Crise de confiança: a velha política na era da hiperconexão

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De que maneira as novas tecnologias podem escoar (ou não) o concentrado poder governamental?

por Conrado Giannetti capa Niki de Saint Phalle

Após a Primavera Árabe e o Occupy Wall Street em 2011, a “geração internet” respirava aliviada: parecia ter se livrado da pecha fácil e rasteira que a identificava como revolucionária de sofá. Os hiperconectados provavam, enfim, que a ágora virtual poderia sim ser ninho de transformações maiúsculas, mesmo em matéria tão antiga e rígida como é a política.

A janela que se abriu deixou passar, em 2013, as Jornadas de Junho, a versão brasileira dos protestos caracterizados por nascerem fora de grandes círculos de influência e sem lideranças marcantes.

Mas os anos passaram e a configuração das coisas já é outra. O descontentamento expresso nas ruas deixou um vácuo. Derrubaram-se certezas, mancharam-se instituições. Entretanto, faltou poder e continuidade para os movimentos colocarem algo novo no lugar.

Então a mesma rede que outrora foi festejada como espaço de informação livre e mobilização popular, tornava-se agora a casa da pós-verdade e das bolhas sociais. O que dava sinais de esgotamento – a democracia representativa parceira de monopólios globais – tomou novo fôlego. O resultado disso é que hoje convivemos em meio a Trumps, Macris, Macrons e Temers.


Apesar de fundamental, o objetivo deste texto não é apontar os motivos que nos levaram ao fim de uma ilusão. Queremos discutir de que maneira as novas tecnologias podem escoar (ou não) o concentrado poder governamental.

Geração desgovernada

O sociólogo espanhol Manuel Castells abre seu livro Redes de indignação e esperança (2013) relatando a ruptura que se deu há alguns anos:

“Os mágicos das finanças passaram de objetos de inveja pública a alvos do desprezo universal. Políticos viram-se expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A mídia se tornou suspeita. A confiança desvaneceu-se — e confiança é o que aglutina a sociedade, o mercado e as instituições.”

Enquanto as hipóteses positivas de Castells não se concretizam – o potencial revolucionário da sociedade em rede –, a fissura que ele descreve parece só se ampliar.

No Brasil, o cheiro de naftalina que exala do poder dominante alcança o insuportável: espelhar-se nas lideranças disponíveis tornou-se ato de retrocesso ou de desespero. Mas não é só aqui.

Recentemente, Yuval Noah Harari, autor de Sapiens (2014), apontou que “pela primeira vez na história, não fazemos ideia do que ensinar às crianças na escola ou aos estudantes na faculdade.” A desorientação é geral.

No campo específico do protesto, por exemplo, Micah White, uma das pessoas que encabeça o movimento Occupy, lançou um livro chamado The End of Protest (2016). Em entrevista para Douglas Rushkoff no Team Human, White opina:

“O fim do protesto não significa a ausência de protestos, mas a proliferação do protesto ineficaz […]. O que ocorreu foi que o conceito de protesto foi separado do conceito de revolução. Protesto se tornou um comportamento performático, realizado para atrair a atenção da mídia e espalhar uma mensagem.”

Chegamos a um ponto em que as formas práticas de luta, o protesto de rua especialmente, tem sofrido tentativas de esvaziamento de seu caráter crítico ao se tornarem pauta de grandes corporações. Entretanto, a dificuldade em combater um problema não significa que ele não foi identificado — pelo contrário, ele nunca esteve tão claro. A cada revelação do seu corpanzil, aumenta a evidência de crise no casamento entre democracia e capitalismo.

No documentário Requiem for the American Dream (2015, disponível no Netflix), o linguista norte-americano Noam Chomsky descreve os efeitos do círculo ganancioso “financiamento-eleição-retorno do financiamento”.

Em O Capital do Século XXI (2013), Thomas Piketty mostra como o capital financeiro, aquele vinculado aos juros e à especulação, está rendendo indevidamente mais do que o capital produtivo, aquele vinculado ao trabalho e à criação.

O bordão “We are the 99%”, aponta o poder monetário desproporcional que o 1% mais rico do mundo acumula.

Ok, o problema está aí. Mas, e a solução?

A pirâmide virada em rede

No artigo Do Artifacts Have Politics?, Langdon Winner debate se tecnologias podem já nascer com diretrizes políticas:

“Estamos acostumados a olhar para as tecnologias como ferramentas neutras que podem ser usadas bem ou mal, ou algo entre os dois. Mas normalmente não paramos para se perguntar se determinado aparelho pode ter sido criado e montado de maneira que produza uma série de consequências planejadas anteriormente a suas utilidades então descobertas.”

Winner conta que “o sistema fabril, o automóvel, o telefone, o rádio, a televisão, o programa espacial, e é claro a energia nuclear foram em algum momento descritas como forças democratizadoras, liberadoras”. A internet, obviamente, faz parte da trupe e já possui o seu próprio cabo de guerra.

Utopia e destopia: propaganda interativa da SPP permite visualizar cenários futuros conflitantes — criado por M&C Saatchi, Suécia
É possível apontar pelo menos duas concepções de internet. Uma enxerga na sociedade conectada a chance de mimetizar a ordem de sempre, em que pouquíssimos levam vantagem e muitos correm atrás, agora em nova arena e escala global. A outra enxerga na sociedade conectada a chance de finalmente diluir a concentração de poder, permitir formas mais justas e cooperativas de organização e diminuir distâncias. Geográficas? Também. Mas, principalmente, econômicas.

Quando buscamos uma alternativa política, uma verdadeira alternativa política, flertamos com a internet que prima pela descentralização, pela pluralidade, pelo usuário autônomo e não servo.

Mesmo que estas qualidades ainda não tenham encontrado harmonia em um único modelo para nos servir de referência, elas têm pipocado e se manifestado de forma não-organizada, em iniciativas e reflexões de origens dispersas.

Por exemplo, em recente episódio do programa Roda Viva, o economista Eduardo Giannetti lançou o mote Menos Brasília, Mais Brasil. “Poder para o governo local. O cidadão mora no governo local, no município, ele não mora em Brasília […]. A quem interessa o dinheiro que nós pagamos ir até Brasília para depois voltar? Minha bandeira é descentralização.”

Giannetti defende opiniões que podem desagradar entusiastas das ecovilas. Contudo, é impossível não perceber uma convergência entre seu mote e a essência destas comunidades. Usualmente rurais, as ecovilas são uma forma de organização em que a sustentabilidade está entre suas principais bandeiras. A produção de comida e a utilização de energia são processos que buscam a harmonia com a natureza. Entre si, os participantes também exercitam o equilíbrio entre a autonomia como indivíduo e a responsabilidade como membro. Em outras palavras, poder para o local.

Doug Aitken

O geógrafo britânico David Harvey, um dos autores de Cidades Rebeldes, atentou em artigo de 2013 o lado antidemocrático da nossa paisagem urbana:

“É um mundo em que a ética neoliberal de individualismo, acompanhada pela recusa de formas coletivas de ação política, torna-se modelo para a socialização humana. […] Os resultados estão indelevelmente gravados no espaço das nossas cidades, que cada vez mais consistem de fragmentos fortificados, condomínios fechados e espaços públicos privatizados, mantidos sob vigilância constante.”

Sempre que pode, Harvey traz à tona a Comuna de Paris. Em 1871, a instabilidade gerada pela Guerra Franco-Prussiana deu a oportunidade aos trabalhadores franceses de derrubarem a Assembléia e tomarem as rédeas da cidade. Entre as medidas que aquela nova sociedade tomou, estavam a igualdade entre os sexos, a abolição da pena de morte e a duplicação do salário de professores. O final foi trágico, com um ataque do governo francês em conluio com o antes inimigo Império Alemão, mas a experiência foi histórica. Às vezes, as inspirações para uma sociedade democrática vêm de longe no espaço e também no tempo.

Todos estes exemplos tateiam por algo em comum: é possível a vida em sociedade sem desigualdade? Ou é natural, é necessário que alguns poucos mandem e guardem privilégios?

São questões que nos acompanham desde a Grécia Antiga e que agora acessam um novo capítulo com uma poderosa personagem chamada tecnologia digital.

MiVote

MiVote é uma start-up australiana de democracia que usa a Internet e smartphones para que os cidadãos votem na direção que o país tomará. É uma plataforma que educa e ajuda a escolher entre uma variedade de opções de políticas que quebram opções binárias de democracia em questões amplas, como política sobre refugiados por exemplo.

A Estônia se tornou “a sociedade digital mais avançada do mundo”, segundo a revista Wired, e vem construindo um ecossistema eficiente, seguro e transparente: trata-se do e-Estonia. Desde sua independência da Rússia em 1991, o país embarcou em uma jornada de revolução tecnológica como sua principal aposta de diferenciação. E foi um sucesso: em 1997, 97% das escolas eram online; em 2000 as reuniões do governo eram sem papel; até 2002 o governo instalou wifi gratuita na maior parte das regiões populadas; em 2007 introduziram o voto digital; recentemente, instalaram ônibus sem motorista no transporte público, de graça.

Democracia líquida, uma utopia?

A ativista argentina Pia Mancini subiu ao palco do TED em 2014 para contar a história do Democracy OS. O aplicativo que ela havia inventado começara como uma ponte entre eleitores e parlamentares, para depois se tornar algo como a versão pampa do DemoEx, um experimento sueco no qual políticos eleitos votam de acordo com a vontade de seus eleitores.

Na mesma linha, Santiago Siri trabalha no software Democracy Earth e a Bancada Ativista elegeu vereadores em São Paulo com campanhas pagas por meio de financiamento coletivo.

Foram tempos de encanto com as possibilidades que a tecnologia digital trazia para o campo da política. Até parecia que a consolidação da democracia líquida era iminente. Foram tempos anteriores à vitória de Donald Trump e do Brexit.

O que esta ideia (a do hackeamento da política) tem de inovadora, ela tem de velha. William “Boss” Tweed, um político norte-americano nascido em 1823, comentou: “não me importa quem faça a eleição, desde que eu faça a nominação”. Ou seja, a democracia moderna já foi hackeada desde seu nascimento, por banqueiros, latifundiários e empresários. O que temos é apenas um vulto, uma sombra de sistema democrático. E é aqui que se revelam outras complexas facetas desta utopia: é possível retomar o poder jogando o jogo dos poderosos.

Micropolitics: propaganda usa humor para encorajar engajamento político entre a população egípcia.

Sim, é melhor do que nada e sim, é válido tentar ocupar estes espaços de representatividade pública, mas a transformação social não vai começar na Câmara ou no Senado. Ela começa aqui fora.

Aidas Bareikis

Se hackear a política ainda é uma ideia embrionária, sua possibilidade levanta paradoxos. Como pôde a tecnologia, que conecta todo o mundo, ter agravado o distanciamento, a desconfiança, a cultura do eu? Será que pode haver um equilíbrio entre a revolta instintiva, de eventos como a revolução dos guarda-chuvas em Hong Kong, a ocupação das escolas no Brasil e a inteligência programada de aplicativos políticos? Chegará o momento em que as grandes companhias digitais serão alvos de protestos massivos como são hoje os governos e o sistema financeiro? Como vencer uma batalha que se desenrola nas nossas mentes e não nas nossas mãos?

“Fomos chamados de ingênuos, e de fato, fomos. Porque o desafio não é tecnológico, mas cultural.” — Pia Mancini

Para além do deslumbramento com as possibilidades numéricas e estéticas da tecnologia digital, é hora de percebê-la como ferramenta auxiliar de um projeto político que a perpassa e ultrapassa. Já foi dito no The Guardian: “Para reenergizar a democracia, nós precisamos passar menos tempo falando de tecnologia, e mais tempo entendendo como ajudar pessoas comuns a desenvolverem uma percepção do seu próprio papel (…) O poder das instituições tradicionais de governo e da mídia tem sido exercido em estruturas cima-baixo e gatekeepers que controlam o acesso a ideias, informação e audiências de massa. Mas os gatekeepers estão agora perdendo o controle, enquanto os indivíduos percebem sua capacidade de se integrar e de exercer o poder.”

Claro que os caminhos são vacilantes e taxar a ideia da democracia direta de utopia surge como um reflexo, mas vale lembrar que “pensar de maneira utópica é um primordial ato político. Envolve uma recusa a ser limitado pela obsessão com o aqui e agora para focar no mundo que poderia e deveria ser.”

“A luta fundamental pelo poder é a batalha pela construção de significado na mente das pessoas.” — Manuel Castells

No vazio que estamos vivendo, nesta ampla reformulação do que significam as instituições políticas, isto pode ser tanto um perigo como uma oportunidade.

Versão resumida ×

O sociólogo espanhol Manuel Castells abre seu livro Redes de indignação e esperança (2013) relatando a ruptura que se deu há alguns anos:

“Os mágicos das finanças passaram de objetos de inveja pública a alvos do desprezo universal. Políticos viram-se expostos como corruptos e mentirosos. Governos foram denunciados. A mídia se tornou suspeita. A confiança desvaneceu-se — e confiança é o que aglutina a sociedade, o mercado e as instituições.”

Enquanto as hipóteses positivas de Castells não se concretizam – o potencial revolucionário da sociedade em rede –, a fissura que ele descreve parece só se ampliar.

No Brasil, o cheiro de naftalina que exala do poder dominante alcança o insuportável: espelhar-se nas lideranças disponíveis tornou-se ato de retrocesso ou de desespero. Mas não é só aqui.

Chegamos a um ponto em que as formas práticas de luta, o protesto de rua especialmente, tem sofrido tentativas de esvaziamento de seu caráter crítico ao se tornarem pauta de grandes corporações. Entretanto, a dificuldade em combater um problema não significa que ele não foi identificado — pelo contrário, ele nunca esteve tão claro. A cada revelação do seu corpanzil, aumenta a evidência de crise no casamento entre democracia e capitalismo.

O problema está aí. Mas, e a solução?

Quando buscamos uma alternativa política, uma verdadeira alternativa política, flertamos com a internet que prima pela descentralização, pela pluralidade, pelo usuário autônomo e não servo.

É possível a vida em sociedade sem desigualdade? Ou é natural, é necessário que alguns poucos mandem e guardem privilégios? São questões que nos acompanham desde a Grécia Antiga e que agora acessam um novo capítulo com uma poderosa personagem chamada tecnologia digital.

Se hackear a política ainda é uma ideia embrionária, sua possibilidade levanta paradoxos. Como pôde a tecnologia, que conecta todo o mundo, ter agravado o distanciamento, a desconfiança, a cultura do eu? Será que pode haver um equilíbrio entre a revolta instintiva, de eventos como a revolução dos guarda-chuvas em Hong Kong, a ocupação das escolas no Brasil e a inteligência programada de aplicativos políticos? Chegará o momento em que as grandes companhias digitais serão alvos de protestos massivos como são hoje os governos e o sistema financeiro? Como vencer uma batalha que se desenrola nas nossas mentes e não nas nossas mãos?

No vazio que estamos vivendo, nesta ampla reformulação do que significam as instituições políticas, isto pode ser tanto um perigo como uma oportunidade.

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Ultrapassa o limite do irônico um livro chamado O Fim do Poder (2013) ter se tornado famoso porque Mark Zuckenberg o indicou. Zuckenberg e seu Facebook, ao lado dos titãs Google e Amazon, se tornaram monopólios que hoje disputam uma corrida pelo domínio da internet.

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Em reação ao texto de Langdon Winner, Bernward Joerges defende a neutralidade de dispositivos e construções e rebate a teoria de que estes funcionam como controladores sociais.

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