Gosto não se discute, religião sim.

/

por Fabio Lafa

Na terra da diversidade, estamos falhando ao mencionar as bases econômicas, sociais e espirituais das pessoas. Problema é crônico, caro, e grave – precisamos conversar

 

As semanas passam e a verdade é: não estamos conseguindo superar falhas enquanto sociedade. A estrutura desrespeitosa com a espiritualidade e as origens mistas no Brasil tem seu ápice no racismo requentado do Brasil Colônia (a mão que bate) e a romantização da diversidade (a boca que assopra). Estudos são propostos, especialistas são consultados, influencers aos montes apontam onde estamos errando e, didaticamente explicam sobre o racismo velado em que vivemos mas, tornamos a perder os sentidos da visão e audição, agredindo a história de 54% da população através da religião.

Papo delicado. Em um lugar onde religião faz parte daquelas coisas sagradas que “não se discute”, o ato de recrutá-los pra se divertir é muito incoerente. É difícil, mas infelizmente possível, que talvez não tenhamos até então base argumentativa suficiente chegando ao nosso conhecimento do que é exatamente desrespeito às religiões de matriz africana, então transformemos essa conversa num combinado pontual sobre detalhes importantes:

 

Entender primeiramente, que é sagrado

Assim como a sua corrente religiosa, a umbanda e o candomblé tem regras e reverências devidas. E vem salvando a sanidade de muitas pessoas, que por vezes carregam traumas adquiridos no seio das correntes religiosas mais seguidas. Tratar as religiões de matriz africana como seitas como falta de respeito, é ser raso. Considerando que por todas as influências culturais que cercam a vida do brasileiro, muitos de nós gosta de se posicionar socialmente dentro de uma religião, em uma conversa no trabalho por exemplo, e pedir socorro em uma outra religião quando o “calo aperta”, quando a vida e/ou os negócios vão mal. E o famoso banho de sal grosso, entra em cena. Por que tratar correntes religiosas que são história de um povo como plano B?

 

Tendência e moda – termos parecidos, não iguais

A necessidade de nos conhecer internamente fez de fato procurarmos outras filosofias religiosas para seguir. E de fato, a lei do retorno nas nossas ações e pensamentos e o exercício constante da disciplina (atitudes base da umbanda e candomblé) acolheu as pessoas. A falha ocorre quando não absorvemos isso profundamente nas nossas vidas, e flexibilizamos a seriedade – resultado: estamos elegendo quando e como aplicar devoção. O que me salva hoje, eu banalizo amanhã. O mal hábito de dosarmos o antropocentrismo com a devoção dentro de nossa ótica (de alcance curto inclusive), a auto-suficiência nas fases boas da vida, nos levam a ferir esses símbolos. A exemplo o caso onde uma cadeira de vime branca, que dentro da tradição do candomblé, simboliza a alta hierarquia espiritual conquistada pelo legado, vivência, entrega pessoal a uma filosofia; não pode ser o ponto “instagramável” de VIPs em uma festa de aniversário – sim, aquela festa.

A popularização das religiões afro dentro dos ambientes da cultura e pensamento progressista é bom para mudar a visão de seita do mal que as pessoas concentram? Sim. Só vale o cuidado. O interesse pelas cores, ritmos e cantos durante celebrações às divindades africanas devem ser pautados pelo mesmo respeito e reverência. No começo de fevereiro durante a celebração do dia de Iemajá, as ruas da Bahia foram tomadas de pessoas que lotaram as festividades. Lindo de se ver. Mas copiando o slogan dos protestos em São Paulo de 2013, vale a máxima – Orixá não é rolê.

 

 

om

 

"Iemanjá não tem Instagram. Então, se a sua devoção é só uma foto no Instagram,eu queria dizer que Iemanjá não vai ver".
Bela Reis, Jornalista e Youtuber

Intolerância, que desrespeita e mata.

Além de ao mesmo tempo ter que lidar com o assédio que quem o procura ao seu bel prazer, as religiões africanas sofrem social e fisicamente com o fanatismo. Frentes radicais continuam repreendendo e anulando seguidores, pais e mães de santo e quebrando terreiros nas favelas do Rio de Janeiro – e nome de Deus. Independente de qual das correntes cristãs a que eles se baseiam, vemos novamente a inclusão do plano que visa o total silenciamento (da parte “não-interessante”, de uma visão distorcida e cruel) das vozes, expressões e celebrações que fortalecem nossas influências africanas, enquanto povo. Desde não poder sair com roupas brancas a destruição por completo dos terreiros e serem expulsos das favelas sem ter sequer para onde ir. De novo: em nome de Deus. Mesmo onipresente, Ele não está sabendo disso.

 

O plano segue, conforme o projetado

E importante ressaltar: esse movimento é global. No segundo semestre do ano passado foi lançado um relatório da Pew Research Center, entidade que mapeia comportamentos em âmbito global, mostra que os aumentos no número de cristãos no mundo são mais expressivos na America do Sul e África, que mostra a surpreendente marca de 79% na África do Sul e 89% em Ghana de cristãos que acreditam que a religião é mais importante que suas vidas. E abrindo um parecer aqui: não se trata pura e simplesmente de pessoas optando pela mudança de religião e consequente devoção veemente. Sabemos historicamente, o quão eficazes são os processos de alienação em massa através da religião. Em absoluto, todas as correntes religiosas, cristãs ou não, em sua essência trazem um código de conduta e boas práticas, como uma importante ferramenta para a saúde mental das pessoas. Não podemos aqui, ter uma visão seletiva sobre um fanatismo mais ou menos nocivo (como talvez o muçulmano, que estamos acostumados a dizer “nossa, que horror!”).

O candomblé na África é uma forma de conexão com uma divindade e um plano superior obviamente, mas também carrega muito do que é praticado enquanto sociedade, costumes e maneira de viver. E atrás disso, países do ocidente se beneficiam de uma desestruturação dessas sociedades (bem como Darcy Ribeiro dizia em O Povo Brasileiro sobre os projetos de Portugal e Inglaterra, que anulavam toda e qualquer expressão natural dos povos durante o processo de invasão e “colonização”, forçando-os a novos costumes).

Assim
 é 
que 
a 
Ibéria 
e 
a Grã‐Bretanha, 
tão 
recheadas 
de 
duras 
resistências
 dos
 povos
 que
 englobam
 em
 seus
 territórios,
 que
 jamais
 conseguiram
 digerir,
 aqui
 deglutem
 e
 dissolvem
 quase
 tudo.
 Onde
 se
 deparam
 com
 altas
 civilizações,
 seus
 povos
 são
 sangrados,
 contaminados,
 decapitados
 de
 suas
 chefaturas,
para
 serem 
convertidos 
em
 mera
 energia 
animal 
para
o
 trabalho
 servil.
 Essa
 gente
 desfeita
 só
 consegue
 guardar
 no
 peito
 o
 sentimento
 de
 si
 mesmos,
 como
 um
 povo
 em
 si,
 a
 língua
 de
 seus
 antepassados
 e
 reverberações 
da 
antiga 
grandeza.

Darcy Ribeiro (1995, p. 68) - O Povo Brasileiro - Cia. das Letras


 

Depois que inventaram a desculpa…

A dominação social/política/econômica repaginada para os nossos dias vai justamente nesses constantes episódios de pessoas que, dentro de um privilégio descansado na trama dinheiro na conta, sobrenome europeu e reconhecimento de mídia, criaram um protocolo de ação “mal pensada”, pedindo desculpas nas redes sociais, enfatizando suas boas ações, seguido de agressividade contra o politicamente correto. Ah claro, a cereja do bolo: “O Brasil tá chato, não pode falar nada!”. Empresas, celebridades, atletas, influenciadores, todos abismados com as interpretações cruéis a que são colocados suas inocentes ações. Na tentativa propositalmente equivocada das classes privilegiadas em exaltar elementos da cultura africana e afro brasileira, mensagens são implantadas sem uma única palavra dita. E todas vão de encontro à demonização do que não se conhece a fundo e qualquer cultura fora do eurocentrismo é tratada como decoração. O pano de fundo da história afro-brasileira é a servidão.

Organizações e pessoas já não podem se valer dessas ferramentas, onde elementos trazidos para o Brasil em cima de violência e morte, escravidão e racismo sistêmico que resultam em um quadro, onde mais da metade da população ainda falha em se levantar, se conhecer, expor suas impressões e ser ouvido. A contribuição dos povos africanos na cultura brasileira não foi facultativa. E dentro de todos esses episódios de desrespeito onde os autores alegam inocência e má interpretação das pessoas, o plano de supremacia continua:

 

Comitês de Diversidade? Podemos fazer melhor.

O plano para gestão de crises mais rápido e predileto das empresas, é informar nas notas de retratação que criará grupos para discutir e repensar posicionamentos racistas em suas campanhas e pronunciamentos. Pessoas conversam, todos colocam a mão na consciência e procuram entender onde erraram, e rios de dinheiro são pagos nas sentenças judiciárias. Mesmo que não seja tão expressivo no orçamento às vezes, faço um convite aos executivos e acionistas: Sabe o que é muito mais moderno que um Comitê de Diversidade? É a sua empresa ter uma mesa de estratégias diversa. É por vezes ouvir sua linha de frente, sua força operacional, os estagiários com o mesmo afinco aplicado para ouvir o cliente. Contratar pessoas única e exclusivamente para direcionar suas ações, não esbarrando e ferindo a raça, gênero e orientação de ninguém não torna uma empresa “legal”. Falamos já sobre atitudes bem vistas pela nova geração de consumo, mas vale lembrar.

Mas atitude que se espera é que profissionais negros estejam diretamente ligados na criação e execução desses passos, que profissionais negros estejam presentes na tática e na estratégia do seu produto; e o engajamento, empatia, diversidade e todas as expressões que estão em alta e seus gerentes falaram na reunião essa semana, vão de fato aparecer. Gastando menos, diga-se de passagem.

Passamos a semana olhando todas as discussões acerca desses pontos e, de fato tem muita gente boa conduzindo os bons caminhos. Da nossa ótica, achamos por bem complementar dentro da nossa seara de, como nos comportamos hoje e como é melhor se comportar amanhã. Novamente, convite feito: nós, que gostamos de pensar em futuro, troquemos o racismo estrutural pelo respeito estrutural no nosso dia a dia de Brasil.

Fechado? Fechado. Passe para os amigos. Até semana que vem.

 

Versão resumida ×

Exibir texto integral

Vá Além

DEPOIS DOS TEMPOS LÍQUIDOS: ESPIRITUALIDADE CONTEMPORÂNEA E A BUSCA POR PROPÓSITO

Hábitos emergentes promovem o autoconhecimento e novos negócios sugerem um estilo de vida menos focado em acúmulo de capital

Comente

Mudando de assunto...

Transparência na cultura corporativa

Empurpose

Em um mundo dominado por notícias falsas, aquilo que se pode ver com clareza vale muito. Hoje o desejo se cria justamente sobre a honestidade e transparência. A demanda não é por empresas perfeitas, mas por empresas em que se possa confiar.

Ídolos reinventados: influenciadores digitais e representatividade

Youth Mode

Ídolos mudam de geração para geração. Nesta, chegamos aos digital influencers, que são famosos, às vezes, apenas por ter um corpo bonito ou uma vida invejável. Porém a imagem esgota-se em si mesma, contaminando não só quem a adora, mas também quem a produz. Youtubers e Instagrammers ativistas despontam como novos ídolos, espalhando, além da imagem, mensagem.

Reconhecimento de face, política e proteção de privacidade

ACTRULY

E se de repente a tecnologia de reconhecimento de face fosse uma importante ferramenta para uma sociedade mais segura – e ao mesmo tempo, não?   Alguns problemas com proteção à privacidade das pessoas foram tratados com algumas leis específicas, na Russia. Alguém pode atravessar a faixa de pedestres quando não for permitido e ver…