Uma história da educação

A história é mais ou menos assim: No passado, lá atrás, muito pouca gente tinha acesso à educação. E não era qualquer educação não. Era uma educação integral, personalizada, customizada… do jeitinho que os eventos de inovação dizem que vai ser no futuro.

 

Mas era pra poucos. Bem poucos. Seja na Academia de Platão, seja nas sociedades orientais, só uma pequena porcentagem da elite econômica-social-cultural tinha acesso a essa possibilidade de formação educacional. O que significa que nem todo mundo tinha o privilégio de Alexandre (o grande) em aprender com um mentor como Aristóteles.

Na Idade Média, quando a educação ficou sob a posse da Igreja Católica, isso pouco mudou. Ela seguia elitizada. Seguia para poucos. Mas começava a se ambientar em algo mais parecido com a escola que conhecemos hoje: um mestre religioso transmitia seus conhecimentos a seus discípulos.

Foi só no século XVIII, no auge militar do império prussiano, que o nosso bom e velho modelo de escola foi realmente consolidado. Obrigatória, pública e gratuita, a escola prussiana era inspirada na estrutura do sistema espartano e nasceu com o objetivo de alimentar o exército que guerreava contra as revoluções na França.

Mas, apesar de baseada no militarismo dos déspotas esclarecidos da época – disciplina, obediência, divisão por classes, etc. –, o conteúdo se ancorava em alguns princípios do Iluminismo, até para agradar a população com um pouco mais de repertório cultural. Mistura uma coisa com outra e já dá para sentir o cheiro da nossa escola atual, não?

Aceleramos um pouco o filme e chegamos na revolução industrial. Sempre ela. Demandando uma mão-de-obra minimamente educada. Que soubesse ler, escrever, fazer contas, operar uma máquina, entender alguma coisa do mundo ao seu redor. Era preciso que esse processo fosse rápido e em grande escala. Na maior escala possível. A população crescia. As cidades aglomeravam pessoas. O mercado demandava isso.

Só havia um jeito de atingir essa escala educacional tão rapidamente: padronizar e replicar. Óbvio. E foi isso que fizemos. Replicamos o modelo prussiano e democratizamos a educação em troca de sua padronização: salas de aula, disciplinas, professores especialistas, seriação por ano, provas, trinta alunos por sala, bimestres, cinquenta minutos, sinal, reprovação, formatura, ENEM, pisa, livro didático, sistema de ensino, uniforme, formação de professores, perua escolar, merenda, muros.

Chegamos no século XXI e esse modelo atingiu seu objetivo. Foi absurdamente bem sucedido. Foi ele que formou todos nós. Ele que nos trouxe até aqui. Pisamos na Lua com ele. Difícil cuspir nesse prato.

Mas, duzentos anos depois, ele não dá conta da complexidade social que criamos. A padronização perdeu espaço. Perdeu valor. A sociedade, o estado, o mercado, (até a academia) pedem outro tipo de pessoa. Pedem uma geração criativa, ética, autônoma, crítica. Só que isso, a escola não pode dar. Não pode dar porque criamos um sistema educativo que busca a padronização, oras. Não surpreende que anulemos a individualidade, a imaginação e a criatividade.

 

Então, o que fazer?

A saída é inovar, disseram. Mas já inovamos, respondemos.

Pedagogicamente, hoje, temos learning para tudo que é gosto: flipped blended actived informed problem-based project-based studio-based product-based brain-based outcome-based part-to-part pair-to-pair adaptive collaborative cooperative asynchronous synchronous distance experiential holistic incidental mobile.

Pensadores também não faltam: Montessori, Piaget, Vygotsky, Dewey, Makarenko, Wallon, Ilich, Bloom, Steiner, Bordieu, Decroly, Freinet, Feire, Teixeira, Rogers, Saviani, Ferreiro, Gardner, Robinson, Morin, Arendt, Zabala, Chartier, Tofler, Litto, Lévy, Malaguzzi, Coll, Dussel, Perrenoud…

Quem trabalha em educação ou riu, ou chorou. Quem não é da área, deve ter pulado o texto e vindo direto para cá. Acho saudável. Mas, podem acreditar, tudo isso existe. E segue vivo nos discursos. Só nos discursos. São citados diariamente. Juntos. Misturados. Há trocentos anos. É uma loucura. Um caos.

Mas um caos que podíamos chamar só de nosso. Até outro dia. Antes da educação ficar sexy. De um tempo para cá, o mundo descobriu a educação. O problema de tudo é a educação. A solução de tudo é a educação. Quase toda discussão acaba com“aí é uma questão de educação, né?”. E o mundo, bem intencionado, resolveu transformar essa educação.

O problema de tudo é a educação. A solução de tudo é a educação.

Cansados das trincheiras, assistimos a cavalaria chegar. Com artilharia pesada. Ótimas ideias. Novos processos. Revoluções tecnológicas. Era nossa chance. Nos perguntaram: contra quem lutamos? Pelo o que lutamos?

E não soubemos para onde apontar. Porque, quando enfim nos descobriram, estávamos atolados na nossa própria confusão. Então, juntos, atiramos todos para o lado errado. Perdidos, resolvemos tornar a educação mais eficiente. Qual? Aquela do Platão? A integral, personalizada, artesanal?

Não, essa fica no discurso. Na teoria. Na palestra. Nos textos. Resolvemos tornar mais eficiente a educação prussiana. Aquela da revolução industrial. Da padronização. E, desde então, buscamos melhores salas de aula, disciplinas, professores especialistas, provas, ENEMs, pisas, livros didáticos, formações de professores. Como se fosse esse o caminho.

O tal caminho que formará a geração criativa, ética, autônoma e crítica que enfim irá nos redimir. (de preferência, depois que essa geração de moleques sem a menor disciplina for embora das nossas escolas).

Não faz o menor sentido. Mas a história é mais ou menos assim.

 

 

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