Autenticidade à nossa volta: um comentário sobre cultura visual brasileira

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Fomentar e reconhecer a produção cultural do Brasil das margens é romper com nosso velho complexo de vira-lata. Emancipar-se da validação estrangeira nos conecta com nossa originalidade e realidade.

por Victoria Carvalho capa extraída do livro "Abridores de Letras de Pernambuco"

Os primeiros registros visuais do Brasil foram feitos por estrangeiros. Uma das mais relevantes publicações feitas sobre o Brasil da época colonial Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839), tem como autor o francês Jean Baptiste Debret. Seu livro foi realizado em uma missão artística francesa no Brasil, que criou a primeira academia de artes do país. Assim surgem as primeiras imagens do Brasil: de um olhar externo.

Até mesmo as primeiras fotografias brasileiras não eram registros autênticos. A primeira câmera escura chegou no Brasil em 1824. Porém o que não consta nos livros de história é que uma fotografia feita pela câmera exigia cerca de 15 a 20 minutos para ficar pronta, ou seja, eram todas encenadas. Pessoas eram chamadas para fazer parte da foto, arrumadas, vestidas, colocadas em posições pré-determinadas — e ficavam lá, imóveis. Uma simulação da realidade.

Esses são indícios de como a imagem do Brasil nasceu como produto de exploração estrangeira. Os primeiros registros da nossa história, sociedade, cultura, de quem somos como um país é apenas um simulacro de um país que já existia antes de ser Brasil.

Paulo Nazareth e seu trabalho “Mercado de Artes/Mercado de Bananas”, na Art Basel de Miami.

Séculos depois, ainda carregamos traços destes registros não autênticos, sempre procurando no olhar e nas referências estrangeiras a melhor forma para entender a nós mesmos. A réplica do estrangeiro em si não é problemática. Mas, a cada reprodução automática e sem reflexão, o valor do nacional é desencorajado e a identidade brasileira é afetada. Especialmente em países colonizados, que tiveram boa parte de sua cultura imposta pelo colonizador, o complexo de vira-lata é um comportamento frequente.

“Se o Brasil é notoriamente um país ‘sem memória’ isso se deve ao fato de que remexer nos relatos sobre o passado costuma incomodar as estruturas de poder vigentes.” — Rafael Cardoso, designer

Em 2008, quarenta pixadores invadiram o Prédio da Bienal e pixaram, sem autorização, o espaço o espaço vazio, e as paredes em branco. Foram presos em flagrante e uma das integrantes do movimento foi condenada pela justiça por danos ao patrimônio histórico e formação de quadrilha. Dois anos depois, três daqueles quarenta pixadores foram convidados pela curadoria do mesmo evento, na condição de artistas, para “representar o movimento do pixo”, mas não para pixar o saguão novamente. Este é um caso que ilustra a dificuldade de comunicação entre “alta” e “baixa” cultura. Para quem pixa, pixo é movimento social, cultura urbana, ocupação, esporte radical. Tentar restringir o pixo a uma parede, saguão ou pavilhão é um contra-senso, porque o ponto do pixo é justamente o questionamento dos padrões estéticos, da exclusão social, da propriedade privada, do capitalismo na cidade.

É comum na comunidade paulista grandes encontros no centro da cidade para trocar cadernos de caligrafia e dividir seu trabalho com outros puxadores. Foto: Murilo Salazar.

Não é a primeira vez que o diálogo entre erudito e popular se mostra atravancado. O surgimento da categoria Art Naïf na história da arte é outro exemplo. Quando o Modernismo veio para o Brasil, mais ou menos em 1922, com a Semana de Arte Moderna, toda a produção de arte popular posterior a isso foi enquadrada neste movimento, de origem francesa, que fala de uma arte “ingênua”. Interessante notar que o traço que categoriza uma produção artística como Naïf não tem origem estética, mas social: é a produção negra, a presença de referências indígenas, a representação da cultura rural do país, entre outras “marginalidades”. Ou seja, mesmo antes de ser Art Naïf, a arte popular já existia. Mas porque o olhar estrangeiro deu sua bênção essa arte popular ganha uma validade e notoriedade sem precedentes.

Madalena Santos Reinbolt nasceu na Bahia e trabalho como empregada doméstica toda sua vida. Foi estimulada a pintar por sua empregadora, Lota Macedo Soares, de quem foi caseira em Petrópolis — lugar de onde produziu toda sua obra. Madalena trabalhava em bordado sobre estopa e tratava de temas como a vida agropastoril do interior da Bahia.

O ideal seria que o pixo, a arte popular ou qualquer outra expressão autêntica, não precisasse da legitimação da arte para ser reconhecido com orgulho como parte da nossa cultura. Justamente por ser um movimento estético único é difícil enquadrá-lo em formatos pré-estabelecidos. E não é necessário que esse enquadramento aconteça. Manifestações visuais não precisam ser queridas ou aceitas. Elas apenas precisam ser reconhecidas pelo que são, precisam ser ouvidas, e não ter seu lugar de fala sequestrado.

É emergencial, especialmente em tempos de crise, que resgatemos as referências à nossa volta, que nos reapropriemos dessa cultura visual que já nos pertence. “Reapropriar” não no sentido de tirar vantagem, mas de se aproximar com respeito, de celebrar, divulgar e incentivar. Fomentar a produção nacional e pensar o Brasil de forma hiper verdadeira é acreditar que há valor no nosso próprio cotidiano. Assumir a existência de uma cultura visual autêntica brasileira, que vá além da visão estrangeira que costuma ser lida como nossa verdadeira cultura. Destruir os muros burocráticos entre alta e baixa cultura.

“Acho muito importante ser exposto ao nosso oposto, estar aberto a conhecer algo que talvez tenhamos medo de conhecer, a participar de algo que não faz parte do nosso cotidiano. No Brasil é comum ignorar a cultura marginalizada, não dar valor a algo que venha da rua, do nordeste, do Norte, da favela, etc. Mas quanto mais somos expostos a essa tal “marginalização”, mais percebemos que essa é a realidade do Brasil.” — Mico Toledo, diretor de arte

Jaime Lauriano

Mico Toledo criou o leitura, um acervo visual brasileiro recheado de referências cotidianas da sociedade brasileira. Seu propósito é estimular o aceite da beleza, complexidade e importância da nossa própria cultura. Hoje o leitura é vinculado à revista Amarello, um coletivo criativo que se coloca a serviço do debate, do contraditório, do dissenso e do Brasil, tudo através da imagem — seja ela proveniente das artes, da beleza, do design, da filosofia ou da arquitetura.

Disfarçados de prestadores de serviço manual, os abridores de letra são os mais antigos tipógrafos regionais que temos — traços culturais visuais que muitas vezes passam desapercebidos. Com o objetivo de valorizar o trabalho desses artistas, o projeto Letras que Flutuam surgiu para mapear e documentar profissionais em regiões ribeirinhas do Pará como Santarém, Marajó, Belém e Salgado.

Precisamos ficar atentos ao valor que há nas margens; reconhecer a cultura do povo nas circunstâncias rurais, tradicionais, de minorias. Historicamente as expressões culturais das margens são colocadas em lugar de demérito. Por isso descentralizar o olhar é um exercício fundamental, não só para ampliar perspectivas, mas também para encontrar o autêntico.

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Os primeiros registros visuais do Brasil foram feitos por estrangeiros. Uma das mais relevantes publicações feitas sobre o Brasil da época colonial Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839), tem como autor o francês Jean Baptiste Debret. A primeira câmera escura chegou no Brasil em 1824. Porém o que não consta nos livros de história é que uma fotografia feita pela câmera exigia cerca de 15 a 20 minutos para ficar pronta, ou seja, eram todas encenadas. Pessoas eram chamadas para fazer parte da foto, arrumadas, vestidas, colocadas em posições pré-determinadas — e ficavam lá, imóveis. Esses são indícios de como a imagem do Brasil nasceu como produto de exploração estrangeira. Os primeiros registros da nossa história, sociedade, cultura, de quem somos como um país é apenas um simulacro de um país que já existia antes de ser Brasil.

Séculos depois, ainda carregamos traços destes registros não autênticos, sempre procurando no olhar e nas referências estrangeiras a melhor forma para entender a nós mesmos. A réplica do estrangeiro em si não é problemática. Mas, a cada reprodução automática e sem reflexão, o valor do nacional é desencorajado e a identidade brasileira é afetada. Especialmente em países colonizados, que tiveram boa parte de sua cultura imposta pelo colonizador, o complexo de vira-lata é um comportamento frequente.

O ideal seria que a arte popular ou qualquer expressão autêntica não precisasse da legitimação da arte para ser reconhecido com orgulho como parte da nossa cultura. Justamente por serem movimento estéticos únicos é difícil enquadrá-los em formatos pré-estabelecidos. E não é necessário que esse enquadramento aconteça. Manifestações visuais não precisam ser queridas ou aceitas. Elas apenas precisam ser reconhecidas pelo que são, precisam ser ouvidas, e não ter seu lugar de fala sequestrado. Por exemplo, o acervo visual do leitura (vinculado à revista Amarello) e o projeto “Letras que Flutuam” são exemplos de iniciativas que estimulam o aceite da beleza e importância da nossa própria cultura.

É emergencial, especialmente em tempos de crise, que resgatemos as referências à nossa volta, que nos reapropriemos dessa cultura visual que já nos pertence. “Reapropriar” não no sentido de tirar vantagem, mas de se aproximar com respeito, de celebrar, divulgar e incentivar. Fomentar a produção nacional e pensar o Brasil de forma hiper verdadeira é acreditar que há valor no nosso próprio cotidiano. Assumir a existência de uma cultura visual autêntica brasileira, que vá além da visão estrangeira que costuma ser lida como nossa verdadeira cultura. Destruir os muros burocráticos entre alta e baixa cultura.

Precisamos ficar atentos ao valor que há nas margens; reconhecer a cultura do povo nas circunstâncias rurais, tradicionais, de minorias. Historicamente as expressões culturais das margens são colocadas em lugar de demérito. Por isso descentralizar o olhar é um exercício fundamental, não só para ampliar perspectivas, mas também para encontrar o autêntico.

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Vá Além

Pixadores de SP acham que estão sendo usados por Dória

"O prefeito usa o ódio que parte da sociedade paulistana nutre contra pixo e pixadores para acalorar o entrevero? "Lógico. Pra causar essa polêmica", reflete o puxador. [...] "E se vandalizar for arte? Essa resposta está nos muros para quem quiser ver e interpretar.""

Novos para nós

Projeto de Renan Quevedo, que viaja pelo Brasil em busca de artistas populares. Segundo ele: "É sobre isto que o Novos Para Nós se trata: encontrar e catalogar novos nomes para a herança da cultura popular e dar visibilidade a eles. É incentivar e celebrar a produção nacional."

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