Fusão de gêneros: respiro para a moda masculina

/

O gender blur invade as passarelas e mostra que a moda masculina passa por um rico momento criativo

por Sophie Espitalié

Gênero neutro, gender blur, fluidez de gênero: ultimamente, as noções de feminilidade e masculinidade estão sendo questionadas e desconstruídas. A geração slash não gosta de ser rotulada. Assim como é possível ser estudante/celebridade do Tumblr/ator/morador de Paris, Londres e Nova York, também é possível ser multifacetado e fluído quando se trata de gênero e sexualidade.

Recentemente, uma pesquisa mostrou que um a cada dois jovens de 18 a 24 anos não se considera heterossexual ou homossexual, mas flutuando entre estes conceitos. Gênero e sexualidade existem em um espectro, fato que está sendo cada vez mais compreendido e aceito pelas massas.

A moda é um dos mais importantes meios de expressão da identidade, então também se trata de um meio sensível à atmosfera gender blur. Até então, a maioria dos experimentos da moda envolvendo gênero aconteciam no vestuário feminino. Há décadas os guarda-roupas masculinos emprestam suas peças às meninas. Elas têm uma grande gama de possibilidades para se manifestar através das roupas, enquanto eles, segundo o senso comum, não costumam experimentar tanto assim.

Ao longo da história os exemplos de ousadia no vestuário masculino foram poucos, mas fortes e subversivos. Podemos pensar em David Bowie na década de 1970, com seu personagem andrógino nos palcos, usando salto alto, lantejoulas e saias. Também merece destaque Jean Paul Gaultier. Sua primeira coleção masculina, em 1983, levava o nome “L’Homme Objet” (em português, “o homem objetificado”). Isso é significativo porque, à época, a imagem de um homem passivo era transgressora — e, bem, talvez ainda seja. Em 1984, ele trouxe a saia ao menswear em sua coleção “Et Dieu Créa l’Homme”. Pessoas ofendidas chegaram até a deixar o desfile.

Maison Margiela
Maison Margiela

Quando paramos para refletir, mulheres usando calças um dia já foram consideradas um escândalo. Hoje, fora do mundo da moda, ainda é controverso um homem que usa saias e vestidos. Estilistas como Rad Hourani, Rick Owens e Martin Margiela foram alguns dos poucos a perturbar as convenções do vestuário masculino e falar em moda Free Gender.

Mas este quadro está prestes a mudar em escala global — ao menos é o que parece quando se assiste aos desfiles masculinos mais recentes. Há algumas estações estilistas têm questionado identidade, arquétipos e a posição do homem pós-moderno, buscando enterrar o antigo conceito de gênero.

J.W. Anderson
J.W. Anderson

J.W. Anderson é conhecido como um dos melhores estilistas deste tempo, o que se prova a cada coleção, com silhuetas inesperadas que redefinem o conceito de masculinidade. Em junho de 2014, Craig Green gerou burburinho com seu primeiro desfile solo. Suas formas e volumes experimentais também estão trazendo uma dimensão mais conceitual para as roupas masculinas. Emoção e conceitualidade estão sendo inseridas no universo de menswear, quebrando os moldes pré-estabelecidos e abrindo possibilidades, longe dos ternos de alfaiataria e das cores neutras.

Craig Green
Craig Green

Essa libertação do menswear também pode ser associada ao novo fôlego das roupas esportivas. Experimentando com sportswear, designers estão incluindo criatividade em uma estética em que impera o conforto.

Gypsy Sport
Gypsy Sports: mistura de sportswear, estampas e tecidos que, geralmente, seriam usados somente em roupas femininas, como tule e renda.
Astrid Andersen
Astrid Andersen: renda em blusões de capuz
Juun J
Juun J: vestidos-sweater para a coleção de primavera de 2014

Os pronunciamentos da cena musical

Sempre conectada à moda, a música também é um vetor de mudança. Em março, a cantora norueguesa Susanne Sundfør pediu a supressão das categorias “melhor artista homem” e “melhor artista mulher” nas premiações de seu país. O pedido funcionou e agora há somente uma categoria.

Em uma recente capa da revista Dazed & Confused, o músico Young Thug usou um vestido rendado da Gucci. Não foi a primeira vez que um rapper usou um vestido: ASAP Rocky já usou uma “camiseta longa” Ann Demeulemeester e Kanye West apareceu nos palcos com um kilt Givenchy.

No miolo da revista, Young Thug ainda veste um tutu Molly Goddard e um vestido tartan Riccardo Tisci. Criticado e chamado de “gay” no Twitter, ele rebateu que estilo não tem nada a ver com sexualidade.
Young Thug veste tutu Molly Goddard: criticado e chamado de “gay” no Twitter, ele rebateu que estilo não tem nada a ver com sexualidade.

Micky Blanco é outro exemplo forte de gender blur e liberdade fashion na música. Trata-se de um “drag rapper”, que não se importa de ser chamado de “ele” ou “ela” e usa tanto roupas “de mulher” como roupas “de homem”.

Masculino e feminino não são mais absolutos

O fato de que os homens hoje sentem-se mais livres em termos de estilo pode estar relacionado à renovação do feminismo. A causa está se popularizando entre celebridades e mídia com diversas iniciativas, como mulheres exibindo seus pelos sem constrangimento e a campanha Free The Nipple (em português, “liberte o mamilo”). À medida que as mulheres se libertam da rígida estética feminina e do patriarcado, os homens sentem-se livres para fazer o mesmo.

Em um discurso para a campanha “He For She”, a atriz Emma Watson disse que “igualdade de gênero também diz respeito aos homens.” Embora nem todas as feministas estejam de acordo com o fato de que uma campanha voltada para mulheres seja tão focada em homens, é verdade que eles também são pressionados a ser coisas que não são devido às expectativas da sociedade. Por esse motivo, algumas ativistas acham que o combate eficiente do sexismo deve incluir mulheres e homens lutando lado a lado.

Na moda, marcas como Acne Studio tomaram para si esta bandeira, apresentando suéteres com os dizeres “feminista radical” ou lenços quem gritam “igualdade de gênero”. Jonny Johannson, diretor criativo da grife, diz que, para esta coleção em questão, inspirou-se no partido político sueco Feminist Initiatives.

Acne Studio
Acne Studio

Atualmente, a moda masculina está se remodelando em direção a uma moda sem fronteiras: nem masculina, nem feminina. De fato, categorizar o mundo em duas facções já não faz muito sentido. O marketing e a propaganda sexista estão sendo desafiados, uma vez que as pessoas estão construindo suas identidades de modo mais livre que nunca.

O mesmo conceito para ambos os gêneros: nas últimas temporadas masculinas da Gucci, garotas dividiam as passarelas.

Esta diversidade presente na cena fashion mais recente também é fortalecida pelo despertar da identidade LGBT. Uma jovem guarda de marcas influentes está se declarando agênera, interessada em vestir pessoas e identidades singulares, não corpos “de homem” ou “de mulher”. E com modelos trans como Hari Nef, Juliana Huxtable e Isis King tornando-se exponencialmente populares, com a promoção de castings mais diversos em desfiles e campanhas, os padrões de beleza realmente estão sendo redefinidos.

Hari Nef para Eckhaus Latta
Hari Nef para Eckhaus Latta

Ao passo que as pessoas tornam-se mais afinadas com elas mesmas, elas também ficam mais sensíveis e confiantes. Uma cultura de moda diferente está sendo construída em torno de comunidades que promovem diversidade: vestuário em transição para uma geração que está se redefinindo. Esta nova moda é sobre ideias e filosofia, para o novo consumidor, que não quer simplesmente comprar, mas ser parte de um movimento, de uma causa maior.

Versão resumida ×

Gênero neutro, gender blur, fluidez de gênero: ultimamente, as noções de feminilidade e masculinidade estão sendo questionadas e desconstruídas. A “geração slash” não gosta de ser rotulada. A moda é um dos mais importantes meios de expressão da identidade, então também se trata de um meio sensível à atmosfera gender blur.

Até então, a maioria dos experimentos da moda envolvendo gênero aconteciam no vestuário feminino. Há décadas os guarda-roupas masculinos emprestam suas peças às meninas. Elas têm uma grande gama de possibilidades para se manifestar através das roupas, enquanto eles, segundo o senso comum, não costumam experimentar tanto assim.

Quando paramos para refletir, mulheres usando calças um dia já foram consideradas um escândalo. Hoje, fora do mundo da moda, ainda é controverso um homem que usa saias e vestidos. Mas este quadro está prestes a mudar em escala global — ao menos é o que parece quando se assiste aos desfiles masculinos mais recentes. Há algumas estações estilistas têm questionado identidade, arquétipos e a posição do homem pós-moderno, em um posicionamento que busca enterrar o antigo conceito de gênero.

A libertação do menswear é incentivada também por outras libertações, que acontecem paralelamente a ela: a das roupas esportivas, que está incluindo criatividade em uma estética em que impera conforto; a da cena musical, que quebra o estereótipo do macho a nível mainstream; a das mulheres, que lutam contra a rígida estética feminina e do patriarcado e acabam por libertar também o homem das expectativas da sociedade; a da comunidade LGBT, que desperta sua identidade e tem uma representatividade crescente na mídia e em castings de modelos.

Ao passo que as pessoas tornam-se mais afinadas com elas mesmas, elas também estão ficando mais sensíveis e confiantes. Uma cultura de moda diferente está sendo construída  em torno de comunidades que promovem diversidade: um vestuário em transição para uma geração que está se redefinindo. Esta nova moda é sobre ideias e filosofia, para o novo consumidor, que não quer simplesmente comprar, mas ser parte de um movimento, de uma causa maior.

Exibir texto integral

Vá Além

Sobre a divisão por gênero das semanas de moda

O mundo está acordando para as novas possibilidades de gênero. Isso é um indicativo forte de que as semanas de moda devam fazer o mesmo, desde o casting de modelos até soluções criativas de produzir uma coleção para todos.

69 Worldwide

A marca Worldwide 69 produz roupas unisex e desafia os estereótipos de gênero. Suas peças, sempre em jeans, vêm em todo tipo de silhueta, para todo tipo de pessoa. Os modelos também saem do padrão da passarela e costumam ter um comportamento mais informal e natural quando representam as roupas em fotos e desfiles.

Vejas

Modelos diversos, especialmente transexuais, representam a Vejas, marca da estilista Vejas Kruszewski. Ela diz que "quer que sua moda seja o mais inclusiva possível, para que seja representativa do mundo real".

Comente

Mudando de assunto...

A ficção como a verdadeira realidade

Playing Reality

Passa a existir um blur entre o que é real e o que é imaginário quando narrativas fictícias podem propor realidades tão convincentes que são capazes de diluir as barreiras entre o verdadeiro e a fantasia. A ficção sublinha o que há de mais importante e, muitas vezes, ressalta as reações humanas em situações e contextos considerados extremos.

Êxodo urbano: impulso primitivo em busca da simplicidade

Lowsumerism

Estamos vivendo um período de êxodo urbano, em busca da nossa essência mais selvagem, do nirvana da vida simples, por um sentido maior e algo que nos torne mais significantes no mundo. O consumo consciente, a permacultura e a rotina distante do caos urbano estão em voga. Afinal, a nossa essência não mora no que podemos comprar, mas sim no que podemos ser.

Selfie e a politização do corpo feminino

TRANScenGENDER

A vulnerabilidade sugerida pelo “nu artístico”, que apresenta o feminino sob uma ótica masculina e castradora, opõe-se ao poder do “nude”, que desafia a norma e reforça o controle da mulher sobre sua própria imagem e sexualidade. Existe valor no selfie criado e compartilhado online. Agora, mais do que nunca, existe a oportunidade de construir a cultura visual do amanhã, sob uma nova perspectiva — a feminina.