhar no problema, menos propensos estaremos para encontrar a resposta. Isso tudo porque nossos geniais cérebros precisam de um “time” para fuxicar no arquivo todas as “infos relacionadas” e experiências até encontrar o melhor caminho. Assim, ambientes de trabalho mais descontraídos, ou aquela escapadinha pra arejar a cabeça são melhores que testas franzidas em frente ao computador.

    -)

    • marimessias disse:

      Poisé, e esse tipo de conhecimento faz aqueles lugares que bloqueiam redes sociais e afins, que tentam controlar o consumo de conteúdo dos funcionários, essas coisas, serem ainda mais incompreensíveis, né.

  2. Muito bom o post.

    Acho que a ‘nova riqueza’ é viver uma vida balanceada. É um desafio enorme, mas com informação e atitude podemos chegar lá!

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