Anti-intelectualismo e o diagnóstico do subjetivo

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No Brasil, demoniza-se um artista por semana — ainda que a maioria deles acabe tendo sua obra disseminada e popularizada, o movimento anti-intelectual não é uma questão tão pontual como pode parecer à primeira vista

por Mari Messias capa Bruno Cançado

Em 2010 a Diesel lançou uma campanha difícil de superar. “Be Stupid” (em português, “seja estúpido”) trazia uma série de situações onde ser estúpido era algo realmente incrível.

Mais ou menos como o lifestyle que fez muitos apanharem no colégio, a campanha era baseada neste contraponto entre os estúpidos e os inteligentes, onde os estúpidos eram criativos, ousados, realizadores e os inteligentes… Bom, vocês sabem como são os “inteligentes”. O manifesto deixa isso especialmente claro:

“Os inteligentes podem ter conhecimento… mas os estúpidos têm coragem. O inteligente pode reconhecer as coisas pelo que são. O estúpido vê as coisas pelo que podem ser. Inteligentes criticam. Estúpidos criam. O fato é que se não tivéssemos ideias estúpidas, não teríamos ideias. O inteligente pode ter planos… mas o estúpido tem as histórias.”

Talvez sete anos depois isso tudo possa parecer só ridículo mas é importante dizer que a recepção da campanha não foi ruim, na época. Na verdade, para o meu choque absoluto, só lembro de ter lido e ouvido coisas boas sobre ela. Mesmo que para alguns isso pareça besteira ou só um passado distante e absurdo que não se repetiria, eu não acredito que seja exatamente este o caso.

A ideia de que existe uma distância muito grande entre pensar e criar não é nova e tem muitas faces além das citadas. Uma delas é bastante atual: o contraponto entre “thinkers” e “doers”, ou seja, aqueles que pensam e aqueles que fazem. Além de aparecer na maior parte dos blogs sobre RH ou empreendedorismo, este contraponto também foi a base da campanha profundamente equivocada do Fiverr, no começo deste ano.

“Sonhadores, façam a gentileza de sair da frente.”

Mais do que simplificar estes dois aspectos humanos que a maior parte das pessoas tem em si, esses contrapontos parecem enfatizar a urgência e frenesi atuais — hoje, a vida útil das coisas não passa de horas. Segundo alguns pesquisadores, este seria um dos motivos pela obsessão em receber e dar likes.

O que importa é realizar, mesmo que esta realização seja irrelevante, nada inovadora e só gere coraçõezinhos em redes sociais. Afinal, sem realizações não somos nada além de “thinkers” ou “smarts”.

Mas para conseguir este tipo de confirmação o contraponto entre “thinker” e “doer” ou “smart” e “stupid” tem um outro aspecto menos falado: a necessidade de simplificar tudo. As ideias e as ações.

Manifesta-se o anti-intelectualismo

Anti-intelectualismo é, segundo a Wikipedia, “a hostilidade e a desconfiança em relação ao intelecto, os intelectuais e o intelectualismo comumente expresso como depreciação da educação e da filosofia e desdém pela arte, literatura e ciência.” Susan Sontag fala um pouco sobre isso no seu texto “Fascinating Fascism”:

“Uma das principais acusações contra os judeus no nazismo da Alemanha foi a de que eles eram urbanos, intelectuais, possuidores de um “espírito crítico” destrutivo e corruptor. (A fogueira de livros de Maio, 1933, foi lançada com o bradar de Goebbels: ‘A era do extremo intelectualismo judeu acaba agora e o sucesso da revolução alemã deu novamente o direito de passagem ao espírito alemão’. E quando o Goebbels oficialmente proibiu a crítica de arte em novembro de 1936, foi por ter ‘traços típicos do caráter judeu’: colocando a cabeça acima do coração, o indivíduo acima da comunidade, o intelecto acima dos sentimentos). Agora é a própria “civilização” que é o corruptor.”

Além do nazismo, também alguns regimes fascistas, como o de Franco, e alguns regimes comunistas, como o do Khmer Vermelho, focaram parte dos seus esforços em enfraquecer o “raciocínio lógico” e qualquer aprofundamento intelectual, em especial aqueles que não concordavam com os pontos propostos por quem controlava o poder.

Na atualidade, Donald Trump é considerado um expoente no quesito e, no Brasil, demoniza-se um artista por semana. Ainda que a maioria deles acabe tendo sua obra disseminada (como no caso da exposição “Queermuseum”, que depois de fechada e criticada, foi projetada na fachada de diversos museus de NYC, em solidariedade contra a censura) e popularizada (como no caso da superlotação do espetáculo “O Evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu”, que teve apresentações canceladas por um juíz), o movimento anti-intelectual não é uma questão tão pontual como pode parecer à primeira vista. Ele e sua influência não se encerram nestes pequenos eventos, mas são forças propulsoras de futuros. Infelizmente.

E, caso as coisas não pareçam estar conectadas, é interessante dizer que um ano antes da campanha da Diesel citada anteriormente, em 2009, o escritor da New Yorker, Michael Specter, lançou o livro “Denialism: How Irrational Thinking Hinders Scientific Progress, Harms the Planet, and Threatens Our Lives”, em que defende que o negacionismo transformou a ciência em uma postura política que é vista como algo que nem sempre é do interesse da população. Hitler fez algo parecido durante o nazismo, ao dizer que as ciências deveriam estar em último lugar na prioridade das escolas (perdendo para o desenvolvimento do caráter, a promoção da determinação e o treinamento da responsabilidade).

A ideia de criticar o pensamento, em si, não passa por apenas um dos aspectos do raciocínio humano. Ou seja, o negacionismo (que não é uma novidade) é um dos braços do anti-intelectualismo (que também não é uma novidade): o apelo deixa de ser racional e se torna emocional. Deixamos de lado os dados, os estudos, os debates e a construção de propostas reais e pensadas. Somos “doers”.

Infelizmente seu crescimento na atualidade nos trouxe, entre outras coisas, epidemias de doenças extintas, a volta do terraplanismo e um império de notícias falsas e agressões virtuais contra aqueles que “ousarem” discordar.

Em todo caso, o interesse em negar o pensamento crítico e desvalorizar a arte tem uma origem que parece apenas óbvia e pode ser resumida na frase “conhecimento é poder”, cujo primeiro registo é de aproximadamente 600 d.C. — o que nos reafirma que nada disso é novo, apesar de ser bastante atual.

Outro sinal de atualidade pode ser identificado no que se chama economia da confiança, um tema de estudo em crescimento que já conta com alguns especialistas, entre eles Rachel Botsman, autora do livro “Who Can You Trust?: How Technology Brought Us Together and Why It Might Drive Us Apart”. Rachel afirma ser a confiança o fio condutor das ideias e o grande motivador de mudança. Para ela (e existem algumas pesquisas que confirmam essa alteração de eixo) partimos de uma confiança mediada pelo institucional para uma confiança distribuída.

Isso não quer dizer apenas que estamos politicamente mais questionadores, nem que usamos as redes sociais como nossa principal fonte de informações, mas quer dizer que os especialistas caíram no nosso filtro de desconfiança.

Preferimos, por exemplo, ler comentários de cinquenta usuários que a resenha de um especialista antes de adquirir um celular. Claro, as coisas não surgem do nada e muitas das nossas desconfianças vêm de casos como o patrocínio dado para Harvard pela Monsanto ou até, mais recentemente, da noção de que nossas instituições reguladoras e nossa política são perpassadas por corrupção.

Quando olhamos apenas para o mercado de consumo, isto pode ser extremamente inovador: as pessoas estão trocando informações sem mediação de outros interessados que não elas mesmas.

Os problemas, no caso do negacionismo, começam a surgir quando essa mesma mediação se aproveita da alteração em nosso eixo de confiança para questionar especialistas, defendendo seus interesses. Ou, no caso das artes e filosofia, quando existe subjetivismo envolvido. O subjetivismo pode, mesmo, ser “diagnosticado” por grupos de pessoas (organizados ou não) que medem tudo por sua experiência ou visão de mundo?

Thomas Nichols, autor de “The Death of the Expertise”, resumiu a situação assim:

“Esse é um período perigoso. Nunca tanta gente teve acesso a tanto conhecimento e, ainda assim, foi tão resistente a aprender qualquer coisa.”

A grande dificuldade talvez esteja no fato de que, como uma boa sociedade de “doers”, nos acostumamos a adquirir conhecimento de maneira superficial e tirar disso respostas simples e diretas. Nada mais é subjetivo ou complicado demais para que não tenhamos uma opinião certeira e definitiva, capaz de ditar inclusive o que podem pensar as outras pessoas.

Também por sermos esta sociedade, pensamos na palavra “mudança” como sinônimo de melhora. Mas a verdade é que o crescimento do negacionismo científico e histórico e a popularização do anti-intelectualismo eram mudanças inimagináveis para a maioria de nós até alguns anos atrás e hoje seu crescimento está moldando nossa cultura. Estamos dispostos a conviver com isso?

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Vencedor do Prêmio Pulitzer de 1964, sobre o anti-intelectualismo norte-americano. Apesar de ter sido escrito décadas atrás, continua dialogando com o presente.

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