Estamos dependentes de CBD antes mesmo de usar?

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A essas alturas na sua timeline já deve aparecer alguma lojinha legal que comercializa produtos à base de CBD, e já está na programação passar por ela na próxima viagem. Mas antes de transformar um estudo sério no Santo Daime dos dias atuais, uma reflexão antes da ação.

por Fabio Lafa

Em um tempo relativamente curto, um resultado de pesquisa se transformou no mais novo milagre de cura para várias doenças, culinária e beleza, além de o mais promissor dos mercados discutidos no mês passado durante o SXSW. O CBD, termo rápido para o canabidiol é um dos 113 canabinoides encontrados na cannabis sativa e permanece dividindo opiniões, quando pensamos nos aspectos: sua eficiência profilática e/ou ação efetiva sobre diversas doenças (como as do sono, ansiedade, dores crônicas), o aquecimento da discussão que traz um hype desesperado e inevitável, e a legislação sobre essa indústria que precisa de uma validação da opinião pública.

Talvez estejamos ainda mais ansiosos pensando em tudo isso de uma vez. Vamos respirar e pegar um aspecto de cada vez:

 

História

A maconha é uma planta originária da região que hoje entendemos ser o Afeganistão, e já era utilizada na China lá pelos 2700 anos a.C. pelo imperador Shen Nung, considerado o pioneiro no enfoque da medicina natural e também foi utilizada por diversos povos nos 5 continentes. No desenrolar dos avanços medicinais, a primeira vez que falou-se em isolamento dos canabinoides da cannabis sativa foi em 1963 durante pesquisas na Universidade Hebraica de Jerusalém em Israel, pelo Prof. Dr. Raphael Mechoulam, um químico orgânico nascido na Bulgária. Em 1973 essas pesquisas chegaram no Brasil pela primeira vez mas rapidamente criticadas por uma opinião pública embasada em outros conceitos políticos e sociais – até hoje, claro.

O grande sacada nessas pesquisas se baseiam na descoberta do sistema endocanabinoide no organismo humano, que é a combinação de nervos, neurônios e a síntese de proteínas que reagem a situações críticas de fome, sono, apetite e principalmente, dor. Já é de nosso conhecimento que o organismo produz respostas hormonais para equilibrar nosso bem-estar assim que o corpo entende que existe uma situação crítica. Esse conjunto de transmissão neural em contato com os canabinoides da cannabis sativa (dentre os mais potentes e eficazes, o CBD), acelera o processo de analgesia em resposta ao sintoma que o organismo venha a ter, principalmente falando em crises de dor decorrentes da artrite, do reumatismo, dos estágios avançados de câncer e da AIDS.

Também importante ressaltar a mais importante das características do CBD: ele enquanto isolado, é livre dos efeitos psicoativos da maconha causados pelo mais falado dos canabinoides, o THC (a boa e velha “brisa”). E acaba partindo daí a dualidade na aprovação e abertura do mercado quase que em todas as sociedades.

 

Indústria e Mercardo

O cannabusiness, como é chamado todo o mercado em torno da maconha e seus derivados, projeta faturar US$ 5,7 bilhões (R$ 20 bilhões) em 2019 e US$ 22 bilhões (R$ 80 bilhões) até 2022, segundo a consultoria Brightfield Group. A diretora de pesquisa do grupo Bethany Gomez diz que a Web Holdings, maior acionista do setor, cresceu 172% em 2016-17 e estima ter faturado US$ 89 milhões (R$ 330 milhões) em 2018. E o mercado começou a juntar as peças: a parte da maconha que acalma e cura sem interferência nas relações sociais das pessoas. Calma. Cura. Bem-estar. Wellnes. Boom! Investidores de todos os portes entram no financiamento de pesquisas, no cultivo e produção. Nascem as soluções atendendo a indivíduos já cansados de tantas tentativas de cura sem sucesso. Chegam ao mercado soluções para esses transtornos em forme de óleos, inalação por vapor e pílulas. Algum restaurantes utilizam CBD na receita de drinks e hotéis que ofertam opções no minibar, como gomas de mascar a base de CBD para evitar o abuso de álcool; A Coca Cola abre parceria com Aurora Cannabis para produção de uma bebida relaxante à base de CBD, a rede de restaurantes by Chloe, famosa por manter a lógica do wellness em seu cardápio, servindo uma calda de pêssegos e CBD nos waffles.

A americana Feals, especialista em  óleos a base de CBD tem informações bem direcionadas a quem precisa de um conhecimento do ponto zero sobre história, pesquisas e efeitos do CBD – e o governo americano dividido por opiniões, mas de mercado financeiramente muito promissor. Vemos também a rede de farmácias inglesa Holland & Barret ter uma consideravelmente vasta linha de produtos a base de CBD e alguns especialistas alertando sobre o comprometimento de qualidade em meio a esse processo de massificação.

No Brasil o CBD é permitido desde 2015, mas ainda esbarramos na questão do alto custo de importação e principalmente, o ato de portar o óleo. Existe uma série de autorizações para o devido rastreamento da compra desses produtos, sempre acompanhados da prescrição médica.

Por mais que existam várias empresas, empregos e estruturas, o CBD ainda precisa dos dados avalisados por mais entidades científicas de renome para que a aprovação se expanda. “Ninguém foi autorizado a fazer a pesquisa durante todos esses anos, por isso é um grande espaço aberto, onde as empresas podem dizer coisas sem os dados para se basear”, disse Kent Hutchison, co-diretor do Laboratório de Mudanças, na Universidade do Colorado.

Cannabis foi usada para fins medicinais por quase todas as civilizações pelos últimos 5000 anos, e foi considerada ilegal pelos últimos 100 anos. Essa discussão não é sobre a cannabis, mas sim sobre uma revolução que surge sobre como pensamos sobre as moléculas dentro da comida e plantas para fins medicinais.

Jeff Chen
Diretor da Cannabis Research Initiate, um centro de pesquisas e fomentador de iniciativas para uso medicinal da canais, dentro da UCLA, na Califórnia

 

E agora sob o filtro do wellness, como fazer?

E quando digo “filtro” do wellness, não é de forma negativa. Obviamente essas novidades e um interesse massivo das pessoas, fortalecem empresas e centros de pesquisa. Mas talvez tenhamos que repensar nossas reações ao surgimento de qualquer substância ou produto. Estamos em um momento interessante durante nossa transição ao falar de bem-estar. Falando em saúde, talvez nunca fomos tão dependentes de medicamento quanto agora. Para dor, para se acalmar, para dormir, para comer. E os millenials ainda aprendendo a lidar com o excesso de informação, prazos, agenda. Só sabemos falar de stress. Sem dúvida, as pessoas partirão sedentas em busca de uma solução efetiva para o nosso principal problema, que é nos acalmar. Talvez antes de fazermos um tour em todas as lojas especializadas na próxima viagem, , tomarmos todos os drinks, comermos todos os pratos e experimentarmos todos os blends de vaporizadores de CBD, voltemos à definição do wellness: equilíbrio entre corpo e mente. Toda e qualquer tendência que auxilie nosso bem-estar com reais resultados deve vir acompanhada de transformações internas. E a correria em saber quais os tipos, onde vende, qual a marca mais cool no Instagram, se tem blend com eucalipto ou menta, é apenas mais uma angústia pra colocarmos junto de todas as outras. É jogar contra si, vamos admitir. Cada nova pesquisa que surja com uma substância ou produto é acessório a uma transformação primeiramente interna e, mesmo estando nas nossas mãos não é terminando essa leitura que estaremos prontos. Tudo é um processo individual para que cada encontre um norte pra voltar, a cada vez que perdermos a calma por qualquer coisa durante o dia.

E não posso esquecer: O Ponto Eletrônico continuará te ajudando com seu bem-estar. Estamos construindo uma nova parceria para todos nos conhecermos melhor e externizarmos boas vibrações. Fica meio esperto por aqui, já falaremos!

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