Crer pra ver ou ver pra crer: existe verdade absoluta?

Para os crentes, sim. Para os descrentes, também. Para as religiões monoteístas, Deus é uma verdade inquestionável. Para os ateus, Deus é um delírio inquestionável. Um dogma religioso e um método científico: dois pontos de partida aparentemente opostos, mas ambos bem confiantes: crer para ver e ver para crer.

A verdade é que nenhum ser humano sobre a face da Terra jamais flagrou os acontecimentos do mundo em sua totalidade. Portanto, ninguém teve acesso direto a todos os fatos nem o privilégio da informação completa, podendo-se concluir que nosso ponto de vista sobre qualquer assunto é, por princípio, limitado. Nossa opinião é essencialmente formada com base em diversos relatos sobre o mundo lá fora, sendo a porção empírica da nossa experiência apenas uma pequena parte de tudo o que chegamos a conhecer.

Da tradição oral à internet, passando pela revolucionária prensa de Guttenberg, todo fato objetivo que se propagou e virou informação teve, no mínimo, um agente observador e delator antes de chegar até você. Mas, até pouco tempo atrás, contávamos com o conforto de uma limitação para nos dar alguns parâmetros sólidos da origem da informação: a condição analógica da tecnologia. Nossas fontes de informação eram oficiais e eram as mesmas: imprensa, governo, ciência. Mesmo sabendo que a subjetividade estava presente em forma de preferências, tendências ou ideologias, a notícia era nosso fato objetivo: falávamos todos sobre a mesma referência e a sociedade tomava decisões com base nisso. Nesse estado mais confortável, o percurso da informação era previsível e tínhamos uma equação de primeiro grau.

Na Era da Pós-verdade* somos desafiados por uma contradição: verdades parecem brotar de toda a parte o tempo todo, ao mesmo tempo em que fica impossível ter acesso à verdade propriamente. O fato objetivo parece algo longínquo e encoberto por incontáveis camadas de algoritmo sobrepostas, numa equação cujo resultado nem os melhores matemáticos podem prever. Aparentemente, essa crise da informação é uma crise também de identidade: em quem posso confiar, com base em que eu me posiciono e, afinal, como as pessoas me veem – demasiado à esquerda, à direita ou em lugar nenhum. Começamos a questionar nossas fontes, não só oficiais como a Imprensa, mas também pessoas, cuja opinião um dia pareceu sólida e ponderada. Quando achamos, então, que as instituições poderiam nos salvar, oferecendo um porto seguro indiscutível, elas se encontravam no mesmo barco que nós, impactadas pela oscilação de um mundo que lida mais com fake newsdo que com parâmetros.

Narrado assim, o cenário parece a tempestade do apocalipse da informação. Mas é preciso lembrar que toda crise na história da humanidade levou a mudanças estruturais importantes. Voltemos à Ciência. Galileu apoiou a ideia de Copérnico de que a Terra orbitava o Sol, não sendo, portanto, o centro do Universo. Foi condenado pelo Tribunal Eclesiástico, maior detentor da verdade à época. Tratou-se de uma crise de fonte de informação, de parâmetros da verdade e, portanto, uma crise de identidade coletiva: quem estava certo, o cientista inovador ou a representante do Criador na terra? Até que se pudesse provar que ele tinha razão, nossas referências de certo e errado ficaram em suspenso, ao mesmo tempo em que Igreja e Ciência se digladiavam e pessoas iam tomando partido, orientadas ou pelo medo ou pelo benefício da dúvida: e se o inovador tiver razão?

Com a verdade consentida em suspenso, é preciso adotar novos parâmetros. Faz lembrar que estamos em boa época também para questionar os próprios parâmetros: queremos confiar cegamente neles? Precisamos? Ou como estabelecer critérios de checagem constante para que eles possam permanecer confiáveis. E, ainda assim, por que não propor que um parâmetro é só uma referência para um senso comum, não a verdade absoluta? De onde vêm o consenso sobre os parâmetros? Ele contempla grupos minoritários e desprivilegiados, ou somente reforça um status quo? E qual verdade nos é mais conveniente?

Podemos escolher lidar com essa realidade com desespero e pressa, tentando reestabelecer rapidamente e de forma autoritária parâmetros perdidos, assumindo o risco quase óbvio de um cenário dramático: de desentendimento, violência, opressão, repressão, perdas humanas e um atraso enorme no avanço da criatividade. Ou podemos aceitar que nossa estrutura colapsou, não servia mais e precisa ser revista, criando assim espaço para o novo, que só pode vir com inclusão, tolerância e diálogo. Fala-se em tolerância não como a aceitação forçada de uma convivência que incomode, mas sim como um ganho da consciência de que acolher a diversidade é a única via possível pra sobrevivência da espécie. Poderia citar Charles Darwin e a teoria da mutação; poderia citar Nilton Bonder alegando que a traição da tradição viabiliza nossa sobrevivência como espécie; poderia citar Clotaire Rapaille, que comparou prosperidade a fluxo sanguíneo, sugerindo que dinheiro é produto de movimento; poderia lembrar que água parada é criadouro de mosquito para argumentar que VIVER É MUDAR.

Em meio a tantas “verdades” duvidosas, uma certeza parece despontar: a de que nada será como antes. Então se é assim, pra que resistir tanto à mudança? Quanta energia, tempo de vida e esforço emocional se perdem nas tentativas frustradas de permanecer no barco que já furou. Aquela cena dos violinistas tocando sobre o Titanic que afunda me lembra que eles não tinham opção, mas que nós temos. Estamos vivendo uma excelente oportunidade para reescrever as regras do jogo de nossa sociedade. Na era digital, onde algoritmos interferem em resultados de eleições e nossos dados passarão a valer mais do que petróleo, a opinião e a ação de cada indivíduo conta. Pela primeira vez na História. A decisão de passar uma informação adiante sem checar sua fonte, conta. A de ceder seus dados para uma empresa em troca de jogar online, conta. Em troca de usar um app, também conta. Toda movimentação que você decide fazer no ambiente digital deixa rastros e tem consequências. Segundo Yuval Harari, em entrevista recente dada ao Roda Viva da TV Cultura, um algoritmo pode perceber que uma pessoa é homossexual antes mesmo dela poder admitir isso para si mesma.

Um algoritmo é feito da soma de muitas informações que cada um de nós fornece sobre si para o sistema, com consentimento. E pensar que até hoje a única ferramenta que permitia manifestar oficialmente uma escolha, com efeito coletivo e sem discriminação, era o voto. Estamos votando a cada movimento registrado e a cada escolha feita no ambiente digital. Isso faz pensar que cada um de nós precisa tomar posse da sua importância e da sua responsabilidade nesse novo sistema. É perigoso admitir isso, mas mais do que nunca cada indivíduo precisa passar a ser, para si, uma importante referência. Isso tem dois lados: cidadãos mais autônomos e bem informados ou células isoladas da verdade e iludidas em suas bolhas.

Devemos nos perguntar: como me informo mais e melhor para poder tirar minhas próprias conclusões? Como me baseio em diversas fontes para não ter uma opinião demasiado enviesada e não propagar fake news? E, acima de tudo, como me disponho a mudar de opinião, se necessário? Esse não é um processo fácil, como nenhum desapego é fácil. Será preciso pôr em xeque nossas verdades pessoais, nossos parâmetros de certo e errado. Será preciso aprender a ouvir para dialogar e fazer isso fora das arenas protegidas e unilaterais das redes sociais. Será preciso escapar do ativismo de sofá e aplicar sua ideologia nas escolhas cotidianas, profissionais inclusive. Será preciso amar o próximo – quem diria, o mais antigo ensinamento sobre a convivência civilizada – se quisermos sobreviver como espécie. Já parou pra pensar que o homo sapiens, único animal sobre a terra provido de consciência e que toma decisões além-instinto, é predador dele mesmo? Ora, será que ao destruir o meio ambiente e oprimir minorizados não estaríamos implodindo um projeto inteiro de humanidade?

Para conseguir por à prova isso tudo, das fake news à sobrevivência da humanidade, não será possível escapar do maior enfrentamento de todos: o de si mesmo. É preciso perguntar qual verdade estamos procurando, se a nossa verdade não é apenas a expressão de uma conveniência e se não estamos evitando olhar para verdades em nós mesmos de que não gostamos. Só depois de vasculhar e enfrentar esses bastidores pessoais é que teremos estrutura para transferir um projeto melhor de futuro para o plano coletivo e vislumbrar com mais otimismo e excitação a sociedade que queremos (vi)ver.

Apenas uma verdade é absoluta: esta vida é uma oportunidade única e finita. Estamos abrindo a terceira década do novo milênio, uma nova chance de colocar nossos talentos a serviço de um projeto de sociedade, que inclua a nossa felicidade pessoal ao mesmo tempo em que dá espaço para a expressão do outro. Cada decisão que tomamos – cada clique dado, cada fofoca espalhada, cada intenção verbalizada, cada item comprado, cada voto – tem impacto no coletivo, por menor que pareça ser seu poder de influência. Estamos numa aldeia global, como previu McLuhan, e já conseguimos nos dar conta disso. Vamos aproveitar essa ampliação de consciência e esse momento conturbado da História para assumir nossa responsabilidade individual no comando dessa nave. O mundo nunca precisou tanto de cada um de nós.

*Neologismo: na hora de criar e modelar a opinião pública, fatos objetivos têm menos influência que o apelo às emoções e crenças pessoais.
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Vá Além

Ações e verdades. Um novo comportamento entre o poder institucional e a potência do povo

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