O Abraço das Avós: Portais de acesso para nossas identidades

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A importância de permanecermos aprendendo com gerações que em sua maioria estiveram fora da vida acadêmica, dos títulos, do conceito científico. Como continuarmos a conexão com quem tem doutorado no viver, não deixando de sermos o produto de um legado rico.

por Guta Assirati

Toda grande cidade, em meio a suas contradições velozes, suas babilônicas convulsões, e suas caóticas indiferenças, também é capaz de guardar segredos e mistérios que nos reconectam com o essencial em nós: a história que nos identifica. São Paulo não foge à regra. Como todo gigante, a desvairada assusta à primeira vista, mas revela a quem tem olhos e coração abertos, portais de acesso a dimensões espaciais e temporais alternativas.

Esses portais podem ser bairros ou casas. Podem ser pequenos córregos, sons, perfumes, objetos, imagens, ou palavras. Fato é que nos conduzem ao campo das lembranças. Lembranças do vapor quentinho do bolo de fubá recém tirado do forno, da impermanência dos brinquedos improvisados com qualquer sucata para brincadeiras de rua, do cheirinho de goiaba dos quintais antigos, do chiado da música tocando na estação mal sintonizada do rádio da cozinha. Lembranças que permitem o regresso aos braços das avós, e que nos religam à nossa ancestralidade. Essa ligação é essencial à memória que nos constitui, em cultura e identidade, como parte de um corpo maior, mas vem sendo apagada pelas sociabilidades modernas que hoje predominam, sobretudo nos espaços urbanos.

A ciência, a tecnologia e a modernidade, categorias convencionalmente relacionadas a noções de desenvolvimento, progresso e civilização, de modo geral, são defendidas como ferramentas exclusivas para a produção de conhecimento. Por outro lado, e muito equivocadamente, os conhecimentos que constituem a sabedoria ancestral são associados à ideia de atraso, ignorância e incivilização. Isso é lamentável, porque o desprezo a esses saberes vai nos levando à perda incalculável de um enorme conjunto de possibilidades de conhecimento, inclusive sobre nós mesmos. O próprio processo de aprendizagem vai se empobrecendo com essa uniformização, onde se crê que tudo, inclusive o conhecimento, é melhor produzido e reproduzido por máquinas.

Não se trata de nostalgia, mas eu prefiro esquentar os alimentos no fogo. Nem tenho micro-ondas. Gosto de café coado. Aprecio moradas com quintais e jardins, onde a terra bebe a água da chuva e as portas ficam no nível da rua. Como ficar indiferente e não se deixar agredir pelos grandes empreendimentos que levantam prédios com mais de dez andares? Máquinas imobiliárias derrubam casinhas antigas a qualquer custo, anunciando em panfletos a morada perfeita para a felicidade e aprofundando o apagamento das histórias das pessoas e das cidades. É um privilégio, mas também uma escolha, apreciar um pôr do sol em São Paulo, na calçada em frente à morada que resiste em uma praça pitoresca, com amigos que vivem com as portas da casa e da alma abertas, e que sabem falar sobre o crescimento de cada ser vivo com quem coabitam. Um desfrute singular que nos permite cruzar um desses portais.

Não é todo mundo que valoriza isso. Muita gente nem se dá conta de como a sociedade foi naturalizando a monetarização de bens que deveriam estar disponíveis a todos, o consumo de coisas industrializadas de modo associado ao descarte dos orgânicos. Passou a ser regra o uso de luz elétrica no lugar da luz do sol, a ser comum a substituição do vento pelo ar condicionado, passou a ser corriqueira a desconsideração do uso ritual de elementos naturais como plantas, e exótica a realização de tarefas com os próprios pés e mãos, sempre que uma máquina possa fazê-las em seu lugar.

Pertenço a uma geração em que a maioria das pessoas é filha ou neta daqueles que nunca frequentaram universidade, que não estudaram tudo o que hoje se preconiza, ou que nem estudaram nada. E que, de modo aparentemente contraditório, sabiam tudo. Um “tudo” super importante que foi sendo, no entanto, deixado de ensinar e aprender, por uma máxima opressora que defende o conhecimento científico como a única ou a mais importante forma de saber.

Me lembro de cada plantinha que eu pegava do quintal da vovó, sob sua prescrição, para curar isso ou aquilo. Me lembro das sessões em benzedeiras, das rezas, e das longas histórias contadas sobre seu fulano ou dona beltrana, para que compreendêssemos de forma afetiva as coisas importantes da vida. Essas práticas foram sendo, paulatinamente, taxadas como símbolos de atraso, com base numa lógica segundo a qual o passado não tem serventia e precisa ser superado em nome de um progresso. Sinto uma tristeza profunda em relação a isso, porque essa desqualificação vai nos desconstituindo culturalmente, e nos transformando em uma massa homogênea cada vez mais distante da sabedoria da terra. Quando estou numa comunidade indígena, percebo que a desenvoltura do meu caminhar é muito inferior à de um homem de mais de 70 anos, noto que preciso do dobro do tempo que uma criança de 9 anos leva para descamar um peixe ou descascar uma macaxeira. Porque no fim, a gente vai desaprendendo o que é essencial, e vai deixando de andar descalça, e vai perdendo o tato que nos permite sentir as diferentes texturas da vida…

É claro que os conhecimentos tradicionais alcançam muito além de caminhar na mata ou descascar mandioca. As pessoas do campo e da floresta, como me disse certa vez um xamã, têm as suas próprias ciências. Suas próprias história e línguas, sua própria geografia, sua própria engenharia, medicina, botânica, e etc. Essas ciências não são melhores nem piores. São alternativas àquilo que hoje predomina. Mas a sociedade ocidental moderna simplesmente as despreza, por considerá-las atrasadas, e em consequência, inferiores. Nas cidades, a sabedoria tradicional foi sendo combatida, e as singelas noções desses conhecimentos a que tivemos acesso em algum momento, foram sendo soterradas e apartadas do nosso sentido de aprendizado. As práticas tradicionais foram sendo substituídas pela imposição de uma falsa necessidade de racionalizar tudo, de comprovar tudo, de modernizar tudo, comercializar tudo, copiar e importar tudo, e de padronizar. A promoção da ciência a esse pedestal do conhecimento válido, foi sustentada por fatores econômicos, políticos, e epistemológicos, e desencadeou, não só o rompimento do elo individual de cada sujeito com sua ancestralidade, mas um apagamento da nossa memória cultural coletiva e social.

Além disso, a monocultura europeia, decorrente de nosso processo de colonização, se sobrepôs de modo muito violento às especificidades dos nossos diferentes modos de vida. Com isso, nossas narrativas foram sendo diminuídas, e nossa sociedade foi abrindo mão de seus próprios sentidos de expressão. As histórias de divindades europeias, por exemplo, são tratadas no campo da mitologia, mas as nossas, são reduzidas a meras lendas ou crendices. Pouca gente hoje fala dos encantos do boto, das peripécias do saci, ou das aparições encantadas do caipora, do boitatá, ou do curupira. E assim, a gente vai perdendo os traços que diferenciam as nossas categorias de ver e explicar o mundo, e as culturas de nossa sociedade ficam pejoradas sob a classificação de folclore. A colonialidade e a modernidade roubaram nossa história, e continuam apagando nossas memórias para que nos dispamos de nossas identidades.

A urbanização contribuiu de maneira significativa para intensificar esse processo de homogeneização sociocultural. Viver em grandes cidades hoje, na maior parte das situações, é submeter-se de modo mais intenso à supressão de identidades culturais. E se não atendermos ao imprescindível resgate e transmissão dos saberes tradicionais que ainda guardamos, as gerações futuras serão completamente privadas do acesso a essa memória, e por aí teremos mais dificuldades em compreender e expressar o que somos.

Nossas narrativas foram sendo diminuídas, e nossa sociedade foi abrindo mão de seus próprios sentidos de expressão.

A gente precisa se dar conta disso. A história não tem um sentido único predeterminado. Ninguém nunca provou que o tempo caminha rumo ao progresso e ao desenvolvimento, embora muitos queiram nos fazer acreditar que esse é o tipo de futuro paradisíaco. No fundo, não estaremos em nenhum lugar ou em tempo enquanto não soubermos sequer quem somos. A construção de um futuro que consolide transformações sociais por que lutamos, demandam um “olhar para o passado”, porque nossa grande revolução está intimamente ligada a um resgate cultural e a libertações identitárias. Se a cidade grande vai privando nossos pés do direito a pisar na terra, precisamos estar dispostos a encontrar ou construir esses portais, e a cruzá-los. E quem sabe, ao redimensionar nossos espaços-tempos, possamos reconstruir nossas memórias, reafirmar nossas identidades, para assim transformar nossas sociabilidades.

 

E devemos dizer: Da forma que for possível, independente de que forma ou presença nesse plano, dê um jeito de conversar com sua avó agora. <3

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