A ascensão dos poking games

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Uma nova linguagem de conquista abre brechas imperceptíveis para o que é piada e o que é sedução

por Eduardo Biz

Há vinte anos, o flerte digital era visto como um comportamento novo, de poucos adeptos. A novela Explode Coração, de 1995, explorou esse assunto de maneira vanguardista, antecipando hábitos que hoje são considerados comuns. De lá pra cá, as redes sociais moldaram a lógica da socialização contemporânea: hoje, metade dos relacionamentos começam na Internet.

Paquerar via Internet tornou-se um hábito natural, explicado fundamentalmente pelo chamado online disinhibition effect. Trata-se do abandono ou relaxamento das restrições sociais que geralmente inibem a interação cara a cara. Online, as pessoas se sentem mais anônimas e modificam suas noções de respeito e bom comportamento, permitindo-se dizer e fazer sem medo de rejeição ou represália.

Segundo o psicólogo John Suler, especialista em comportamento online, os fatores que condicionam essa libertação são os seguintes:

“Você não me conhece.”
“Você não está me vendo.”
“Posso responder quando eu quiser.”
“Internet é uma brincadeira e não há consequências.”
“Meus valores pessoais não se aplicam aqui.”

A teoria Greater Internet Fuckwad explica os pontos acima de maneira sucinta. Segundo seu criador, John Gabriel, quando um indivíduo são recebe o poder de anonimidade e tem acesso à atenção de uma audiência, ele se transforma imediatamente em um “fuckwad”, passando a demonstrar comportamentos antissociais e psicopáticos.

A terra sem leis que é a caixa de comentários de um blog é a melhor exemplificação do online disinhibition effect. No YouTube, diálogos estapafúrdios envolvem até ameaças de morte a respeito de discussões que provavelmente não deveriam ser levadas tão a sério.

Não é à toa que as plataformas de conteúdo mais inovadoras estão radicalizando a maneira como lidam com os comentários, a fim de evitar os trolls. O Medium, sistema de blog desenvolvido pelos mesmos criadores do Twitter, foi pioneiro ao permitir que os leitores deixassem comentários por parágrafo, e não mais em uma caixa no final do texto.

Amor mobile

Tamanha desinibição aliada à tecnologia mobile causou a ascensão dos apps sexuais. Geolocalizado, o novo flerte agiliza o ritmo da paquera, deixando a busca por um parceiro cada vez mais parecida com uma ida ao supermercado. Até o ménage à trois migrou para o mobile. Sai na frente quem consegue ser mais espontâneo e entende que essas brincadeiras não passam de uma nova linguagem de conquista.

lulu app

Lulu, o app mais popular no Brasil em 2013, sofreu um processo judicial e gerou muita polêmica com seu sistema de avaliação de homens. Fofoca, bullying e zoação entraram na pauta coletiva e escancararam as portas para o Smart Trolling.

A crescente popularidade destes poking games abre oportunidades para que marcas se insiram neste universo. A Taco Bells é a primeira marca a apostar no Snapchat, uma rede conhecida por promover o sexting. A rede de restaurantes colocou fogo em suas campanhas que não ficaram mais que 24 horas no ar.

Taco Bells no Snapchat.
Taco Bells no Snapchat.

No Brasil, a startup Namoro Fake oferece o serviço de aluguel de parceiros. Trata-se de um namoro de fachada, com direito a mensagens de Facebook e atualização do status de relacionamento. O sistema já está disponível em outros países, como Portugal, Estados Unidos e Canadá.

A revista Interview criou um editorial de underwear usando a estética dos perfis do Grindr.
A revista Interview criou um editorial de underwear usando a estética dos perfis do Grindr.

É quase unânime o interesse do ser humano em amor e sexo, o que talvez explique o sucesso dos poking games. Eles facilitam a vida dos tímidos e estimulam ainda mais os desinibidos, mas também abrem muitas brechas. E é justamente entre essas brechas que a trollagem se infiltra, tornando imperceptíveis as nuances que diferenciam a piada do mistério da sedução.

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Paquerar via Internet tornou-se um hábito natural. O chamado online disinhibition effect explica este comportamento abordando o abandono ou relaxamento das restrições sociais que geralmente inibem a interação cara-a-cara. Online, as pessoas se sentem mais anônimas e modificam suas noções de respeito e bom comportamento, permitindo-se dizer e fazer sem medo de rejeição ou represália.

A desinibição aliada à tecnologia mobile causou a ascenção dos apps sexuais. O ritmo rápido da paquera assimila a busca por um parceiro a uma ida ao supermercado. Sai na frente quem consegue ser mais espontâneo e entende que essas brincadeiras são uma nova linguagem de conquista.

É quase unânime o interesse do ser humano em amor e sexo, o que talvez explique a crescente popularidade dos poking games. Eles facilitam a vida dos tímidos e estimulam ainda mais os desinibidos, mas também abrem muitas brechas. E é justamente entre essas brechas que a trollagem se infiltra, tornando imperceptíveis as nuances que diferenciam a piada do mistério da sedução.

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Snapchat oferece filtros customizados

Marcas estão fazendo propaganda no Snapchat utilizando filtros nos snaps alheios ou enviando snaps diretamente para os usuários. Isso tem incomodado muitos usuários, que consideram a atitude invasiva e trazem desconfiança à promessa de privacidade, importantíssima em um app em que o sexting é recorrente.

Foto do Tinder virou um business

A companhia Tinder Headshots cobra para tirar fotos profissionais para perfil do Tinder — pelo menos mais profissionais do que aquela selfie no banheiro, que pode passar a impressão errada para seus pretendentes. Em um universo onde as imagens determinam o interesse, uma boa fotografia é tudo.

O paradoxo do sexting

O sexting se tornou tão banal que muita gente o faz sem interesse algum. Nas palavras da autora do texto, Maureen O’Connor, “não é como se fosse uma versão virtual do sexo, mas como uma versão aprimorada de Candy Crush”. Às vezes quando uma pessoa diz que está usando uma lingerie sensual ela está, na verdade, com um pijama de moletom.

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