Comportamento Educação
11 de julho de 2012 por Desirée Marantes

Qual é o poder de uma faísca?

Mais uma colaboração para o Pontinho! Feliz, feliz, feliz!

Dessa vez é um texto inspiradíssimo do incrível André Gravatá, que conhecemos durante o Sonho Brasileiro, e que segue mudando o mundo, de pouquinho em pouquinho.

Bom, sem mais delongas, Qual é o poder de uma faísca?

“(…)meu coração também pode crescer.
Entre 
amor fogo,
entre 
vida fogo,
meu 
coração cresce dez metros explode.
Ó vida futura! Nós te criaremos.”
Carlos 
Drummond de Andrade, poema Mundo Grande

Com simples intervenções urbanas, tento provocar faíscas no cotidiano. A intenção? Instigar que as pessoas se sintam mais vivas e se questionem sobre certas coisas.

Já estive embaixo do vão do Masp, em SP, com uma cartolina na qual escrevi a palavra”Sorria” em letras garrafais, e motivei tanto gargalhadas quanto olhares fulminantes.  Em outra ação, abordava pessoas nas ruas, perguntava para elas se topavam escutar um poema e então lia Alberto Caeiro (um dos meus favoritos) para os passantes dispostos a abrir as portas dos seus ouvidos. Numa experiência recente, realizada na Paulista, com uma amiga, segurei um cartaz com a frase “Que tal começarmos uma conversa?”. A ação rendeu encontros com desconhecidos que pareciam amigos de infância e, claro, também com pessoas que não entendiam muito bem a proposta – uma professora, por exemplo, insinuou que eu devia ir ao psicólogo (esta última intervenção é parte de uma matéria que será publicada na Vida Simples do mês de setembro).

Trabalho atualmente com o tema da educação, então decidi sair nas ruas para conversar com estranhos sobre esse mundo da aprendizagem que povoa minha mente. E vejam, é curioso, usamos a palavra “estranho” para designar as pessoas com as quais não tivemos contato. Estranho? Estranho significa desconhecido. Estranho significa esquisito. A língua denuncia: vemos o outro como um esquisito em potencial – é a presunção de que o diferente é extravagante.

Fui para as ruas com uma lousa que exibia, a princípio, a frase: “O que você está fazendo para transformar a educação no Brasil?”. Foi um fiasco. A fisionomia das pessoas diante da lousa me deixou desconfortável. A reação se repetia: olhavam, imediatamente baixavam a cabeça e faziam uma expressão de desamparo. Poucos esboçaram um comentário. A pergunta não era boa, confesso. Numa época em que a culpa ainda é um valor encarnado nas entranhas, as questões que apontam o dedo para as responsabilidades coletivas ainda geram uma ruminação melancólica. Não demorou muito, mudei a questão.

A segunda pergunta foi a seguinte: “Você pensa que a educação no Brasil precisa ser transformada?”. Ainda não gostava muito da frase – talvez soasse melhor “… precisa de transformações?” –, mas, detalhes verbais à parte, quis mostrar essa segunda pergunta para as pessoas e sentir as reações. Elas responderam com frases curtas, como “a escola é uma porcaria” e “a educação brasileira é uma merda”. (Sim, há um cenário complexo no Brasil, tanto que um em cada cinco brasileiros ainda é analfabeto funcional. Mas não apenas por aqui o modelo educacional está em xeque. O sistema formal estabelecido em diversos países ainda se fundamenta num tipo de visão que não valoriza nem estimula uma criatividade disruptiva. Há exceções, claro. Há professores geniais espalhados nos confins dos confins, claro. Porém, infelizmente, a educação ainda está às voltas com os vícios do “ensino bancário” – expressão usada por Paulo Freire para designar o modo de educação baseada na hierarquia e memorização, como se o conhecimento fosse uma coisa morta a ser depositada na mente do aluno.)

O impacto mais profundo da intervenção foi sutil. Houve quem repetisse a pergunta da lousa para a pessoa ao lado. Uma mulher declamou a questão em voz alta, para um grupo de amigas. Um policial falou para outro, deu para ouvir, bem baixo: “Você pensa que a educação no Brasil precisa ser transformada?”. O simples fato de dezenas de pessoas entrarem em contato com essa interrogação já é relevante, quem sabe isso marque o início de questionamentos maiores.
Para acender uma fogueira, é preciso uma faísca.

André Gravatá não gosta de dizer que é uma profissão, porque antes de tudo ele é um ser humano. Formou-se em jornalismo e escreve para a revista Vida Simples. Desenvolve um game com jovens estudantes que motiva o protagonismo juvenil, chamado Jogo de Cinema, e é organizador do TEDxJovem@Ibira

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* Agradecimento especial a Marisa Bessa, que fotografou a ação e, à medida que foi perdendo a vergonha, também segurou a lousa por uns minutos.
* A quem quiser colaborar para ressignificar os olhares sobre a aprendizagem, sugiro uma possibilidade de ação simples e significante, ainda que pontual, chamada “Dá para mudar o mundo na hora do intervalo”. A atividade descrita a seguir foi cocriada pela professora Paula Marques em conjunto com seus estudantes, no Colégio Visconde de Porto Seguro, em SP, inspirada por uma matéria que escrevi no ano passado. A ação, que envolveu cerca de 300 alunos de 11 e 12 anos, promove o protagonismo e o empreendimento de novas ideias a partir dos alunos. As fases da proposta:

Passo UM – Inspiração
Ler o texto “Dá para mudar o mundo na hora do almoço?” (veja aqui) com um grupo de estudantes. Debater as ações descritas na reportagem e o valor delas no mundo atual.

Passo DOIS – Discussão
Dividir os jovens em grupos. Eles querem ver uma mudança na escola ou no bairro? Incomodam-se com algum problema específico? Os grupos são convidados a listar desafios claros, como a reforma do parquinho ou a necessidade de mais gentileza entre os membros da escola – e então cada equipe escolhe apenas uma das questões levantadas, aquela que mais instigar o entusiasmo do grupo.

Passo TRÊS – Planejamento (e ação!)
Elaborar planos de ação com respostas criativas para os desafios escolhidos e colocar as ideias em prática. A principal dica: não se esqueçam de que o processo é tão importante quanto o resultado.

Passo QUATRO – Contação (e comemoração!)
Organizar um encontro na escola ou em outro espaço local, com pais e alunos, para discutir o desenvolvimento e relevância das ações.
Quem se interessar pela atividade, entre em contato, daí podemos conversar mais: emaildoandregravata@gmail.com
Para saber mais, veja o link.

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2 comentários para Qual é o poder de uma faísca?

  1. Pingback: Quando a educação vai à rua | Educ.Ação

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