A desigualdade ao redor

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Embora o mundo caminhe para avanços nos discursos e tecnologias nos mais variados âmbitos, o problema maior não pára de crescer - a desigualdade, e o seu custo.

por Rômulo Manzatto

Não faz tanto tempo assim, deve ter passado pelo seu feed o vídeo com a fala contundente de Rutger Bregman em um dos painéis do Fórum Econômico Mundial, realizado na cidade de Davos, na Suíça.

Na ocasião, o historiador holandês pediu a palavra para expor o que considerava como algumas das muitas contradições do tradicional evento realizado anualmente em uma exclusiva estância turística nos alpes suíços.

Para Rutger, causava estranheza, por exemplo, que mais de 1500 jatos privados houvessem voado até ali para participar de rodas de conversa sobre a necessidade de combater as causas do aquecimento global enquanto contribuíam intensivamente para a piora desse cenário.

Outro problema, dizia o historiador, parecia estar na falta de conexão entre a linguagem usada na maior parte dos painéis e a disposição para realmente atacar as causas dos principais problemas ali discutidos. Rutger considerava haver um assunto de maior interesse que estava sendo evitado, justamente a questão da evasão fiscal, isso é, os mecanismos encontrados pelos mais ricos para evitar o pagamento de seus impostos.

Na linguagem típica de um millennial, o jovem historiador de 29 anos brinca ao dizer que falar sobre desigualdade sem tratar dos problemas decorrentes da evasão fiscal era como estar em uma conferência de bombeiros onde fosse proibido mencionar a palavra “água”. Diz ainda que os esquemas de filantropia discutidos no evento não passavam de estupidez e que uma discussão sobre desigualdade que evitasse a questão dos impostos seria pura bobagem.

Eu ouço pessoas falando a língua da participação, da justiça, da igualdade e da transparência mas quase ninguém levanta a real questão da sonegação fiscal, certo? E a que os ricos simplesmente não pagam a quantia justa. 

Rutger Bregman - Davos, 2019.

Você pode concordar ou não com os polêmicos argumentos de Rutger Bregman, mas o fato é que nos dias seguintes, sua participação no painel de Davos viralizou, o que lhe rendeu mais algumas rodadas de entrevistas em programas de TV ao redor do mundo e mais tempo de mídia para divulgar suas ideias.

Acontece que a questão de fundo que orienta a intervenção de Bregman, assim como a dos outros participantes do painel, é a de tentar propor soluções para combater o que tem sido diagnosticado como um expressivo aumento da desigualdade econômica nas últimas décadas.

Em termos mais amplos, a questão central a ser discutida, como posta pelo curto clipe de apresentação do painel, é a de procurar compreender como o custo da desigualdade – expressão que dava nome ao encontro – parecia aumentar conforme também aumentava a distância entre ricos e pobres em termos de renda. (Você encontra o vídeo completo da discussão aqui).

Isso significa tentar refletir sobre como o aumento pronunciado da desigualdade econômica nos últimos anos pode estar contribuindo com o aumento da violência, com a piora persistente da qualidade dos serviços públicos, além de potencialmente servir de combustível para a ascensão de lideranças políticas de caráter autoritário ao redor do mundo.

Essas questões, sem dúvida importantes, postas em Davos, tomam como pressuposto o aumento da desigualdade econômica global e procuram lidar com essa questão, ou mesmo propor soluções para o problema. Mas antes disso é natural indagar: Qual o tamanho real desse problema? Em que magnitude a desigualdade econômica mundial pode realmente ter aumentado nos últimos anos?

Essas perguntas específicas são algumas das respondidas pelo mais recente World Inequality Report (Relatório da Desigualdade Mundial), produzido por um reconhecido grupo de especialistas, entre os quais figura o economista francês Thomas Piketty, talvez a principal figura acadêmica responsável por trazer a agenda da desigualdade para o centro do debate público nos últimos anos.

Os dados reunidos pelo último relatório mostram uma situação preocupante. A desigualdade de renda aumentou em praticamente todas as regiões do mundo nas últimas décadas.

Segundo o relatório, a desigualdade de renda é atualmente menor nos países europeus, onde os 10% mais ricos se apropriam, em média, de 37% de todas as rendas nacionais. Na China e na Rússia, os mais ricos abocanham respectivamente 41% e 46% de toda a renda.

Já no Brasil, os níveis de desigualdade são superiores aos da média da região da África subsaariana e empatam com a Índia, onde o mesmo contingente de 10% mais ricos fica com 55% de toda a renda nacional. Em termos de desigualdade, Brasil e Índia ficam atrás somente do Oriente Médio, onde os mais ricos detêm 61% de toda a renda disponível.

Em uma época em que aumenta a desconfiança quanto aos fatos, é importante lembrar que a base de dados utilizada no World Inequality Report é aberta, assim como a metodologia e as notas técnicas. O que permite que os resultados da pesquisa sejam reproduzidos, comparados e mesmo contestados por qualquer interessado.

Outra interessante conclusão é a de que a desigualdade tem aumentado em todas as regiões do mundo em velocidades diferentes. Desde o início da década de 1980, o aumento foi mais rápido na América do Norte, na China, na Índia e na Rússia. O aumento foi moderado nos países europeus, com níveis historicamente mais baixos de desigualdade e permaneceu relativamente estável no Oriente Médio, no Brasil e na África subsaariana, regiões em que o nível de desigualdade de renda sempre foi alto.

Em perspectiva histórica, a pesquisa mostra que ao considerar as trajetórias de China, França, Reino Unido e Estados Unidos, a desigualdade de renda diminuiu de maneira pronunciada entre a primeira década do século XX e o início da década de 1980, momento em que a trajetória de queda é interrompida e a desigualdade passa a subir em todo o mundo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o aumento recente da desigualdade foi particularmente acentuado. Em 2015, o nível de desigualdade de renda no país, considerando agora a parcela da renda nacional apropriada pelo 1% mais rico, estava em patamar semelhante ao que se verificava no início da década de 1940. É quase como voltar no tempo.

É difícil apontar uma causa única para esse aumento na desigualdade econômica em todo o mundo. As trajetórias da desigualdade variam de país para país e a velocidade de seu crescimento é muito influenciada pelo conjunto de instituições e políticas públicas existentes em cada formação nacional.

O relatório aponta que as desigualdades no acesso à educação são parte importante do problema. Em aspecto macroeconômico, a pesquisa sugere também que pode haver uma relação entre os processos de privatização e transferência do patrimônio público e o aumento da desigualdade. Uma agenda de pesquisa que ainda precisa ser aprofundada.

As perspectivas para o futuro não são das melhores. Para os pesquisadores, existem dois cenários em que o aumento da desigualdade global tende a aumentar substancialmente até 2050, e outro, mais otimista, em que a desigualdade diminui moderadamente.

No pior cenário, a desigualdade mundial pode se aproximar dos patamares históricos vigentes no Brasil. Ironicamente, é possível que o Brasil se torne um novo tipo de paradigma global de sociabilidade e convivência, não porque conseguimos nos aproximar do nível de igualdade já alcançado em outros países nos anos do Pós-guerra, mas porque o mundo talvez caminhe para um futuro mais parecido com o que vivemos no passado e no presente.

Nada disso é irreversível. Em alguma medida, é mesmo inevitável que exista algum nível de desigualdade econômica. Até porque as formas de trabalho, investimento, e mesmo as capacidades de realização variam entre regiões, países e pessoas. Cabe a cada sociedade determinar democraticamente o nível de desigualdade com que se está disposto a conviver.

Em todos os casos, ignorar o problema, ou fingir que ele não existe, está longe de ser uma boa solução.

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