Inspiração plural: 6 referências estéticas de brasilidade

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Talentos emergentes da moda, design e arte inspiram novas possibilidades de estéticas brasileiras

por Mayra Fonseca capa Lane Marinho

Durante muito anos, aprendemos que os padrões e comportamentos de beleza que regem os mercados e o consumo vinham principalmente do topo da pirâmide socioeconômica. Para acompanhar as tendências estéticas, o único caminho aceito era observar e seguir os lançamentos das grandes marcas — quase sempre em categorias de alto luxo —, depois copiadas da forma mais fiel possível.

Vivemos uma necessidade urgente de revisão desta perspectiva sobre o modelo de beleza compatível ao cotidiano e universo dos brasileiros. No mercado, a busca por autenticidade nas inovações passa, cada vez mais, por uma nova forma de olhar e criar para o brasileiro em categorias como moda, design, arquitetura, decoração, artes.

Quando consumidores reforçam repetidamente que representatividade importa, entender uma paleta de cores, texturas, objetos e vocabulário que não seja imposta por um olhar externo não é só mais questão de inclusão. É também geração de empatia pelas marcas, de sobrevivência a médio prazo em um mercado que nem sempre considera aspiracional o que é estampado nas capas das revistas internacionais.

imagem: Fernanda Obregon

Implica dedicação criar para pessoas que se percebem bonitas como são e que questionam a aquisição de bens esteticamente distantes de sua realidade cultural. Pensar em uma inovação autêntica, a partir da história de vida das pessoas e do que existe de mais interior, requer investimento de tempo e energia em pesquisas sensíveis.

Para conhecer outras belezas brasileiras, vale direcionar o olhar em busca do que é cotidiano, familiar e ancestral. Este esforço de investigação de outras referências estéticas pode ter como primeiro passo a ampliação dos cenários de estudo — ou seja, o reconhecimento das ruas, favelas, morros, interiores, roças, ribeiras e matas.

A resposta aos anseios da sociedade pode estar justamente na redescoberta destes cenários nacionais tão familiares. Sob esta ótica, o que era antes chamado de periférico passa a ser aspiracional.

Com catástrofes na macroeconomia e na política, entender outras referências estéticas é também dilema para marcas e instituições que tem a brasilidade como um de seus valores. Com a autoestima abalada, dos campos de futebol ao Congresso Nacional, é preciso fugir de jargões hoje questionáveis, como “moro num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza”. Surge então a pergunta: onde está um Brasil bonito de se ver e potente para reverberar?

Bonito passa a ser entendido como algo que é uma verdade na história do indivíduo, algo valorizado pelo esmero com que foi projetado; algo cuidadoso para que inclua, inspire e empodere o máximo de pessoas ao seu redor.

Na busca por novas referências, a linguagem estética de talentos nacionais emergentes é um caminho inspirador — nesta lista estão 6 criadores que renovam o arsenal e as possibilidades de belezas brasileiras. 👀

1. Baobá Brasil

Elza Soares para Baobá Brasil

Tenka Dara é jornalista e estilista negra, além de filha do Mestre TC, um dos principais pesquisadores sobre quilombos e tambores no Brasil. Foi em África que ela encontrou inspiração para criar a sua marca, a Baobá Brasil — baobá é uma árvore milenar de origem africana que simboliza ancestralidade.

A marca se inspira na relação e nos trânsitos entre as culturas brasileiras e africanas: as roupas e acessórios são feitos com capulanas, tecidos tradicionais utilizados por mulheres moçambicanas há gerações. As peças são exclusivas e podem ser encontradas na loja em Santa Tereza, no Rio de Janeiro, ou nas diversas feiras independentes por onde Tenka circula.

2. Lab Fantasma

A repercussão do desfile do Laboratório Fantasma no São Paulo Fashion Week foi grande. Os irmãos Emicida e Fióti fizeram exatamente o que se esperava deles ao inserir a marca no mais alto circuito de moda no Brasil: levaram a favela para a passarela. A performance falava sobre deixar visível a diversidade que existe pelas ruas brasileiras.

É verdade que eles tiveram que justificar o preço das peças, que restringe quem pode comprá-las. Mas, pela potência e emoção causada, não há como negar que a linguagem e as escolhas, exatamente porque são como no cotidiano da quebrada, foram de grande beleza. Louvado seja, encheu de preto.

3. Lane Marinho

Esculturas da natureza para vestir

Lane Marinho é designer baiana que mora em São Paulo há alguns anos e nutre uma curiosidade pelos mistérios da natureza. Desde 2013 ela desenvolve uma linha de sandálias artesanais, e há pouco começou também a desenvolver acessórios e objetos de cerâmica. O trabalho é um mergulho na trajetória da artista, que toca o público com respiros dos lugares por onde passou.

4. Rodrigo Ambrosio

Rodrigo faz parte do Armorial Design Group, um coletivo que trabalha na linha iniciada por Ariano Suassuna, que busca uma nova linguagem erudita a partir de elementos genuínos da cultura brasileira. O alagoano faz artefatos culturais que contam histórias e, ao evocar objetos e mestres do cotidiano do Nordeste, suas produções destacam-se da maioria e dialogam com o regional.

Entre suas obras está a premiada Cadeira Rapadura, apresentada na Semana de Design de São Paulo, em 2015. Para produzir a cadeira feita 100% do doce, Rodrigo trabalhou em um antigo engenho de Alagoas. O público foi convidado a comer o objeto.

5. Jonathas de Andrade

Ao falar em homem do Nordeste, é fundamental mencionar o alagoano Jonathas de Andrade. Ele é um artista visual que desponta nos últimos anos ao mostrar, em paletas e objetos, uma beleza brasileira que nem todos ainda conhecem e reconhecem. O conjunto de obras Museu do Homem do Nordeste foi exposto em diversos circuitos. A ideia do trabalho é tão simples quanto potente: questiona o nome do equipamento cultural de Recife (sim, existe um Museu do Homem do Nordeste!) e as representações deste nordestino, quase sempre em uma visão eurocentrista e romantizada. Em uma releitura sincera, convidou homens comuns a posar para fotos que originaram cartazes — uma crítica corajosa e necessária.

6. Luiz Braga

O fotógrafo e artista visual paraense desenvolveu técnicas próprias para registrar a beleza do contato entre homem e natureza, principalmente nos costumes do norte do país. Em seu trabalho, paisagens naturais, objetos e fenômenos da natureza estão sempre em relação com o corpo das pessoas. As cores e texturas das imagens refletem exatamente o que é uma vida imersa na floresta, com uma poesia cotidiana e inspiradora.

Versão resumida ×

No mercado, a busca por autenticidade nas inovações passa, cada vez mais, por uma nova forma de olhar e criar para o brasileiro em categorias como moda, design, arquitetura, decoração, artes.

Para conhecer outras belezas brasileiras, vale direcionar o olhar em busca do que é cotidiano, familiar e ancestral. Este esforço de investigação de outras referências estéticas pode ter como primeiro passo a ampliação dos cenários de estudo — ou seja, o reconhecimento das ruas, favelas, morros, interiores, roças, ribeiras e matas.

A resposta aos anseios da sociedade pode estar justamente na redescoberta destes cenários nacionais tão familiares. Sob esta ótica, o que era antes chamado de periférico passa a ser aspiracional.

Na busca por novas referências, a linguagem estética de talentos nacionais emergentes é um caminho inspirador — nesta lista estão 6 criadores que renovam o arsenal e as possibilidades de belezas brasileiras. 👀

1. Baobá Brasil

Elza Soares para Baobá Brasil

Tenka Dara é jornalista e estilista negra, além de filha do Mestre TC, um dos principais pesquisadores sobre quilombos e tambores no Brasil. Foi em África que ela encontrou inspiração para criar a sua marca, a Baobá Brasil — baobá é uma árvore milenar de origem africana que simboliza ancestralidade.

2. Lab Fantasma

A repercussão do desfile do Laboratório Fantasma no São Paulo Fashion Week foi grande. Os irmãos Emicida e Fióti fizeram exatamente o que se esperava deles ao inserir a marca no mais alto circuito de moda no Brasil: levaram a favela para a passarela. A performance falava sobre deixar visível a diversidade que existe pelas ruas brasileiras.

3. Lane Marinho

Esculturas da natureza para vestir

Lane Marinho é designer baiana que mora em São Paulo há alguns anos e nutre uma curiosidade pelos mistérios da natureza. Desde 2013 ela desenvolve uma linha de sandálias artesanais, e há pouco começou também a desenvolver acessórios e objetos de cerâmica.

4. Rodrigo Ambrosio

O alagoano faz artefatos culturais que contam histórias, além de design armorial. Ele trabalha na linha de Ariano Suassuna, que busca uma nova linguagem erudita a partir de elementos genuínos da cultura brasileira. Ao evocar objetos e mestres do cotidiano do Nordeste, suas produções destacam-se da maioria e dialogam com o regional.

5. Jonathas de Andrade

Ao falar em homem do Nordeste, é fundamental mencionar o alagoano Jonathas de Andrade. Ele é um artista visual que desponta nos últimos anos ao mostrar, em paletas e objetos, uma beleza brasileira que nem todos ainda conhecem e reconhecem.

6. Luiz Braga

O fotógrafo e artista visual paraense desenvolveu técnicas próprias para registrar a beleza do contato entre homem e natureza, principalmente nos costumes do norte do país. As cores e texturas das imagens refletem exatamente o que é uma vida imersa na floresta, com uma poesia cotidiana e inspiradora.

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