O mito da geração empreendedora

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A famosa “garagem" onde nasceram Amazon, Apple, Google e outras empresas inovadoras é muito mais glamourosa do que se pensa — principalmente devido aos privilégios de seus fundadores

por Valdir de Oliveira Jr. capa Piotr Lakomy

Um dos maiores mitos dos últimos anos é, sem dúvidas, o da geração empreendedora, os millennials. Se você tem entre 22 e 35 anos, provavelmente já leu diversos artigos de como essa geração estaria fadada a mudar o mundo, as empresas, o consumo. A eles foi dada a tarefa de consertar tudo o que está errado — em um toque de mágica, essa geração seria capaz de inovar como nunca. Em artigo de 2014, a Forbes anunciou: “Millennials são a verdadeira geração empreendedora.”

Mas será que é bem assim?

Um dos maiores motivos para tanto alarde é que esses jovens seriam os mais preparados já vistos. Com grande percentagem tendo passado por universidades, esta geração tem internet ao seu dispor, capacidade inovadora e principalmente vontade de mudar. Parecia a combinação perfeita. Um boom de startups estaria à vista, capazes de trazer a economia de volta aos trilhos em todo o mundo.

Time Magazine – 2013

Mesmo os inúmeros artigos que os chamavam de preguiçosos, mimados e egoístas não foram o suficiente para lhes tirar o poder — os millennials estavam destinados ao sucesso. Mas o que se descobriu nos últimos anos é que, na realidade, nunca uma geração empreendeu menos que os nascidos no fim dos anos 1980 e metade dos anos 1990. Os mais preparados acabaram não empreendendo em muita coisa.

A psicologia das velhas mídias e das velhas ideias

O que pouco se fala são os aspectos psicológicos que levaram à ideia de que a geração Y seria a capaz de refazer tudo. Um emaranhado de informações desencontradas e má intenção criou um cabo de guerra, com milhares de jovens no meio. Quando enfim começaram a sair das universidades, do meio para o final dos anos 2000, o que a maior parte via era uma herança desumana: a economia em queda livre, gentrificação sendo levada aos limites do lógico, custo de vida subindo sem parar.

As gerações passadas muito prometeram, entregaram o contrário.

O que se procurava por fim, era um messias em quem se pudesse jogar o peso da culpa sem apontar para si, capaz de consertar tudo como um milagre. Os escolhidos foram os millennials. Com isso, a muitos jovens foi dado o acesso a diversas ferramentas (educação, tecnologia, internet, compartilhamento, redes), porém, uma vez que eles aprenderam tudo o que supostamente precisavam para entrar no mercado com novas ideias, tiraram-lhes o essencial, as oportunidades.

Nesse cenário, começaram os estudos encomendados, os artigos de grandes jornais e revistas, as avaliações geracionais. Visto que o messias não funcionava como imaginado, começou a culpabilidade: são mimados, querem tudo para ontem, não gostam de trabalhar, precisam de feedback constante, entre outros argumentos rasos.

Agora imagine: dizem ao mesmo tempo que você é capaz, mas não faz porque não quer; você tem o peso do mundo sobre as costas e, ao mesmo tempo em que é chutado sem piedade, gritam aos seus ouvidos: “EMPREENDA!”

“Estamos usando nosso cérebro de maneira excessivamente disciplinada, pensando só o que é preciso pensar, o que se nos permite pensar.” — José Saramago

Como o empreendedorismo floresce

Um dos mitos criados sobre a facilidade de se empreender tem representantes surpreendentes: Amazon, Apple, Disney, Google, Harley Davidson, HP, Mattel, Microsoft, Dell, Nike. Todas nasceram na famosa garagem, de forma simples, apenas com uma boa ideia e vontade.

Andrey Kasay

Se eles, lá atrás, com menos oportunidades, conhecimento e tecnologia, conseguiram, quais motivos levam os jovens atuais a não conseguirem? Mais uma vez os que vieram antes bradavam: “Falta vontade, mimados.” O que infelizmente não se fala é que essa garagem é muito mais glamourosa do que se vende e, principalmente, que seus fundadores estavam muitos mais preparados do que se pensa.

Em artigo publicado em seu blog, Ivan Raszl detalha a mentira da garagem e a quebra em 7 pontos cruciais, que livremente explorarei aqui com adicionais, e que podem ser deslocados e aplicados para empreendedorismo em geral.

1. Espaço: Só a existência de uma garagem livre para empreender já mostra que um espaço seguro estava a disposição desses empreendedores, onde todas as facilidades da casa que a acompanha estavam a alguns passos. Quantas pessoas tem uma garagem livre para ser usada na criação da nova Apple?

2. Segurança: Uma garagem é acompanhada de uma casa, casa essa que em geral se encontra em um bairro seguro e bem estruturado, um bairro onde empreendedorismo é bem visto e incentivado, onde suas invenções estão seguras e afastadas dos problemas do mundo. Quantos jovens têm segurança para criar a próxima Amazon?

3. Leis: Para que se possa empreender é fundamental que as leis que se aplicam aos novos negócios sejam impulsionadoras e não barreiras, é preciso pouca burocracia e muito incentivo. Quantos países no mundo dão condições para nascer um Google?

4. Tempo: Mesmo que você não precise sustentar uma família, muito provavelmente precisa se sustentar, o que significa que ao menos 8 horas do seu dia estão comprometidas. Além disso, hoje em dia muitos jovens tem dois empregos. Logo, é fundamental que se tenha tempo livre para empreender, mas a hora de dormir deve ser usada para dormir. Quantos jovens têm tempo para empreender e fundar a concorrente da Microsoft?

5. Conhecimento: O que pouco se diz é que os famosos empreendedores de garagem tinham educação de altíssima qualidade, adquiriram ferramentas muito específicas em ótimas empresas ou mesmo tinham acesso a pessoas importantes do mercado. Bill Gates e Steve Jobs estudaram na mesma escola, escola essa em que tinham acesso a um computador, algo impensável para muitas empresas na época, uma vez que era uma máquina muito grande e absurdamente cara. Quantos millennials têm acesso a conhecimento tão diferenciador hoje em dia para brigar frente a HP?

6. Dinheiro: Para empreender, mesmo que em uma garagem, é preciso dinheiro, não só para sustentar o negócio, por menor que ele seja, mas também para se sustentar enquanto não há lucro, algo que leva muito mais que alguns meses. Quem tem dinheiro sobrando para a próxima Disney?

7. Motivação: Levando tudo isso em conta, nota-se que esses empreendedores devem ter os privilégios de uma classe econômica capaz de dar todas as bases necessárias e, principalmente, capaz de celebrar empreendedores. É preciso um ambiente que veja mais valor em abrir um negócio do que em prestar um concurso público ou arranjar um emprego em uma boa empresa.

Isso mostra claramente que boa parte dos jovens, no mundo atual, simplesmente não pode empreender, uma vez que está mais preocupada em sobreviver.

Empreender é possível — permitam aos jovens

É sabido que o empreendedorismo é parte fundamental da economia. É através dele que as próximas grandes empresas que levarão parte da economia para frente surgirão, darão empregos e motivarão a próxima geração. Mas para isso é preciso que as antigas gerações permitam que isso aconteça, sem jogar responsabilidades e culpas nos braços dos mais jovens enquanto assistem de camarote o seu fracasso.

Empreender é acima de tudo uma questão psicológica. É preciso ter a mente livre para pensar o futuro em vez de se preocupar com o presente, é preciso se sentir capaz e motivado, ver as coisas não como obrigação e sim como oportunidade.

Para que se determine o fim dos artigos escritos por baby boomers sobre como millennials são mimados, o fim de pesquisas que determinam que somos mais capazes do que o ambiente permite, que se mostre a verdadeira face dos problemas e que se explore soluções que ajudem mais que atrapalhem.

Nicolas Dehghani
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Vá Além

O preço psicológico do empreendedorismo

Em premiada reportagem escrita por Jessica Bruder, a autora desmascara como a sociedade mitifica empreendedores de sucesso sem citar como muitos quase se debilitaram psicologicamente ao tentar criar seus negócios, dentro de um sistema que prioriza mais o sucesso do que o bem estar.

Startup dream

Muitos empreendedores são antigos empregados de grandes corporações, sendo que muitos não encontram na criação do seu novo negócio os resultados esperados, e mesmo que encontrem, acabam passando por situações mais difíceis do que é dito.

Trabalhar de graça não é oportunidade

Muitos empreendedores em busca de mão de obra qualificada acabam minando o trabalho de seus colaboradores, sendo que o trabalho não remunerado é um deles.

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