Produtos recuperáveis: o futuro da economia está no lixo

/

O produto do futuro será composto de materiais já existentes no mundo, pensado para facilitar sua reciclagem e utilizado de forma compartilhada

por Fernanda Franco Cannalonga capa Ruby Parker

Um processo industrial ou artesanal de produção começa, quase sempre, com uma matéria prima virgem, de origem natural. Ela é transformada até tornar-se um produto acabado, como uma peça de roupa, um equipamento de cozinha ou até uma embalagem alimentícia. Quando este produto não é mais útil ou desejado, ele é descartado. Uma pequena parte dos bens descartados chegam até a reciclagem, enquanto a maioria acaba nos lixões e aterros sanitários. Com o peso do extrativismo, muitos recursos passam por um processo de esgotamento, denunciando um futuro com escassez de matérias de origem mineral, vegetal e animal.

Esta forma de produção tem duas grandes falhas ambientais: demanda mais do que a terra pode oferecer e gera desperdício no final da cadeia. A sociedade contemporânea já reproduz esse ciclo há tempo suficiente para ter gerado uma fonte alternativa de recursos tão abundante que parece inesgotável: o seu próprio descarte.

Se interrompêssemos a extração e a produção de matérias primas imediatamente, por quanto tempo poderíamos usar nosso lixo para produzir aquilo que consumimos?

Miniwiz: a empresa transforma materiais plásticos reciclados em espaços expositivos, interiores de restaurantes e asas de avião

A lógica vigente baseada nesta via de mão única (extração, produção, consumo e descarte) já é mal vista por uma geração de pessoas que combatem o desperdício recuperando matérias-primas para as suas criações. É o caso da Miniwiz, cujo negócio é inteiramente dedicado ao upcycling e reciclagem de rejeitos da indústria e do consumo humano. Enquanto o senso comum enxerga o desperdício apenas como resultado da vida contemporânea, eles acreditam que o lixo representa a possibilidade de uma economia circular, sustentável e limpa.

Com um time de arquitetos, projetistas, engenheiros, designers e produtores, a Miniwiz já inventou mais de mil novas possibilidades sustentáveis para materiais recuperados do lixo. Para isso, criaram o The Trash Lab, um laboratório dedicado exclusivamente a destravar o potencial deste problema ambiental. Um dos projetos mais recentes do laboratório é a Pentatonic, marca de objetos de consumo que começa sua história pelo fim, pelas matérias-primas do final da cadeia de produção.

Transformação horizontal da matéria prima dentro da mesma categoria

Think Blue

Muitos pequenos produtores já utilizam a técnica que transforma peças de roupa com defeitos da indústria ou peças de brechó em uma novas peça de moda. A Think Blue, marca do Rio de Janeiro, produz blusas, saias, vestidos e calças a partir de calças jeans que ninguém queria mais. Além disso, eles propõem garantia vitalícia para suas peças. Assim, se rasgar ou descosturar, eles reparam sem nenhum custo, prolongando a vida útil do que eles colocam no mundo.

Simone Lemon

Elodie Le Boucher e Shéhrazade Schneider, do restaurante parisiense Simone Lemon, também trabalham com essa transformação horizontal, em que o material negligenciado e o produto final pertencem à mesma categoria. Mas, no caso delas, a matéria prima é perecível: são legumes, frutas e verduras feios, machucados e desproporcionais. Eles são selecionados entre os produtos rejeitados por grandes redes de supermercado, mas perfeitamente bons para consumo. É um modelo onde a estética e a forma não fazem diferença no sabor. Não há diferença no produto final, o importante é que ali nada é jogado fora. Tudo é transformado, mesmo os restos dos pratos dos clientes vão para os animais ou para a compostagem.

Desenvolvimento de novas matérias primas

Piñatex

Para evitar a demanda por novas matérias-primas, muitas vezes é necessário desenvolver soluções e investir em pesquisas tecnológicas. É verdade que muitas alternativas ao couro animal feitas a partir de matérias-primas vegetais surgiram nos últimos tempos: abacaxi, sobras de vinho, kombucha, cogumelos. Mas hoje quem prefere evitar os materiais de origem animal só encontra no mercado o Piñatex, o substituto do couro feito com as folhas do abacaxi, que não têm valor nutricional ou comercial e acabam sendo descartadas. A produção da matéria-prima virgem não requer nenhum extra em sua produção: nenhum pedaço a mais de terra, nem um pouco a mais de água, fertilizantes ou pesticidas. Enquanto o material é aperfeiçoado, pequenas marcas já o utilizam em suas coleções. É o caso da designer Ina Koelln, que produz bolsas e pequenos acessórios com o Piñatex.

Moo

A gráfica online Moo lançou um novo modelo de cartão de visitas ecológico. Eles substituiram os papéis reciclados comuns pelo papel algodão reciclado. Os cartões são feitos com papel produzido unicamente a partir de retalhos da confecção de camisetas de algodão. É uma forma nova de fazer papéis tradicionais, como o de algodão, que é reconhecido pelo toque e aparência sofisticados. O desenvolvimento do material foi feito em parceria com a Mohawk, especialista em papéis.

Punãh

Punāh, em sânscrito, quer dizer “novamente”. O projeto Punāh, que é uma iniciativa do maior fabricante de bens de consumo da Índia, Godrej & Boyce, foca em repensar a definição e os usos de “materiais de descarte”. O conglomerado gera aproximadamente 18,505 toneladas de materiais de descarte todos os anos. Normalmente eles têm sua utilidade reduzida, no processo de downcycling, quando não são enviadas para aterros e incineradores. Sabendo do potencial desses materiais que demandaram muitos processos, energia e recursos para virarem novos produtos, a empresa criou essa biblioteca de materiais para designers. São 600 tipos de opções catalogadas.

Transformação vertical da matéria-prima entre categorias diferentes

Matlama

A outra possibilidade do upcycling, ou da reciclagem, compreende uma transformação que muda o sentido do objeto da matéria-prima. Ou seja, os materiais pré-existentes de um setor são colocados em outra indústria, fora do seu uso óbvio. No caso da marca francesa Matlama, após sua primeira vida como rede de criação de ostra, um material plástico vira bolsa, carrinho de compras, cesto de bicicleta e outros objetos de uso cotidiano.

Jesper Jensen

Jesper Jensen faz este trabalho de ressignificação com uma atenção ao detalhe que transforma uma commodity em objetos especiais, substituindo facilmente qualquer produto comprado em uma loja de design. Todo o trabalho é feito à mão, no ateliê em Berlim. Todas as manhãs, a equipe da marca dá uma volta de bicicleta pelo bairro para coletar garrafas vazias de vinho, que são então lavadas, limpas, cortadas, moldadas e polidas para virararem copos, vasos e moringas de todos os tamanhos. O produto final ainda é embalado em caixas feitas com as sobras de madeira de caixas de transporte de frutas. Todo o produto é feito do lixo dos outros, e eles sentem orgulho em afirmar isso.

Ikea

Em um parceria com o estúdio sueco de design Form Us With Love, a gigante da decoração Ikea lançou um novo modelo de cozinha que utiliza apenas materiais reciclados. São 25 garrafas plásticas usadas no revestimento de cada um dos pequenos módulos da cozinha, além de madeira reaproveitada de sobras da indústria. A marca espera que o produto tenha uma vida útil de até 25 anos.

Aproveitamento de materiais na arte

Projeto Garagem

O Projeto Garagem, da arquiteta Luciana Mônaco, acolhe peças descartadas e dá nova vida para elas pelo caminho da arte e do design. Eles recebem itens danificados de restaurantes e de serviços de aluguel para eventos e convidam designers e artistas para assinar novas criações. Todos os experimentos são válidos, eles podem ter valor utilitário ou não. A parceria com a designer colombiana Heidi Jalkh, por exemplo, fica no campo das ideias. Soprando vidro dentro de peças de cerâmica quebradas, ela cria peças que geram reflexões sobre o descarte.

 

Ruby Parker

Ruby Parker, graduanda do curso de joalheria da Central Saint Martins, tradicional escola inglesa de moda, fez sua coleção final inspirada pelo lixo. Ela desconstruiu embalagens, como as de ovos, formas de torta em alumínio e frascos de detergente, para criar texturas e padrões únicos, que nada lembram suas formas originais.

Iniciativas como as listadas acima ainda são diferenciais no mercado, mas espera-se que no futuro, todo produto seja desenhado para aproveitar integralmente sua matéria-prima, e que possa sempre ser transformado novamente, voltando para o topo da cadeia de produção.

Hoje, no Brasil, mesmo os produtos e embalagens 100% recicláveis tem como destino provável o lixo. Não adianta ser reciclável ou reutilizável, é preciso garantir que, quando possível, os materiais terão o destino certo, que é a volta para o ciclo produtivo.

O produto do futuro será composto de materiais já existentes no mundo, será pensado para facilitar sua reciclagem e utilizado de forma compartilhada. A comunidade desperdício zero europeia já afirma: se um produto não pode ser reutilizado, reparado, transformado, renovado, reciclado ou compostado, então ele deveria ser restrito, redesenhado ou removido da produção.

Versão resumida ×

Um processo industrial ou artesanal de produção começa, quase sempre, com uma matéria prima virgem, de origem natural. Ela é transformada até tornar-se um produto acabado como uma peça de roupa, um equipamento de cozinha ou até uma embalagem alimentícia. Quando este produto não é mais útil ou desejado, ele é descartado. Uma pequena parte dos bens descartados chegam até a reciclagem, enquanto a maioria acaba nos lixões e aterros sanitários. Com o peso do extrativismo, muitos recursos passam por um processo de esgotamento, denunciando um futuro com escassez de matérias de origem mineral, vegetal e animal.

Esta forma de produção tem duas grandes falhas ambientais: demanda mais do que a terra pode oferecer e gera desperdício no final da cadeia. A sociedade contemporânea já reproduz esse ciclo há tempo suficiente para ter gerado uma fonte alternativa de recursos tão abundante que parece inesgotável: o seu próprio descarte.

Se interrompêssemos a extração e a produção de matérias primas imediatamente, por quanto tempo poderíamos usar nosso lixo para produzir aquilo que consumimos?

Iniciativas como as listadas na versão integral deste texto ainda são diferenciais no mercado, mas espera-se que no futuro, todo produto seja desenhado para aproveitar integralmente sua matéria prima, e que possa sempre ser transformado novamente, voltando para o topo da cadeia de produção.

O produto do futuro será composto de materiais já existentes no mundo, será pensado para facilitar sua reciclagem e utilizado de forma compartilhada.

Exibir texto integral

Comente

Mudando de assunto...

Mulheres unidas: dinâmicas inclusivas de trabalho

Empurpose

Inclusão e diversidade deixam de ser desejo de alguns e passam a ser necessidade de todos. Políticas de inclusão, capacitação e empoderamento, juntamente com a explosão do empreendedorismo feminino, fragilizam a barreira invisível do glass ceiling, com a promessa de finalmente estilhaçá-la.

O ampliamento do conceito de gênero na moda

TRANScenGENDER

Acontece há um tempo na moda um movimento de inversão de códigos do vestuário masculino e feminino, quebrando normas pré-estabelecidas e antigas noções de gênero. Trata-se de uma libertação de estereótipos, uma espécie de jogo ilusório interpretado por alguns como moda unissex. Novos formatos de negócio começam a prestar atenção a um público até então carente de roupas e produtos que acompanhassem seus modos de pensar a questão do gênero.

Tecnologia além do binarismo: ele, ela ou ciborgue?

Playing Reality

Na tecno-cultura contemporânea, envelhecem as tecnologias que incorporam valores dualistas e utilizam-se de estereótipos depreciativos. Em seu lugar, brilham experimentações que virtualizam a identidade humana e expandem a multiplicidade das representações. O desenvolvimento biotecnológico enxerga o gênero como uma restrição limitadora para o potencial humano.