A Transparência Emocional Masculina

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A necessidade de discutirmos sobre a saúde mental masculina dentro das novas representações sobre o que é ser homem no século XXI

por João Rodolfo de Assis

Como sociedade, vivemos em tempos em que a cada novo dia nossos olhares são impactados por diferentes formas e hábitos, que desconstroem ideologias e expandem os comportamentos vistos como padrão. É o caso das novas representações masculinas.

Desde pequenos, somos apresentados a imagens que representam os arquétipos masculinos e femininos. No caso dos homens, todos precisam ser fortes, caminhar de forma dura e esguia, fazer dinheiro e jamais demonstrar fraquezas – deixamos esse privilégio com as mulheres. Em tempos em que a imagem é vista com mais importância, novas leituras masculinas estão ganhando espaço e se desdobrando de forma transparente, fluida e humana – uma delas é a saúde mental.

Só no Brasil, os dados levantados pelo Ministério da Saúde em 2018 revelaram que, em apenas uma década, houve um aumento de 28% na taxa de mortalidade entre os homens. O objetivo do levantamento era servir como forma de alerta sobre a necessidade de discutirmos a respeito dos problemas envolvendo depressão, ansiedade, suicídios e maneiras de prevenirmos essas fatalidades. Os números não chocam tanto se levarmos em considerações dois assuntos atuais no país: a crise econômica, que vem refletindo no desemprego, e a pressão diante do retrocesso tradicionalista na sociedade.

Ainda em 2018, a American Psychological Association lançou um guia para psicólogos que estão trabalhando com homens e meninos dispostos a confrontarem “a ideologia do estereótipo masculino”. No fim, a associação concluiu que a masculinidade tóxica vem do que ensinamos para os meninos e que tudo que é contra isso é considerado fraco. O livro HIM + HIS, do autor Hélène Salam Kleih, é um exemplo disso. O escritor acredita que muitos casos de depressão e suicídios também ocorrem por conta da masculinidade tóxica. No livro, ele escreve sobre as diferentes possibilidades do que pode ser um homem, onde o “HIM” representa o corpo e o “HIS”, a mente. O projeto reúne imagens, textos e poesias sobre a saúde mental masculina e possíveis representações do gênero.

 

O atual entendimento da mente masculina na cultura pop

Nos últimos 5 anos, se tem discutido muito sobre a saúde mental dentro da cultura pop. Diversas celebridades têm se manifestado a respeito do assunto. Selena Gomez, com suas idas e vindas em centros de reabilitação para lidar com a ansiedade e depressão; Mariah Carey revelando-se bipolar; Ariana Grande com sua ansiedade e estresse pós-traumático (depois do atentando em seu show em Manchester); e Demi Lovato, que também é uma grande porta voz sobre o assunto, sempre compartilhando sobre momentos de automutilações e vícios em drogas.

Diante disso, um novo grupo de celebridades chama a atenção da mídia por compartilhar experiências pessoais, criando novos diálogos e destruindo paradigmas: os homens negros.  Em 2016, Scott Mescudi, mais conhecido como Kid Cudi, postou na sua página do Facebook que estaria entrando em uma reabilitação para tratar a depressão, ansiedade e pensamentos suicidas. O post chocou os fãs, mas também fez com que Cudi fosse visto com outros olhos pela honestidade e coragem por compartilhar com o mundo algo tão pessoal. Isso impulsionou o surgimento da hashtag #YouGoodMan, com a intenção de encorajar mais homens negros a conversarem sobre a saúde mental, especialmente por ser um grupo que é julgado apenas pelo corpo e aparência, ignorando o emocional e intelectual.

 

No Twitter, o rapper Kanye West questionou sobre a maneira que é tratando por causa da bipolaridade e como a sociedade o julga devido a essa condição: “Ninguém jamais escolheria acabar em um hospital psiquiátrico e diagnosticado com um transtorno mental, mas Deus me escolheu para fazer essa viagem publicamente e é lindo”,“Eu sou capaz de experimentar, em primeira mão, como as pessoas que têm problemas de saúde mental são ‘escritas’ pela sociedade. Não dê ouvidos a ele porque ele é louco”, escreveu West.

 

 

 

No ano passado West e Cudi se reuniram e lançaram o aclamado álbum “Kids See Ghost”, onde a lucidez de ambos, autocontrole, aceitação e perdão são os temas principais do álbum.  Logo em seguida, West lançou seu oitavo disco, “Ye”, em que na capa aparece escrito em neon “Eu odeio ser bipolar, é incrível”. Em ambos os projetos o rapper comenta sobre a própria saúde mental e preocupações por conta disso.

Em 2017, outra hashtag ganhou força ao ser usada por celebridades, a #MeToo, que apareceu durante os protestos contra os assédios sexuais sofridos dentro da indústria do entretenimento. A expressão vem do movimento “The Silence Breakers”. Durante esse período, o ator Terry Crews (conhecido pelas séries Todo Mundo Odeia O Chris e Brooklyn 99) revelou ser vítima de assédios sexuais através de uma série de tweets: “O assédio durou alguns instantes, mas foi o suficiente para ele me dizer, ao segurar minhas genitálias, quem é que detinha o poder, que ele estava no controle”. As reações ficaram divididas em dois grupos: pessoas que o desencorajaram a falar sobre o assunto, pois deveria levar como uma brincadeira; mas também teve reações positivas, pois fez com que muitos homens procurassem enxergar que isso também pode acontecer com eles.

“Todo homem, mulher e criança merece ser visto como igual perante a lei. A Declaração dos Direitos das(dos) Sobreviventes de Assédio Sexual faz isso por meio do reconhecimento dos direitos básicos dos sobreviventes. Podemos chamar atenção para uma cultura de masculinidade tóxica e a necessidade de quebrar com dinâmicas de poder, mas enquanto isso, essa declaração cria mudanças de longo prazo e dá poder e devolve o controle aos sobreviventes.” – Terry Crews

O vídeo “Black Boys Dont Cry”, de 2016, feito pelo diretor IGGY LDN, busca desconstruir os idealismos por trás da masculinidade dos homens negros. No projeto, pode-se observar vários homens na frente de um fundo azul (cor escolhida propositalmente por ser “representativa” do mundo masculino) onde todos aparecem pelados e de maneira frágil, buscando passar por um processo de lembranças traumáticas que enfrentaram e enfrentam no cotidiano.

 

 

Em 2018, o cantor James Blake, foi convidado a participar do evento “Performing Arts Medicine Association” (PAMA), organização que busca por aprimoramentos e auxílios da saúde mental de artistas, para compartilhar sua luta contra a depressão e pensamentos suicidas.

“Acho muito engraçado que quando me abro sobre os meus sentimentos através da música, as pessoas automaticamente me rotulam como #SadBoy. Isso é extremamente desnecessário e nenhum pouco saudável para categorizar um homem que está abertamente falando sobre os seus sentimentos. Nós já estamos em uma epidemia de aumento de homens com depressão e suicídios. Não precisamos de mais nenhuma prova de que estamos nos machucando quando questionamos a nossa necessidade de sermos vulneráveis” – James Blake

Nos últimos anos, a saúde mental na cultura pop vem sendo apresentada de duas maneiras: completamente romantizada, à la Lana Del Rey, ou 100% chocante, à la 13 Reasons Why, criando estereótipos de massa, quando celebridades abrem espaço para conversarem sobre lutas pessoais, impactando diretamente os fãs – às vezes, inclusive, salvando suas vidas, além de outras possíveis pessoas em processos de tratamento. Estamos em tempos em que a demanda por representações fictícias/reais vem aumentado na cultura contemporânea, pois quando as coisas mudam na vida real, elas também mudam nos diferentes formatos de mídia.

 

O homem brasileiro

Vivemos em um país onde a pressão dentro e fora do círculo normativo tanto social quanto masculino ainda é muito grande. No Brasil, o tópico tem chamado aos poucos a atenção dos blogs e sites, que buscam abrir diálogos de empatia e compreensão sobre o assunto. Um bom exemplo é o caso do ator Fábio Assunção. Ele deu uma entrevista em 2017 falando sobre sua luta contra a dependência química. Depois disso, se envolveu em polêmicas por conta dos vícios: foi preso por causa de uma briga e, no ano passado, foi pego dirigido embriagado. Isso tudo acabou se tornando um meme brasileiro – ganhando inclusive uma música que ridicularizava o seu comportamento: “tipo Fábio Assunção” ou “ativar o modo Fábio Assunção”. O ator conta:

“A primeira vez que achei que as coisas estavam saindo do meu controle, em 2008, fui ao AA [Alcoólicos Anônimos]. Estava me sentindo envergonhado, muito preocupado com as pessoas saberem. Cara, na hora em que eu saí, tinha um paparazzo do lado de fora. Então, eu nunca tive a possibilidade de viver esse processo com privacidade”. – Fábio Assunção

 

Recentemente o rapper baiano Diogo Moncorvo, conhecido como Baco Exu do Blues, lançou seu primeiro single de 2019, a música “Paris”. A letra é uma carta aberta sobre sua luta contra a depressão – assunto já abordado na composição “En Tu Mira”, do disco “En Su” de 2017, onde o cantor falava sobre suicídio e a pressão que sentia. No Brasil, é visto como corajoso um rapper chamando todos para escutar a sua luta interna:

"Eu estava engasgado. Sentia mais do que se deve sentir e precisava expulsar isso de alguma forma”. "A verdade é que preciso entregar minha dor para o mundo pra ela não me sufocar. Quero que [as pessoas] entendam principalmente que é normal uma lágrima negra e que ela não pode ser guardada" - Baco Exu do Blues

“Homem não chora, foda-se eu tô chorando”

Precisamos aceitar que no século XXI existem diferentes formas de agir, pensar, falar e sentir; e isso não deve ser separado por gênero. A cultura masculina é algo muito além da grossura da voz ou tamanho do braço e precisamos trazer atenção para isso – homem também sente e também chora. O emocional existe em cada ser humano, ela não oscila entre cada um de nós como fossemos um AirBnb. Devemos pegar essas discussões e criarmos ganchos para construirmos um futuro em que um homem sentir não seja motivo de julgamento ou de desconfiança da sua masculinidade.

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