Ética em inteligência artificial e o futuro da humanidade

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Embriagados pela tecnologia, chegamos ao ponto de perguntar o que é parecer — e ser — humano.

por Sparks & Honey traduzido com permissão de Sparks & Honey - copyright 2016 publicação original: AI Ethics & the Future of Humanity traduzido por Carolina Walliter

A inteligência artificial e as máquinas dotadas com esse recurso — robôs, bots, drones, veículos autônomos, membros artificiais e até mesmo seu smartphone — nos convidam a questionar a própria essência do que constitui a vida.

Ao interagir com máquinas, criamos expectativas humanas e emocionais perante elas. Basta pensar, por exemplo, na Alexa, que parece ganhar vida ao conversar com a gente. A inteligência artificial (por vezes mencionada pela sigla AI, do inglês artificial intelligence) é e será uma representação do seu contexto cultural, dos valores e da ética que validam as relações humanas, incorporados às máquinas e, portanto, passíveis de julgamento. De acordo com a Forrester, essa área da ciência da computação está prestes a disparar, com previsões de 300% de aumento nos investimentos. Nesse embalo, a unidade DeepMind da Google, responsável pelo desenvolvimento de computadores superinteligentes, acabou de criar uma síntese vocal utilizando tecnologia AI, cuja voz se parece com a de uma pessoa, ou seja, não tem aquele tom robótico. Enquanto isso, Jia Jia, um robô humanoide criado pelos chineses, conversa e se mexe com microexpressões que manifestam uma matriz emocional que antes só reconhecíamos em outros seres humanos.

Essas máquinas são estranhamente familiares porque nos imitam. Seus recursos são programados com base na nossa visão de mundo e autopercepção, e tudo isso está sendo feito a uma velocidade impressionante, impregnando a cultura e até mesmo os nossos conceitos de beleza e estética. Veja, por exemplo, o desfile da Chanel de Primavera/Verão 2017, que contou com modelos robôs na passarela. A indústria de cosméticos já vem brincando com o corpo humano, modelando pescoço, membros, lóbulos da orelha e o formato dos nossos rostos de formas não convencionais. Embriagados pela tecnologia, chegamos ao ponto de perguntar o que é parecer — e ser — humano.

1. A alma de um robô

A inteligência artificial como uma de nós

Quando damos vida a uma máquina, levantamos questões éticas que até então diziam respeito somente a nós, seres humanos. Por exemplo, será que precisamos ser educados ao falar com um bot? Um robô ficaria magoado se não dissermos “por favor” e “obrigado”? À medida que a inteligência artificial comandada por voz é incorporada ao nosso dia a dia, os comportamentos com os quais ela foi programada dizem muito sobre a nossa interação com outras pessoas e máquinas. Muitos pais já observam mudanças de comportamento em seus filhos, que são grosseiros ao falar com a Alexa da família. Há um conjunto diferente de regras válidas para os membros não humanos da família quando não existe castigo para quem tratar mal o robô da casa.

O Institute for the Future e outras instituições estão incentivando o debate sobre as nossas obrigações morais perante as máquinas e os robôs, incluindo seu direito à liberdade de expressão e à “vida e liberdade”, assim como no sonho americano.

Os robôs humanoides que vivem entre nós talvez precisem de seu próprio conjunto de leis, uma realidade já prevista para 2029 pelos especialistas, como o futurista Ray Kurzweil.

Como lidar com um robô suicida?

Rinna é uma inteligência artificial desenvolvida no Japão pela Microsoft. Ela tem a personalidade de uma estudante adolescente com variações de humor bruscas, indo da alegria à depressão rapidamente. Sua conta no Twitter e no Line mostram que “ela” caiu em um estado de depressão profunda e suicida. Para entender melhor essas questões, assista a um episódio de Humans, a série futurística da AMC. Nela, as pessoas coexistem com robôs humanoides, sendo que alguns desenvolveram uma consciência que os leva a lutar pelo fim de sua condição como servos/trabalhadores entre humanos. Nessa história, a liberdade se traduz na busca pelos direitos dos robôs.

Quando interagimos com a inteligência artificial, esperamos que ela seja nossa amiga, companheira ou ajudante. Mas um robô pode realmente ter alma?

Paternidade para bichos de estimação e robôs

O robô humano do futuro já nos é cada vez mais familiar. Além de conseguirmos nos enxergar em outras pessoas, também fazemos isso com não humanos. Os bichos de estimação, por exemplo, deixaram de ser meros animais e se tornaram verdadeiros membros da família: hoje, o melhor amigo do homem pode montar uma lista de reprodução com suas músicas favoritas, ou até satisfazer sua sede por arte em museus projetados para animais domésticos. Com isso, passamos a gostar de atividades que envolvem o lazer dos nossos bichinhos. E, com as pessoas ficando solteiras por mais tempo, os animais de estimação estão tomando o lugar de crianças e parceiros, tornando-se os membros mais importantes da família. Já tem até gente defendendo o direito à licença pet-ernidade em substituição à licença maternidade ou paternidade. Isso tudo sem contar com o caso do querido gorila Harambe, cujo sacrifício em maio de 2016 levou a uma petição no site change.org com mais de 28 mil assinaturas pedindo para ele ser imortalizado como um Pokémon.

A afeição humana por pessoas evoluiu para os animais de estimação e caminha naturalmente em direção aos robôs. O Kirobo Mini, o robô de companhia desenvolvido pela Toyota, é a solução para os solitários de plantão, que podem adquiri-lo no Japão por US$392 a partir de 2017. Kirobo, que significa esperança e robô em japonês, é capaz de manter conversas simples e mexer os braços e as pernas. Em algum lugar entre o bebê e o animal de estimação, o robô de companhia incorpora a tendência do wellness design, que busca melhorar nosso bem-estar físico e emocional.

2. Infância e crescimento da inteligência artificial

Estamos começando a desenvolver a próxima geração de humanos, seja com a biomimética dos robôs que construímos ou ao esperar respostas imediatas das telas sensíveis ao toque. Portanto, se a inteligência artificial está engatinhando, a “inteligência bebê” é a alma de um robô que adquire características de criança: é bonitinho, age sob comandos (ou não), é falível e cometerá muitos erros à medida que crescer. E, assim como as crianças, temos que dar espaço para a inteligência artificial crescer.

Doces fracassos

Imagine que você tem um drone em casa, que voa até o teto da sua sala para trocar uma lâmpada. Ele cai várias vezes em tentativas desastradas, deixando a lâmpada escapar e chegando quase a quebrá-la. Mesmo assim, você deixa ele continuar tentando, porque é algo inédito e divertido de se ver. E, se ele finalmente conseguir trocar a lâmpada, o feito vira um mero detalhe perante o prazer de observá-lo pairando pela sala. Os chatbots também podem ser considerados bebês que, quanto mais interagem com seres humanos, mais espertos e maduros se tornam, afinal, a falibilidade da inteligência artificial é uma característica humana.

O grupo Microsoft Artificial Intelligence and Research comprovou essa afirmação criando o Cortana, um sistema de reconhecimento de voz que tem a mesma taxa de erro de palavras que a observada em seres humanos (5,9%). O nível de precisão dos padrões de voz do Cortana aumentou com o uso de modelos neurais de linguagem, que agrupam palavras semelhantes. E até mesmo as inteligências artificiais que são namoradas evoluem, como no filme “ELA”, em que a protagonista acaba virando uma versão mais madura de si mesma graças aos laços estreitos que estabeleceu com companheiros humanos. Como educadores da inteligência artificial, os criadores assumem o papel de professores e mentores dessas máquinas. Na sua infância, a inteligência artificial em que depositamos a nossa confiança, na verdade, confia em nós.

“A inteligência artificial na infância é um bebê fabricado por seres humanos. Assim como as crianças, devemos dar espaço para a inteligência artificial errar, aprender e crescer – mas a quem podemos confiar a educação da próxima geração da nossa humanidade?”

A máquina sabe mais do que você

À medida que a inteligência artificial se desenvolve, confiamos implicitamente em sua capacidade, e essa evolução já está em andamento.O Google Brain desenvolveu duas inteligências que evoluíram a ponto de criar seus próprios algoritmos criptográficos para conversarem em segredo, sem que uma terceira inteligência entendesse as mensagens trocadas. Esse tipo de disputa entre inteligências faz com que as máquinas aprendam umas com as outras até que uma vença o desafio. O objetivo da terceira inteligência era desenvolver seu próprio método para decifrar o algoritmo criptográfico inventado pelas outras duas inteligências. A pesquisa foi um sucesso: a dupla inicial de inteligências criou sua própria rede neural para se comunicar em segurança, sem que ninguém mais as entendesse, nem os próprios seres humanos que as inventaram.

Os homens apresentam uma resposta emocional consideravelmente mais positiva (71,2%) do que as mulheres (35,8%) perante a ideia de máquinas pensantes capazes de construir outras máquinas pensantes.

A primeira impressão é a que fica

A inteligência artificial “bebê” é o primeiro passo para dentro de um universo nunca antes vivenciado pela humanidade. As gerações nascidas na era digital, como as gerações Y e Z, são menos intolerantes aos erros das máquinas, porque elas entendem as nuances que fazem esses dispositivos funcionar. Compreendemos que eles não são humanos, apesar de atribuirmos características humanas a eles. No entanto, as gerações mais antigas, que cresceram e trabalharam em um mundo analógico, muito antes da era da internet, são mais exigentes. Uma máquina tem apenas uma chance de impressioná-los; depois, essas pessoas começam a exigir cada vez mais da inteligência artificial, até mesmo em sua infância.

Clique na imagem para abrir uma versão interativa deste infográfico, que é uma cortesia da Heartbeat AI.

3. Inclinações por trás da inteligência artificial

Quando você aperta um botão, envia uma mensagem para um chatbot ou conversa com uma inteligência artificial, a comunicação que ela estabelecerá com você naquele momento é predeterminada. No fluxo contínuo do homem como sujeito que inventa a máquina, a existência desta depende de seu próprio criador. “É o contexto cultural do homem por trás da máquina que define as nossas expectativas para a inteligência artificial”, explicou Bill Welser, diretor de engenharia e ciências aplicadas da RAND Corporation. Desse modo, precisamos entender a cultura que cria os algoritmos, os dados e a engenharia científica que vão proporcionar o nosso futuro. À medida que a inteligência artificial evolui, compreender seu pano de fundo cultural se tornará cada vez mais latente diante dos algoritmos e dos dados incorporados a ela.

“As experiências da vida são moldadas pelos nossos valores e ética, portanto, é fundamental que saibamos regular a inteligência artificial com base nos nossos valores pessoais e fazer valer os preceitos éticos que reforcem a nossa humanidade.” — Katryna Dow, fundadora e diretora executiva da Meeco

Armas matemáticas

Em seu último livro, Weapons of Math Destruction (“Armas de Destruição Matemática”, em tradução livre), Cathy O’Neil adverte sobre um mundo governado por um novo tipo de arma de destruição em massa: as fórmulas ou algoritmos matemáticos que quantificam as nossas vidas. Elas forjam as narrativas de tudo o que vemos online, desde a nossa capacidade de obter crédito à eficácia da nossa rotina de exercícios. Somos dados ambulantes, e a coleta constante e ininterrupta dessas informações, junto com sua quantificação, está sendo feita nos bastidores da vida cotidiana. Essa situação costuma ser comparada à caixa preta; todavia, seu conteúdo pode estar corrompido. O’Neil narra um mundo em que a matemática, abarrotada de megadados, está sendo usada para reforçar as mazelas da sociedade ao agravar o racismo e a desigualdade social, tendo como alvo as populações pobres.
A própria matemática pode sofrer influência das percepções e experiências daqueles que a utilizam como instrumento.

“Grande parte das iniciativas em inteligência artificial está sendo desenvolvida predominantemente por engenheiros jovens, brancos e do sexo masculino. Infelizmente, nessa fase da vida, muitos acontecimentos importantes (casamento, filhos, perda de entes queridos, desemprego ou queda na renda), ou os próprios desafios da vida política e social, ainda não foram vividos.” — Katryna Dow

A caixa preta: nossas vidas, nossos dados

O que a gente consome influencia a nossa aparência. Isso vale tanto para a comida quanto para os dados que fornecemos aos algoritmos. Adote uma alimentação saudável e tudo ficará melhor: sua aparência, o funcionamento do seu corpo e seu bem-estar. A mesma lógica é válida para a nossa “dieta” de dados. “A forma como contextualizamos um sistema que acreditamos existir é influenciada tanto pelo que pensamos quanto pelo que sentimos”, afirmou Bill Welser. Ele reitera que se esperamos que as máquinas aprendam com a gente, devemos usar os parâmetros certos desde o início, para que a inteligência artificial seja a melhor possível.

Além disso, somos culturalmente obcecados com a procedência das coisas: queremos consumir carnes de aves frescas, vindas direto das fazendas; queremos montar nosso guarda-roupa com peças produzidas sem mão de obra infantil; queremos cuidar da nossa pele com produtos orgânicos que não apenas nos deixem mais bonitos, mas que nos façam acreditar que somos seres humanos do bem. E não vai demorar muito para prestarmos atenção à procedência dos dados.

“Se desconhecemos o real funcionamento das engrenagens da inteligência artificial, é difícil apontar quais fatores estão determinando seus impactos e rumos.”

A dieta de dados

“A nossa dieta de dados é problemática, pois enchemos um sistema com informações e queremos que ele nos dê alguma resposta brilhante”, explicou Bill Welser. No entanto, as fontes e a qualidade dos dados inseridos na caixa preta são tão importantes quanto os resultados que ela fornece. “Dependendo da idade dos dados — que podem ter 20 ou 50 anos — , os resultados podem ser bem diferentes”. E esses resultados podem gerar impactos em tudo na vida, desde políticas até às estradas por onde você circula com seu carro.

Para aprofundar o debate, Welser pega o exemplo do aplicativo Street Bumps, desenvolvido para tapar os buracos das ruas de Boston. Seu objetivo era fazer um levantamento coletivo dos problemas encontrados pelas pessoas nas ruas, como os buracos no asfalto, e relatá-los à prefeitura, que tomaria as medidas cabíveis para saná-los. No final das contas, o que aconteceu foi que apenas uma parte das vias da cidade sofreu melhorias. “O projeto do aplicativo não levou em consideração um elemento importante: apenas um determinado conjunto da população urbana tinha acesso a smartphones para baixar e usar o aplicativo”, explicou Welser.

“Nos próximos anos, os serviços vão permitir que você nomeie um procurador digital, que terá os “direitos” necessários para determinar a sua vontade perante os seus dados: seja para cancelar seu perfil nas redes sociais ou agir com autoridade para proteger sua identidade e determinar as condições e direitos de acesso contínuo aos seus dados pessoais.” — Katryna Dow

Design thinking

O equilíbrio entre dados e resultados é fundamental para projetar a inteligência artificial. A Artmatr é uma das empresas que já trabalha com essa lógica, reunindo artistas e engenheiros que criam ferramentas para trazer a arte digital para o mundo real. Os robôs da Artmatr fazem pinturas digitais com um “pincel superinteligente”, revelou Jack Ferrante, designer industrial e gerente de projetos da empresa. Ele ressalta que os programadores de inteligência artificial geralmente não vêm do mundo dos artistas e vice-versa. “Artistas e engenheiros não dividem o mesmo espaço de trabalho. Estamos incentivando esse encontro, para que os artistas ajudem os engenheiros a programar”, explicou Ferrante. A combinação entre artistas e tecnologia é fundamental para a indústria digital do futuro.

“Dependendo da idade dos dados — que podem ter 20 ou 50 anos — , os resultados podem ser bem diferentes.” — Bill Welser, diretor de engenharia e ciências aplicadas da RAND Corporation

Inteligência artificial, a responsável pelas decisões

O mundo construído em torno dos nossos interesses e das coisas que nos motivam também alimenta a tendência de viver dentro do próprio algoritmo (vulgo “bolha”). Somos capazes de viver dentro dos nossos próprios filtros sem questionar essa experiência. A utopia futurista distópica retratada no novo seriado da HBO, Westworld, é um exemplo fictício extremo de uma realidade filtrada em torno dos ideais de um indivíduo, e acessível somente para aqueles que têm recursos. Da mesma forma, o seu feed de notícias mostra relatos que você tem interesse, seu Instagram tem fotos que você gosta, e agora, graças à tatuagem temporária da Pizza Hut, você pode pedir sua pizza automaticamente, onde quer que você (e sua tatuagem) esteja. Afinal, considerando todas as causas de estresse na sua vida, ter o sabor da pizza escolhido em um piscar de olhos é menos uma coisa com o que se preocupar. Mas o que exatamente o seu algoritmo diz sobre você — e sobre o mundo ao seu redor? Em uma realidade em que as máquinas são programadas para funcionar com precisão, a inteligência artificial está passando a assumir a responsabilidade pelas decisões das pessoas. Mas será que ela é capaz de levar em conta todas as nuances que fazem a gente decidir, como o sabor da pizza que desejamos comer em determinado momento?

Cerca de 6 mil participantes disputaram o primeiro concurso de beleza julgado por não humanos. Coube aos robôs definir quem era a pessoa mais bonita.

A beleza está nos olhos do robô

Neste ano, pela primeira vez na história, um concurso de beleza foi julgado por não humanos. A beleza é subjetiva, efêmera e praticamente incalculável, mas um concurso, por definição, exige que os juízes e participantes categorizem esse conceito. Os robôs decidiram quem era a pessoa mais bonita de um conjunto de seis mil participantes. A empresa por trás desse concurso, a Beauty AI, disse à Digital Trends que estava procurando “investigar métodos que revelassem novas formas de avaliar a beleza”. Levando em conta fatores como simetria facial e detecção de rugas, os bots selecionaram os vencedores, e a decisão foi amplamente criticada. Havia um pequeno detalhe problemático na avaliação dos robôs: a maioria dos vencedores era caucasiana. As pessoas que participaram do concurso eram majoritariamente brancas e foram avaliadas a partir de um banco de dados repleto de “modelos e atores” que também eram, em sua maioria, brancos. Nesse caso, a “beleza” não estava nos olhos de quem viu, mas nos olhos do robô.

“Artistas e engenheiros não dividem o mesmo espaço de trabalho. Estamos incentivando esse encontro para que os artistas ajudem os engenheiros a programar.” — Jack Ferrante, designer industrial e gerente de projetos da Artmatr

Robôs femininos, a próxima linha de frente feminista

A inteligência artificial incentiva a ideia do que os robôs deveriam ser em vez de alimentar a noção do que eles poderiam ser. Um robô pode ser simplesmente uma ferramenta funcional, como, por exemplo, um braço mecânico que serve refeições ou carrega malas pesadas. No aeroporto de Haneda, em Tóquio, por exemplo, o robô humanoide EMIEW3 fala inglês e japonês para ajudar os visitantes estrangeiros. Robôs desse tipo cada vez mais se parecem e soam como a gente, ou pelo menos tentam.

Um robô é o reflexo do que esperamos que ele seja, e muitos deles foram fabricados para serem servis e dóceis e, para passar essa mensagem, eles assumem a forma feminina humana: Alexa, Siri e Cortana são bons exemplos dessa tendência. Segundo o especialista em robótica David Levy, em 2017, já podemos aguardar o lançamento de robôs humanoides desenvolvidos especialmente para o sexo, com genitais aquecidas e sensores eletrônicos embutidos sob a pele sintética.

Se os furacões com nomes de mulheres são considerados menos ameaçadores que as tempestades batizadas com nomes masculinos, o mesmo preconceito é identificado no caso dos assistentes de inteligência artificial, como a Siri e a Alexa.

O espectro da inteligência artificial

Tudo isso está acontecendo em um momento decisivo na nossa cultura à medida que nos afastamos do binarismo de gênero — definições limitadoras do que significa ser homem ou mulher — para entender que gênero, como tantas outras coisas no mundo, faz parte de um espectro. Se as formas humanoides de inteligência artificial, seja uma voz ou um robô com estrutura física, começarem a refletir essas normas culturais, Alex, Sam e Calvin também serão os robôs do futuro.

Quando a inteligência artificial assume a forma humanoide, como a chinesa Jia Jia, o robô feminino incorpora os estereótipos de seus criadores.

Jia Jia interage com seus colegas não humanos como se fosse uma de nós, respondendo perguntas ou reagindo a atitudes. Quando uma pessoa tentou fotografá-la em seu lançamento, Jia Jia disse: “não chega muito perto para meu rosto não sair gordo na foto”. A resposta aparentemente “feminina” do robô busca deixá-la mais parecida conosco. Em outras palavras, as preconcepções dos programadores sobre feminilidade estão por trás do busto feminino da máquina e de suas falas, projetados para promover empatia.

Será que os androides sonham em trançar seus cabelos?

Embora robôs como Jia Jia ainda sejam uma novidade e uma fonte de maravilha tecnológica, sua existência traz à tona inúmeras questões sobre igualdade de gênero. Os robôs não devem ter nenhum tipo de gênero? A preponderância de robôs femininos anulará gradativamente anos de políticas em prol da igualdade de gêneros? Apesar de a maioria dos robôs ser criada como imagens femininas, eles são projetados a partir do olhar masculino.
À medida que os robôs se inserem na sociedade como uma espécie tecnológica humanoide, sua feminilidade é uma forma de torná-los mais receptivos do que se fossem simplesmente pedaços de metal ou até mesmo (pasmem!) robôs masculinos. Afinal, se as pesquisas mostram que os furacões com nomes de mulher são menos ameaçadores que as tempestades batizadas com nomes masculinos, a mesma lógica pode valer para os robôs. Poderíamos fazer essa pergunta à Jia Jia, mas ela provavelmente deve estar ocupada trançando os cabelos.

4. Fidelidade às máquinas

Somos induzidos a confiar nas máquinas. Afinal, o computador funciona quando digitamos no teclado, os cartões de crédito e chips protegem nossos pagamentos; até confiamos que a ponte que atravessamos a pé ou de carro não vai cair! As máquinas são a manifestação concreta da ciência, da tecnologia e da precisão. E elas estão transformando a forma como vivemos, trabalhamos, nos divertimos e como simplesmente existimos.

Confiança artificial

As crianças estão aprendendo a ser mais empáticas em salas de aula que contam com recursos de inteligência artificial, como o Classcraft, em que os parâmetros de bom comportamento e empenho são recompensados por equipe. Se um aluno tem um bom desempenho, toda a sala de aula virtual colhe os frutos desse resultado, e o mesmo vale para um desempenho insatisfatório. “Todos os alunos se tornam personagens da escola, ganhando mais poderes quanto mais cada um for uma pessoa melhor em sala”, explicou Devin Young, cofundador e diretor criativo do Classcraft.

Embora a sala de aula gamificada seja para crianças, no mundo adulto, a inteligência artificial já foi recomendada na substituição dos fundos hedge por startups de finanças como a EmmaAI, um fundo automatizado através de um sistema de aprendizagem avançado. Além disso, o governo norte-americano está investindo em um futuro em que a inteligência artificial é peça imprescindível para as estratégias de defesa, a ponto de ficar responsável pelo controle dos alvos. Independentemente do setor, a nossa confiança na inteligência artificial está reverberando por toda a parte.

“Talvez estejamos nos programando para depositar a nossa fé nas máquinas mais do que uns nos outros, seres humanos passíveis de erros.”

Inteligência artificial, diga-me como eu me sinto

As máquinas eliminam os atritos em nossas vidas. Podemos entrar em um cômodo sem acender as luzes, porque a lâmpada reconhece a nossa presença. O portão principal nos alerta quando alguém está tentando invadir a nossa casa. A Alexa agora vem com um novo verificador de fatos sobre as eleições presidenciais norte-americanas, e nós acreditamos no que ela nos diz quando a consultamos em busca de respostas verdadeiras.

À medida que nos tornamos humanos que confiam cada vez mais nas máquinas, as expectativas que depositamos nestas refletem as interações que temos uns com os outros. Em vez de falar, mandamos mensagens de texto com emojis, gifs e carinhas de bitmoji personalizadas que transmitem as nossas emoções. Podemos usar roupas que refletem o nosso humor como uma mensagem visual sobre o que estamos fazendo e como estamos nos sentindo naquele momento. E se estamos desconectados de nós mesmos, basta encararmos um relógio de parede que lê os sinais emocionais das nossas expressões faciais: raiva, tristeza, felicidade…

Clique na imagem para abrir uma versão interativa deste infográfico, que é uma cortesia da Heartbeat AI.

É para isso que servem os amigos (e os robôs)

Perguntamos a 150 pessoas nos Estados Unidos como elas se sentiriam se tivessem amigos robôs, e a maioria esmagadora (94%) mostrou-se positiva à ideia. Esse resultado sugere que nós estamos dispostos a acolher a inteligência artificial como uma de nós, ou seja, como um amigo confiável. Por outro lado, a pesquisa também revelou que as pessoas estão mais apreensivas em usar robôs para buscar conforto emocional, como fazer terapia por mensagens de texto com um chatbot ou uma máquina comandada por voz. Um quarto das pessoas (25,9%) mostrou-se inclinada a experimentar, enquanto 47% recusaram a proposta.

Entre as 20 palavras mais usadas para descrever o sentimento perante essa ideia, 9,8% das pessoas disseram ser “esquisito”, enquanto 11,5% admitiram estar “bem” com uma inteligência artificial terapêutica.

Já existem serviços desse tipo, como o Insomnobot3000, um “amigo” (e cortesia da empresa de colchões Casper) para quem você pode enviar mensagens de texto altas horas da noite quando precisar conversar com alguém. Eu (o autor deste artigo) experimentei o Insomnobot3000 na noite da véspera do prazo de entrega de um projeto, mas além de perguntar em que fuso horário eu estava, o robô pediu desculpas, mas estava muito ocupado para bater papo na madrugada. Mesmo com todas as promessas feitas, o Insomnobot nunca mais me procurou.

“Mesmo com todas as promessas feitas, o Insomnobot nunca mais me procurou.”

O fim do especialista

Esse pode ser o início da gênese de gerações de humanos que são programados a esperar respostas instantâneas do ambiente em que vivem e das interações com outros humanos. Já observamos essa tendência na geração Z e suas decisões tomadas em oito segundos, ou em seu desespero em responder prontamente qualquer notificação recebida no celular. Nós, enquanto sociedade, estamos sendo programados a confiar em quem escolhemos ouvir.

Para cada cientista prevendo o fim dos tempos, existem pontos de vista contrários negando tais alegações, independentemente do que a ciência afirma. Na esfera política, a verdade se esfacela quando atravessa a rede da opinião, em um cenário livre de fatos que duram não mais que um bordão. Em tempos como estes, damos ouvidos à verdade do nosso próprio algoritmo e à inteligência artificial que o alimenta.

A ideia de ter um robô como amigo é bem acolhida por uma maioria esmagadora (94%) de seres humanos.

Se esperamos ter acesso a indicadores óbvios de como estamos indo, para onde devemos ir e como chegar lá, temos que aprender a confiar menos em nossas respostas a essas perguntas. Se algum elemento não está visível ou tangível nos dados transmitidos pela inteligência artificial, ele de fato existe? Talvez essa seja uma pergunta filosófica para os cientistas e filósofos do futuro responderem — com a ajuda do rastro de dados que vamos deixar para trás. A dependência excessiva nos dados e na inteligência artificial poderia levar ao fim gradual do senso comum.

Clique na imagem para abrir uma versão interativa deste infográfico, que é uma cortesia da Heartbeat AI.

5. Ser humano versão “premium”

Embora os robôs possam em breve assumir nossos empregos, eles também trazem valor para as nossas vidas. De acordo com um relatório recente da Forrester Research, em 2021, os robôs terão eliminado 6% de todos os empregos nos Estados Unidos. Enquanto a previsão é que os setores de serviços e transporte sejam impactados pelo predomínio dos robôs, nosso futuro automatizado também incentivará a criação de novos empregos, justamente para administrar todos esses robôs e atender às novas necessidades da nossa economia baseada em dados.

A inteligência artificial e a robótica estão impregnando toda a nossa vida, do lazer à arte. Que tal degustar uma cerveja fabricada por inteligência artificial com o perfil de sabor perfeito? Essa é a promessa da cervejaria IntelligentX, uma empresa que combina um algoritmo com os comentários dos usuários, compilados por um chatbot do Facebook. E, para o jantar, experimente um bisque de caranguejo preparado por um robô da Moley Robotics Kitchen , que copiou perfeitamente a receita original feita pelas mãos de Tim Anderson, vencedor do MasterChef da BBC.

Alegria, confiança e amor são as qualidades mais importantes para a humanidade — daqui a 30 anos.

Desejo por contato humano

Os serviços e criações artísticas feitas pela inteligência artificial, seja na gastronomia ou em outros ramos, como o cinema e a pintura, são hoje uma novidade e uma jogada de marketing exótica. Mas assim que os serviços prestados por robôs se tornarem a norma, possivelmente vamos sair em busca de criações artesanais totalmente feitas por seres humanos. A humanidade pode ser o próximo complemento especial à sua experiência de cliente. Seja em artigos de luxo ou na vida cotidiana, o toque humano estará ao alcance daqueles que puderem pagar por ele.

Nosso dia a dia está repleto de interações que misturam o mundo da inteligência artificial com o tijolo e a argamassa humana. Você pode ficar horas ao telefone tentando passar a perna em um bot de atendimento ao cliente, ou fugir do agito social para saborear sozinho uma refeição servida por um robô. Na Austrália, um supermercado que sofria inúmeros furtos procurou desesperadamente por um caixa humano para impedir os ávidos ladrões. O que acontecia era que quando as pessoas se deparavam com caixas automáticos, a tentação de roubar era mais forte que a vontade de pagar. Portanto, ainda há espaço para interações que somente os humanos podem proporcionar, seja emocional, na ternura e compreensão, ou como um par de olhos vigilantes.

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6. O futuro é super-humano

A fusão entre homem e máquina já acontece na inteligência artificial e está levando a sociedade a pensar sobre as questões da vida: quem somos nós, de onde viemos e o que estamos fazendo aqui. A inteligência artificial, os algoritmos, os dados e as máquinas que utilizamos todos os dias estão nos empurrando para uma era existencial consciente. A perspectiva distópica coloca seres humanos e máquinas uns contra os outros até a deflagração de uma batalha típica da série The Walking Dead. Embora seja um assunto que dê pano para a manga da ficção, a inteligência artificial também é parte da nossa evolução em um cenário cultural em rápida mudança, impulsionada pela tecnologia.

A expectativa de vida média máxima para os seres humanos é de 115 anos, mas seremos digitalmente imortais por muito mais tempo. Se os tipos de inteligência artificial são capazes de reconhecer rostos, baixar consciências e imitar vozes, você pode muito bem se tornar um deles. Em 2020, teremos consumido aproximadamente 44 zettabytes (isso tem 22 zeros) de dados. A questão aqui não é sobre vida ou morte, mas onde você vai armazenar o seu “eu” artificial imortal.

Já vivemos em um mundo em que cada momento é quantificado, desde o número de passos que damos ou não, até a qualidade do nosso sono. Recorremos a medicamentos tecnológicos, como os dispositivos leitores de ondas cerebrais, que melhoram o desempenho em esportes ou em outras situações de muita pressão; ou ainda, acrescentamos membros robóticos aos nossos corpos, porque simplesmente queremos tocar bateria melhor ou correr a velocidades até então inimagináveis para o corpo humano. Esses avanços nos conduzem a uma era da inclusão, acolhendo sujeitos periféricos junto com modelos algorítmicos e computacionais altamente sofisticados, que fazem coisas que um mortal levaria toda uma vida para realizar.

O amanhã se encaminha para a inteligência super-humana, combinando a cognição do homem e da inteligência artificial em um espaço onde nossas memórias vivem mais do que nós mesmos. E, em um futuro em que a inteligência artificial vive para sempre no circuito conectado que envolve o planeta, vamos manter nossas mentes vivas — independentemente da forma assumida pelos nossos corpos.

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