A desmistificação do índio na indústria cultural contemporânea

/

Criativos dedicam-se a criar produtos de cultura de massa para disseminar consciência sobre a existência e os direitos humanos daqueles que há muito foram tidos como extintos ou exóticos

por Mayra Fonseca capa Claudia Andujar

As vozes indígenas ecoam pelos corredores dos equipamentos de arte e cultura no Brasil. Sempre ecoaram, na verdade, mesmo que indiretamente, já que falar em cultura brasileira é também falar em culturas indígenas. Hoje, mesmo com este movimento ainda mais explícito, as narrativas dos vários povos nativos brasileiros, que deveriam ser reconhecidas como um dos pilares principais da formação nacional, são constantemente desrespeitadas, marginalizadas ou apagadas, pela desinformação e preconceito.

Por trás da profusão de produtos da indústria cultural sobre povos indígenas no Brasil, aparece a constante crítica-inquietação: como desmistificar e aproximar de forma justa as tantas culturas que são desconhecidas pela maioria da população brasileira?

A campanha #MenosPreconceitoMaisÍndio do Instituto SocioAmbiental mostra o cotidiano atual de povos indígenas brasileiros, sem romantização.

A tomada de consciência sobre o baixo nível de informação que se tem em relação aos indígenas brasileiros de hoje motiva alguns veículos de comunicação a trazer seu perfil e modo de vida em algumas pautas. É o caso do Jornal Nexo que publicou a enquete “Quanto você sabe sobre os indígenas brasileiros?” na ocasião do 21 de abril de 2017, o dito Dia do Índio.

“Hoje a população urbana do país, que sempre teve vergonha da existência dos índios no Brasil, está em condições de começar a tratar com um pouco mais de respeito a si mesma, porque aqui todo mundo é índio, exceto quem não é.” — Eduardo Viveiros de Castro, antropólogo

O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro diz que “índio” é qualquer membro de uma comunidade indígena, reconhecido por ela como tal. Já “comunidade indígena” seria toda comunidade fundada em relações de parentesco ou vizinhança entre seus membros, que mantém laços histórico-culturais com as organizações sociais indígenas pré-colombianas.”

Mas, afinal, o que é ser indígena no Brasil em 2017?

Para quem aprende nos livros de história do Brasil muito pouco sobre estas histórias, pode ser surpreendente localizar no mapa do território as atuais terras indígenas brasileiras, ou ainda saber que atualmente estão catalogados 274 idiomas indígenas vivos.

A recente iniciativa #EuSouAmazônia ajuda a perceber que todos temos conexão com as culturas e povos da maior floresta do mundo. O Google Earth, em parceria com a Fundação Amazônia Sustentável, mostra todas as terras indígenas no Brasil e abre janelas para que possamos sentir como é o modo de vida desses povos originários. Mas por que uma empresa de vanguarda em tecnologia e inovação se interessaria por um mapeamento de terras indígenas na Amazônia? “Pelas imagens de satélite do Earth é possível ver que os locais vizinhos das terras indígenas costumam possuir uma cobertura vegetal mais escassa do que dentro delas — seja por exploração de madeira, urbanização ou retirada de vegetação para pecuária ou agricultura. É desse modo que a empresa justifica a novidade: seria uma maneira de expor o papel decisivo de comunidades indígenas para a preservação ambiental do mundo, sobretudo na Amazônia, maior floresta tropical do planeta e região com grande diversidade de espécies vegetais e animais”, respondem.

Quase um milhão de indígenas vive, em sua grande maioria, em casas (e não ocas) principalmente nos estados de Amazonas, Bahia e Mato Grosso do Sul. São mais de 300 etnias em cerca de 14% do território nacional; 40% vivem em áreas urbanas, alguns em aldeias urbanas em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou Porto Alegre e levam uma vida em algo parecida com a do não-indígena: estão conectados à internet, usam transporte público para se locomover, realmente chegam a visitar eventos de arte e cultura, estão se formando nas universidades e com certeza alguns lerão este texto.

“Enquanto algumas minorias lutam diretamente por sua sobrevivência, nós precisamos provar a nossa existência para garantir que sobreviveremos”.
Pedro Macena, indígena do povo Guarani Mbyá, residente de aldeia urbana em São Paulo

Os primeiros formandos indígenas nas instituições brasileiras de ensino superior e as trocas de saberes entre médicos e pajés para busca de curas de doenças são evidências de que a aproximação e convivência de mundos está acontecendo. A olhos preconceituosos, no entanto, e por conta do desconhecimento massivo acerca da cultura indígena, ainda é difícil dissociar a imagem do índio daquela posta nos capítulos ilustrados dos livros de História Pré-Colonial. Alguns artistas têm colocado esforços para quebrar estes modelos.

Reverências contemporâneas à cultura indígena

Quem se interessa por movimentos emergentes em arte e cultura no país provavelmente entrou em contato com algum projeto sobre temas indígenas nos últimos anos. Foi, por exemplo, uma das pautas centrais da 32a Bienal de Artes de São Paulo (com destaque para Vídeo nas Aldeias e Ágora: OcaTaperaTerreiro). No Museu de Arte do Rio, a exposição Dja Guata Porã, Rio de Janeiro Indígena foi resultado de um extenso trabalho envolvendo indígenas e não-indígenas.

Imagem da exposição “Dja Guata Porã”, no Museu de Arte do Rio

Na mostra Histórias Mestiças, o artista Ernesto Neto fomentou a interação da floresta e da espiritualidade com o espaço artístico, por meio de sessões de ayahuasca. É de origem ritualística indígena o consumo do chá ayahuasca, associado não somente a práticas de fé, mas também a funções de autoconhecimento.

Histórias Mestiças, de Ernesto Neto

Nomes, bebidas e pratos indígenas destacam-se em estabelecimentos que brilham os olhos de comedores em busca de demandas contemporâneas como comida com afeto e sustentabilidade. A evidente pesquisa e respeito pelo universo indígena está por trás do sucesso de restaurantes como o pequeno e charmoso Caxiri em São Paulo e o Ponto de Cultura Iacitatá, da respeitada ativista da alimentação Tainá Marajoara, em Belém do Pará.

Em literatura, um lançamento que trouxe curiosidade e debate nos últimos anos tem como co-autor um xamã yanomami: trata-se de A Queda do Céu de Davi Kopenawa e Bruce Albert, uma publicação que está na lista das mais vendidas na França e que toca assuntos como florestas, aquecimento global e, portanto, vida sustentável a partir da visão de mundo desse povo do Norte do Brasil.

Já com sete prêmios, a produção cinematográfica brasileira Martírio de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita, é corajosa por trazer à tona um dos motivos pelo qual a deslegitimação dos indígenas é ainda tão presente por um lado e, por outro, porque fala-se tanto sobre eles na atualidade. Considerado “um filme para indignar Brasília”, o documentário traz na fala de um dos indígenas a realidade que ajuda a impulsionar a pauta: “o capitalismo está pegando os indígenas”.

Martírio

Movidos pela luta para barrar o genocídio dos tantos povos ameríndios, criadores dedicam-se à aproximação, convívio e articulação justa com povos indígenas. Assim surgem algumas das narrativas e produtos de cultura de massa que vemos hoje: para que o grande público tome consciência da existência e dos direitos humanos daqueles que há muito foram tidos como extintos ou exóticos. Essas presunções nos distanciam das ameaças atuais em relação à sustentabilidade e território, e restringem nosso repertório para inventividade e reinvenção do mundo.

Versão resumida ×

As vozes indígenas ecoam pelos corredores dos equipamentos de arte e cultura no Brasil. Sempre ecoaram, na verdade, mesmo que indiretamente, já que falar em cultura brasileira é também falar em culturas indígenas. Hoje este movimento está ainda mais explícito, mas, ainda assim, as narrativas dos vários povos nativos brasileiros, que deveriam ser reconhecidas como um dos pilares principais da formação nacional, são constantemente desrespeitadas, marginalizadas ou apagadas, pela desinformação e preconceito.

Por trás da profusão de produtos da indústria cultural sobre povos indígenas no Brasil, aparece a constante crítica-inquietação: como desmistificar e aproximar de forma justa as tantas culturas que são desconhecidas pela maioria da população brasileira? E o que é ser indígena no Brasil em 2017?

A tomada de consciência sobre o baixo nível de informação que se tem em relação aos indígenas brasileiros de hoje motiva alguns veículos de comunicação (com destaque para os independentes) a trazer seu perfil e modo de vida em algumas pautas. Para quem aprende nos livros de história do Brasil muito pouco sobre estas histórias, pode ser surpreendente saber que hoje muitos indígenas levam uma vida em algo parecida com a do não-indígena: estão conectados à internet, usam transporte público, visitam eventos de arte e cultura, estão se formando em universidades.

Os primeiros formandos indígenas nas instituições brasileiras de ensino superior e as trocas de saberes entre médicos e pajés para busca de curas de doenças são evidências de que a aproximação e convivência de mundos está acontecendo. A olhos preconceituosos, no entanto, e por conta do desconhecimento massivo acerca da cultura indígena, ainda é difícil dissociar a imagem do índio daquela posta nos capítulos ilustrados dos livros de História Pré-Colonial.

Alguns artistas têm colocado esforços para quebrar estes modelos. Quem se interessa por movimentos emergentes em arte e cultura no país provavelmente entrou em contato com algum projeto sobre temas indígenas nos últimos anos. É porque existe atualmente uma luta enorme para barrar o genocídio dos tantos povos ameríndios que criativos dedicam-se a criar narrativas e produtos de cultura de massa para que o grande público tome consciência da existência e dos direitos humanos daqueles que há muito foram tidos como extintos ou exóticos: duas categorias de pensamento que nos distanciam da verdade e que também restringem nosso repertório para inventividade, ou seja, para a reinvenção do mundo.

Exibir texto integral

Vá Além

Diálogos sobre o fim do mundo

Eliane Brum entrevista o o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro e a filósofa Déborah Danowski sobre o fim do mundo e a arrogância moderna. Ao longo do texto, muitas incursões acerca dos ensinamentos dos povos indígenas e seu lugar na sociedade atual: "[Os índios] podem nos ensinar a viver num mundo que foi invadido, saqueado, devastado pelos homens. Isto é, ironicamente, num mundo destruído por nós mesmos [...]".

Comente

Mudando de assunto...

O papel do design no estímulo à consciência lowsumer

Lowsumerism

O desafio do design contemporâneo é manter a relevância em um mundo cheio. Quem precisa do excesso? Mais do que apenas uma tendência, é uma questão de responsabilidade. Novos criadores propõem inovações que preveem os desejos do futuro e inspiram o mercado tradicional.

Teatro imersivo e a renovação da experiência cênica

Playing Reality

Peças teatrais inovadoras tem sido responsáveis por reacender o gosto do público por este tipo de entretenimento, fisgando o interesse das pessoas pelo ângulo do teatro imersivo. Tratam-se de peças que fazem o espectador se inserir tão profundamente na ficção que pouco resta da experiência convencional de uma peça. É uma tendência que surge no contrafluxo do conteúdo cultural contemporâneo, oferecido majoritariamente online. Mais do que uma interação entre elenco e plateia, o teatro imersivo dilui as fronteiras entre realidade e fantasia.

As novas economias e suas possibilidades de fluxo

Microeconomias

Para nos libertarmos de um modelo econômico que destrói a natureza e nos afasta de toda e qualquer conexão significativa, temos que nos livrar de suas premissas. A liberdade não reside na escolha de consumo nem de produção, mas na escolha de como fazê-los. O campo social pós-Internet mostra que, ao interagirmos na rede da economia colaborativa, ampliamos as possibilidades de fluxo, não só de informação mas também de recursos.