A jardinagem ativista dos hortelões urbanos

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A ocupação verde transforma o que é árido e morto em beleza abundante e saudável — para os novos agricultores, a cidade é a fazenda

por Fernanda Franco Cannalonga capa Marcel Cowling

“Cultivar a sua própria comida é como imprimir seu próprio dinheiro”. A palestra de Ron Finley no TED resume o esforço de ativistas e educadores em construir comunidades mais sustentáveis e justas, por meio do cultivo de alimentos, jardins e florestas. A transformação de ilhas de cimento e terrenos abandonados em hortas comunitárias demanda uma visão de cuidado integral: com o espaço, com a vida, com as águas e com o solo. A ocupação verde transforma o que é árido e morto em beleza abundante e saudável.

Mais do que uma tendência comportamental, a retomada do cultivo em pequena escala é uma ferramenta de mudança para comunidades: exige comprometimento com os vizinhos e gera empoderamento pessoal. A autonomia não é resultado apenas da possibilidade de transformar sementes em comida, mas também de produzir alimentos independentemente de grandes corporações que detêm as patentes das sementes transgênicas e dos agrotóxicos.

Claudia Jaguaribe

O que motiva os hortelões urbanos?

Os hortelões urbanos reivindicam o contato com o alimento e a reconexão com a terra. É claro que contribui com a popularidade dessas pequenas plantações o fato de serem, em sua maioria, orgânicas — especialmente quando as pessoas já se conscientizaram da importância de uma alimentação baseada em plantas, com ingredientes frescos.

As hortas urbanas vão justamente na contramão dos produtos industriais ultra-processados, que em nada lembram comida de verdade. Estão alinhadas com as expectativas de quem busca mais saúde, mas a própria saúde não é mais a única motivação. A horta extrapola os motivos pelos quais as pessoas compram orgânicos em bandejinhas de isopor no supermercado.

Acima de quaisquer motivações de natureza individualista, quem se reaproxima da terra pelo labor em um jardim comestível tende a estabelecer uma relação diferente com ela. É como se essas pessoas deixassem de olhar só para o próprio umbigo e passassem a enxergar a terra como elemento de um ecossistema integrado onde seres humanos, animais e plantas vivem em equilíbrio. Em um momento em que é crescente o debate sobre práticas agrícolas menos poluentes e mais justas para os produtores, as hortas urbanas viraram símbolo de um estilo de vida alinhado com questões ambientais e sociais.

Como consequência, o ativista não consegue ficar indiferente a um estilo de vida que cause desequilíbrio, que seja baseado na extração predatória de recursos naturais e na exploração de pessoas. Esse despertar leva para caminhos que promovem ações conscientes como o Lowsumerism, o veganismo, o êxodo urbano e o lixo zero.

Horta comunitária City Lapa

Para os moradores de grandes centros urbanos, o caminho entre o campo e a mesa é demasiado longo. Perde-se não só sabor, mas também a percepção do que acontece entre uma ponta e outra: a semente precisa de cuidados para germinar, crescer e amadurecer. É por isso que plantar humaniza, aproxima as pessoas da rede de produtores locais; aprende-se a dar outro valor ao que se come, mesmo quando se compra.

Aprendizados e ensinamentos

Defender o verde na metrópole pode ser um hobbie de final de semana ou um trabalho em tempo integral. O segundo caso é o que melhor define a jornalista e agricultora urbana Claudia Visoni. Ela participou do início do Hortelões Urbanos, um grupo no Facebook criado em 2011 que conta atualmente com mais de 60 mil membros e deu origem à Horta das Corujas, no bairro paulistano Sumarezinho. Claudia comenta:

“Na horta tem voluntário de 4 anos, de 84 anos, analfabeto, gente com pós graduação, tem punks, evangélicos. As pessoas estão ali convivendo em uma intimidade, fazendo coisas juntas fora das bolhas sociodemográficas que a gente vive.”

Não é só com diversidade de gente que se aprende a lidar nas hortas. É fácil se espantar com a infinidade de descobertas, como as PANC’s (plantas alimentícias não convencionais), erroneamente classificadas como “daninhas” ou “invasoras”. Apesar de abundantes na terra, elas não estão presentes nos mercados porque em algum momento os agricultores e comerciantes decidiram privilegiar outras espécies para plantar e vender. Nos pratos de Neide Rigo, por exemplo, entram todos os tipos de ervas, flores e cactos comestíveis que nascem espontaneamente nos canteiros do bairro onde vive, ou que ela colhe na horta comunitária City Lapa, que iniciou na esquina de sua casa.

Pancs – plantas alimentícias não convencionais

Para além dos benefícios terapêuticos de revirar o solo, o paisagismo alimentar é uma forma de resistir, e existir, nas cidades. O ponto em comum entre todos esses movimentos é a certeza de estarem começando uma revolução silenciosa, que não exige dinheiro ou incentivo político. Ela pode ser uma revolução de todos. “Se você come: você está dentro”, diz Pam Warhurst, da comunidade Incredible Edible, que planta alimentos por toda a cidade de Todmorden, na Inglaterra.

Resiliência e mercado de consumo

Rob Hopkins, autor do livro “The Transition Book”, defende a ideia de que tornar-se mais resiliente é um passo inevitável para que a sociedade consiga se desenvolver de maneira sustentável. São soluções como plantar uma agrofloresta que permitem que as pessoas continuem sendo alimentadas mesmo com uma possível quebra no sistema de transporte, devido à falta de combustível.

Para que esse sistema funcione, um dos princípios é de que o impacto das nossas ações precisa ser mais evidente. Essa consciência não se revela quando os alimentos aparecem — como em um passe de mágica — em bandejas de isopor na prateleira do supermercado, e sim quando a cadeia está próxima. É fácil esquecer os problemas do uso de agrotóxicos, da erosão do solo, dos salários baixos e da falta de água quando as consequências não são visíveis.

INFARM: uma horta dentro de um supermercado pode ser mais do que uma simples estratégia de marketing — mostra aos desavisados como poderia ser a produção de alimentos no futuro, com o consumidor próximo ao alimento em estado bruto.

A INFARM é pioneira no desenvolvimento de estações produtivas indoor, as fazendas verticais. Com o conceito grow where you are, desejam tornar as cidades mais auto suficientes, eliminar o desperdício e reduzir o impacto ambiental da produção de alimento. Eles criaram a primeira horta dentro de um supermercado na Alemanha.

Plantação de cacau fair trade, fornecedora da Lush na Colômbia

É claro, o mercado fareja tendências com o intuito de criar produtos e, assim, aquecer o consumo. Porém, o despertar das pessoas para sistemas de produção mais sustentáveis tem inspirado algumas empresas a repensar seus processos. A produtora de cosméticos Lush é um exemplo de como as indústrias podem se adaptar: a marca lançou recentemente o Spring Prize, uma premiação para projetos que acreditam no modelo de permacultura, agroecologia e biomimética. Dessa forma, oferece suporte a produtores que podem vir a fornecer as matérias primas naturais e frescas que são utilizadas nos produtos da marca.

Seja no âmbito pessoal, seja em grande escala, existe um movimento crescente que restabelece a relação com a terra e enxerga tanto o valor de hábitos simples — como ter um pezinho de alecrim na cozinha ou no jardim do bairro — como de processos mais complexos — como estruturar comunidades de produção de um insumo industrial. Para quem segue este caminho, o resultado é recompensador. O primeiro passo é compreender a própria responsabilidade; saber que, sem plantar, não é possível colher. A floresta começa na semente.

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Mais do que uma tendência comportamental, a retomada do cultivo em pequena escala é uma ferramenta de mudança para comunidades. A autonomia não é resultado apenas da possibilidade de transformar sementes em comida, mas também de produzir alimentos independentemente de grandes corporações que detêm as patentes das sementes transgênicas e dos agrotóxicos.

Os hortelões urbanos reivindicam o contato com o alimento e a reconexão com a terra. É claro que contribui com a popularidade dessas pequenas plantações o fato de serem, em sua maioria, orgânicas — especialmente quando as pessoas já se conscientizaram da importância de uma alimentação baseada em plantas, com ingredientes frescos.

As hortas urbanas vão justamente na contramão dos produtos industriais ultra-processados, que em nada lembram comida de verdade. Estão alinhadas com as expectativas de quem busca mais saúde, mas a própria saúde não é mais a única motivação. A horta extrapola os motivos pelos quais as pessoas compram orgânicos em bandejinhas de isopor no supermercado.

É como se essas pessoas deixassem de olhar só para o próprio umbigo e passassem a enxergar a terra como elemento de um ecossistema integrado onde seres humanos, animais e plantas vivem em equilíbrio. Em um momento em que é crescente o debate sobre práticas agrícolas menos poluentes e mais justas para os produtores, as hortas urbanas viraram símbolo de um estilo de vida alinhado com questões ambientais e sociais.

Defender o verde na metrópole pode ser um hobbie de final de semana ou um trabalho em tempo integral. Seja no âmbito pessoal, seja em grande escala, existe um movimento crescente que restabelece a relação com a terra e enxerga tanto o valor de hábitos simples — como ter um pezinho de alecrim na cozinha ou no jardim do bairro — como de processos mais complexos — como estruturar comunidades de produção de um insumo industrial. Para quem segue este caminho, o resultado é recompensador. O primeiro passo é compreender a própria responsabilidade; saber que, sem plantar, não é possível colher. A floresta começa na semente.

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