O potencial do Brasil como centro da nova espiritualidade mundial

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A arte de Marina Abramovic traz à tona um Brasil interior que sugere a verdadeira vocação de nossa nação

por João Paulo Cavalcanti publicado originalmente no blog do autor

Marina Abramovic sempre desafiou os limites do corpo e da arte. Conhecida por ter levado a arte de performance aos grandes museus e galerias, ela tem seu lugar garantido no hall dos maiores artistas do Século XX e início do Século XXI.

Marina conseguiu o feito de colocar o corpo na posição de obra e a presença na posição de art. E levou isso às últimas consequências. Seu derradeiro trabalho “The Artist is Present” é um statement que atingiu concomitantemente uma dimensão conceitual e popular que poucos momentos da história da arte foram capazes de conjugar. Trata-se de uma mestra — e como um bom mestre, quando Marina chega em seu limite ela olha um pouco mais além.

Cartaz do filme The Artist is Present, 2012
Cartaz do filme The Artist is Present, 2012

Depois de oferecer sua pura presença como obra aos espectadores em 2010, Marina transcendeu o corpo e passou a fitar aquilo que é descorporificado, aquilo que está além, aquilo que pertence não à dimensão da presença física, mas aquilo que pertence à dimensão espiritual. Nessa nova fase Marina reencontrou o Brasil. Parceiro afetivo de longa data, o Brasil é para a artista um repositório infinito de ideias, sentidos e sentimentos.

Brasil: Potência da Nova Espiritualidade

Esta transformação de Marina foi muito bem captada pelo documentário Espaço Além (Space in Between). No filme, ela passa por uma imersão em diferentes linhas de trabalho espirituais autenticamente brasileiros — fenômenos que nasceram no solo fértil de nossa cultura interior. Lá vemos o retrato e a rota de um Brasil profundo, absolutamente necessário para o mundo hoje e também para o próprio Brasil.

Em uma época crítica como a que vivemos, o filme retrata um “Brasil interior” que precisa vir “para fora” e revela a potência e, ao meu ver, a verdadeira vocação de nossa nação: ser um centro da nova espiritualidade e religiosidade mundial.

Outros pensadores e agitadores culturais também vêm nos atentando para essa vocação do Brasil — a de “superpotência da espiritualidade” — como revela o texto “Potência Espiritual” de Ronaldo Lemos publicado em sua coluna na Folha.

Maria Estrangeira

Marina chegou a uma encruzilhada da vida, da arte e da cultura humana. Fixou seus olhos no Brasil e, neste ponto, Marina virou Maria. Entidade viva do mundo da arte, como peregrina intuitiva se fez entidade de nossa própria cultura e revelou a alguma parte da elite cultural brasileira uma ponte óbvia entre arte e espiritualidade autêntica da nossa terra.

Por isso Maria. Uma Maria estrangeira que precisa, mais uma vez, vir de fora de nosso contexto para apontar com precisão nossas riquezas. Mas não é apenas o dedo apontado para o coração de nossa nação que valoriza esta Maria, mas também o dedo apontado para o fragmento esquecido da obra de arte. Marina, com ajuda do “espírito brasileiro”, chegou ao ponto de perceber que arte, assim como qualquer outra dimensão que tem o poder de “criar objetos” (como a ciência ou o mercado), não acontece fora, mas dentro. Que a dor do objeto é apenas o despertar da consciência. Maria transcende a dor ao transcender a separação.

Anteriormente, Marina, contribuiu para a história da arte com sua própria história artística ao nos fazer perceber que não apenas o objeto é a obra, mas que o processo e o artista em si também o são. Agora, como Maria, ela adentra a dimensão real dos domínios de nossa geração pós-contemporânea. Conjuntamente com vários outros artistas e agentes da cultura, revela a compreensão de que a obra está além do objeto, além do processo e além do criador. A obra é, também, o espectador.

Essa integração e o entendimento de todas essas dimensões concomitantemente como criadoras da obra integral é o que podemos chamar também de espiritualidade.

Em outras palavras: o espiritual e o pós-contemporâneo comungam a diversidade na unidade e a unidade na diversidade. Isso é espiritualidade. Isso é arte pós-contemporânea.

Maria Abramovic

O espectador e a caverna da Consciência

Marina reforça com isso não apenas um conceito absolutamente importante para a arte contemporânea, mas para a humanidade em si. Ela vislumbra este caminho em seu filme e encontra em nosso país o eco seminal e autêntico dessa jornada. Já na posição de entidade do mundo das artes, ela aponta o Brasil e a espiritualidade como soluções para a sua encruzilhada. Sendo o artista a antena da raça, como dizia Baudelaire, devemos nos antenar para estes sinais. Tornamo-nos também antenas. A arte somos nós.

Vemos pelos caminhos “errantes” de sua jornada espiritual nesse Brasil diverso que Marina é, como xamã e espiritualista, uma buscadora iniciante. Mas na dimensão da Arte é uma Mestra — e essa mestra-Maria, ao encontrar o espectador, a espiritualidade e o Brasil como respostas para a sua encruzilhada pessoal, nos deixa um sinal importante para o futuro da arte e para o nosso futuro: o sinal de que as respostas para a evolução de nossas relações com o mundo está na Consciência — esta caverna profunda e insondável, mas mágica e poderosa.

Este ponto onde a física cartesiana sonha através da física quântica, o ponto onde a arte contemporânea começa a florescer no pós-contemporâneo.

Na última cena do filme, Marina adentra uma caverna profunda e magnânima (talvez a própria caverna da Consciência) e ali acaba seu filme e sua transmutação através da fala profunda que é comum a todas as crianças e a todos os verdadeiros os artistas:

“Agora, eu vou explorar!”

Versão resumida ×

Marina Abramovic sempre desafiou os limites do corpo e da arte. Conhecida por ter levado a arte de performance aos grandes museus e galerias, ela tem seu lugar garantido no hall dos maiores artistas do Século XX e início do Século XXI.

Depois de oferecer sua pura presença como obra aos espectadores em 2010, Marina transcendeu o corpo e passou a fitar aquilo que é descorporificado, aquilo que está além, aquilo que pertence não à dimensão da presença física, mas aquilo que pertence à dimensão espiritual. Nessa nova fase Marina reencontrou o Brasil. Parceiro afetivo de longa data, o Brasil é para a artista um repositório infinito de ideias, sentidos e sentimentos.

No documentário Espaço Além (Space in Between), vemos o retrato e a rota de um Brasil profundo, absolutamente necessário para o mundo hoje e também para o próprio Brasil. Em uma época crítica como a que vivemos, o filme retrata um “Brasil interior” que precisa vir “para fora” e revela a potência e, ao meu ver, a verdadeira vocação de nossa nação: ser um centro da nova espiritualidade e religiosidade mundial.

Marina encontra em nosso país o eco seminal e autêntico da espiritualidade como solução para a sua encruzilhada. Sendo o artista a antena da raça, como dizia Baudelaire, devemos nos antenar para estes sinais. Tornamo-nos também antenas. A arte somos nós.

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