A música multirreferente dos nativos digitais

/

Conflitos sonoros e visuais inserem frescor no cenário pop e confundem as fronteiras sutis entre real e virtual

por Julia Oliveira capa PC Music

Décadas atrás Frank Zappa misturava sua formação musical erudita com letras nada finas. Trocadilhos sexuais piadistas e referências escatológicas engraçadinhas, dignas de um pré-adolescente, eram recorrentes em suas músicas. Jorge Mautner é outra figura que manipula tanto o sério quanto o descompromissado. Inesperadas demonstrações de humor destoam de muitas de suas composições, delicadas, profundas e melancólicas. Isso nos faz questionar se existe um significado mais profundo para “Fado do Gatinho” e “Tataraneto do Inseto” — e, geralmente, tem mesmo algo além da superfície, assim como Zappa tinha uma grande dose de crítica social.

Eles não são como Lonely Island, Tenacious D ou Pink Guy; não são projetos de humor que tem a música como veículo para a piada. Mautner e Zappa pertencem a uma categoria especial de artistas. Eles levam sua música a sério, mas não se levam a sério.

De forma análoga, hoje alguns artistas têm feito as pessoas coçarem a cabeça em dúvida. São nativos digitais que transitam habilmente entre as fronteiras sutis do real e digital para criar conflitos sonoros e visuais, que fazem sentido para quem está habituado com a chuva de referências ininterrupta da internet — referências que coabitam o mesmo tempo e espaço, e muitas vezes são destoantes entre si. Nem sempre estes artistas em questão trabalham com o humor puro, mas todos eles, como Mautner e Zappa, trabalham com a dúvida, colocam uma pulga atrás da orelha do ouvinte. Os questionamentos que esta nova safra propõe exploram lugares comuns da música mainstream e refrescam um mundo que tem pouco espaço para rir de si mesmo com inteligência.

“A ironia salvadora é consigo próprio.” — Jorge Mautner

Kero Kero Bonito

Os produtores Gus Lobban e Jamie Bulled encontraram a vocalista Sarah Perry graças a um anúncio na internet. Foi ela quem trouxe o swag nipônico e o conhecimento linguístico indispensáveis para a concretização de Kero Kero Bonito. Na banda, referências sonoras do pop ocidental e oriental são habilmente costuradas por letras bilíngues (em inglês e japonês). O resultado é uma dose forte de fofura e imaginação, que poderia facilmente figurar na trilha sonora de um programa de TV infantil. Na verdade, este é um dos grandes trunfos da KKB: flexibilizar as fronteiras entre a infância e o mundo adulto, com leveza e despretensão. Mas as letras literais aparentemente ingênuas fazem todo o sentido. Elas convidam a ver os problemas da vida adulta com olhos descomplicados de criança (e também zombar deles como uma criança), apontam a verdade com simplicidade.

Ouça: Trampoline, Graduation, Flamingo

Kool A.D.

Kool A.D já fez parte das extintas bandas Party Animal (hardcore), Boy Crisis (boy band) e Das Racist (hip hop), e hoje toca um projeto solo bem parecido com o som desta última banda. Ao longo de sua trajetória é possível ver o tom satírico sempre presente. Os versos rimados são piadas e os overdubs parecem comentários jocosos improvisados na hora. Não há, no entanto, descompromisso ou falta de reflexão por parte do artista. Há um esforço consciente de desconstruir e rearranjar objetos culturais, para bagunçar esteriótipos enraizados. Em 2016 ele lançou duas mixtapes com cem faixas cada (sim, você leu certo), além do livro “O.K.”, um romance com diversos formatos, de tweets a contos, também bastante coerente com o todo de seu trabalho. Segue um excerto que poderia bem ser a epígrafe de sua obra:

“Eu sou o melhor rapper,” sussurrei para o vazio da noite e o vazio uivou de volta: “Sem dúvidas, sem dúvidas.”

Ouça: Manny Pacquiao, O.K, Official

Die Antwoord

Eles já estão ativos há quase dez anos, mas ainda não há nada como Die Antwoord. Talvez eles sejam os pioneiros e exemplo mais proeminente deste movimento musical prankster. A dupla faz um hip hop com referências eletrônicas caricatas, letras em inglês e afrikaans. Eles inserem no rap um universo underground, cheio de ratos e freaks. Há um esforço constante, também, em reforçar sua identidade sul-africana e refutar as influências mainstream americanas. Yo-Landi é uma figura à parte: tem um timbre agudo e único, aparência de criança de filme de terror e um estranho sex appeal. Ninja é incrivelmente bad ass e intimidador, mas tem seu lado sensível de artista plástico e cabeleireiro. É como se a Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau se unissem em um duo musical explosivo — inocência e malícia, do jeito mais incômodo e conflitante possível.

Ouça: Fatty Boom Boom, Banana Brain, Ugly Boy

Charli XCX

“Eu sou muito inspirada pela Paris Hilton, cachorros pequenos e por um lifestyle luxuoso, cheio de glitter.” — Charli XCX

Charli surgiu na cena indie britânica em 2012 e estourou depois de ser a cabeça e rosto por trás dos hits “I Love It” (com Icona Pop), “Fancy” (com Iggy Azalea) e “Boom Clap”. Apesar de ser cantora, acabou se consolidando pelo talento na composição — ela já escreveu para Rihanna, Gwen Stefani, Britney Spears, Rita Ora, e outras estrelas mais. Hoje, ela não é novidade. Mas definitivamente merece um lugar nesta lista por sua capilaridade no pop mainstream. O passado e o presente de Charli não negam: ela é uma ponte entre a vanguarda e o mainstream, que acaba disseminando uma ironia autorreferente e fina, quase imperceptível. O EP Vroom Vroom (2016), feito em parceria com o produtor SOPHIE, é talvez a expressão máxima desta persona bem elaborada, que, ao mesmo tempo, ama o mundo pop genuinamente e entende que ele também é um pouco ridículo e irreal.

Ouça: Vroom Vroom, Roll With Me, ILY2

That Poppy

Poppy tem um contrato assinado com a Island Records e recentemente lançou o EP “Bubblebath”. Não é exatamente sua música que merece atenção, pois ela não é nada inusitada (um pop bem manjado, quase insosso) — mas talvez esta seja, como tudo nesta artista, uma intenção meticulosamente planejada. O que faz de Poppy única é sua persona e a mística em torno dela. Ela faz comentários sociais em vídeo sobre a vida moderna de forma robótica, como se seus sentimentos e ideias fossem gerados por algoritmos. Seus esquetes aleatórios tem algo de humor e de assustador, e contabilizam milhões de visualizações. Com um pouco de investigação é possível descobrir que tudo não passa de uma personagem, um projeto artístico de Titanic Sinclair, que transpôs o conceito da inativa banda Mars Argo para That Poppy. A identidade real da atriz por trás de Poppy, porém, ainda é nebulosa. Tire suas próprias conclusões.

Ouça: I’m Poppy, Computer Boy, Lowlife

Neil Cicierega

É possível que você já tenha topado com algumas das produções de Neil Cicierega, mesmo sem saber. Ele é criador de pérolas como o canal Potter Puppet Pals e o blog de horror Windows 95 Tips; também é pai da meme music, um gênero em que a música é criada através da edição de músicas preexistentes com objetivo de criar humor. Por exemplo, o álbum Mouth Sounds é feito apenas de remixes de “All Star”, da banda Smash Mouth. Mas, apesar da natureza humorística, seu timing preciso fez com que ele ganhasse o respeito da crítica. Universos musicais praticamente opostos (como Elton John e System Of A Down, ou TLC e Led Zeppelin) são reunidos uma fluidez surpreendente. O resultado coerente dá um nó na cabeça. Em vários momentos dá para esquecer que se está ouvindo um absurdo conceitual e é possível deixar o humor de lado para apreciar as habilidades mágicas de Neil.

Ouça: Bustin, Wndrwll, Wow Wow

Lil Yachty

Muita gente na comunidade do rap não leva Lil Yachty a sério. Alguns se perguntam até se ele faz mal para a cultura do hip hop. Na verdade, ele diz que faz “bubblegum trap” e não se considera propriamente um rapper. Seu trabalho não tem nenhum compromisso com o rap canônico. Faz sentido, afinal ele tem 19 anos e é conhecido como “Rei dos Adolescentes” porque adapta com destreza a cultura da internet para a música. Com coros desafinados e desconexos, rimas inesperadas (e até meio ruins, mas, por isso mesmo, boas) e bom humor, Yachty traz leveza para um ambiente que está acostumado com competição e se leva sério até demais — seriedade que não convence ou conversa com os nativos digitais.

Ouça: 1 Night, Minnesota, Bring It Back

PC Music

“Somos planejados ou desorganizados? Oversharing ou misteriosos? Até mesmo nosso nome é maleável, porque é tão literal que pode ser interpretado para se adequar a qualquer gênero ou estilo.” — A.G. Cook

Eles se dizem gravadora, mas não assinaram nenhum artista até agora. O que se sabe com certeza é que a PC Music se centraliza na figura do produtor A.G. Cook, talvez como um coletivo de artistas. A estética (tanto sonora quanto visual) é tão comprimida e limpa que chega a ser agressiva. Trata-se uma ode ao supérfluo, expressa não pela linguagem da criatividade e da arte, mas pela linguagem do marketing. Os membros da PC Music não facilitam a análise de seu propósito, porque a intenção é que o projeto seja ambíguo e explore os clichês e limites do pop. Alguns de seus expoentes são Hannah Diamond, GFOTY, SOPHIE, Kane West (que também integra o trio Kero Kero Bonito), Princess Bambi e QT.

Ouça: Hi (Hannah Diamond), Hey QT (QT), Beautiful (A. G. Cook)

Tommy Cash

O rapper estoniano Tommy Cash começou na peculiar cena de raves witch house do leste europeu. No início de sua carreira, sua música era mais explicitamente humorística e tirava sarro de clichês do leste europeu. O momento presente para Tommy é de uma qualidade excêntrica mais refinada. Permanecem, no entanto, a natureza obscura e os eufemismos sexuais. Seu “rap pós-soviético”, como ele descreve, lida com o absurdo de forma magnética, coroado por vídeos surreais idealizados pelo próprio artista. Ele diz que “gosta de fazer coisas que nunca viu antes”, e que começou o interesse por hip hop através da dança e do estilo. São declarações que podem soar bastante ordinárias para uma figura tão original, mas o que o torna tão ambíguo e único é a mistura de sinceridade e sátira em tudo o que faz.

Ouça: Winaloto, Surf, Euroz Dollaz Yeniz

Versão resumida ×

Décadas atrás Frank Zappa misturava sua formação musical erudita com trocadilhos sexuais piadistas e referências escatológicas engraçadinhas. Jorge Mautner há tempos também manipula tanto o sério quanto o descompromissado. Eles não são projetos de humor que tem a música como veículo para a piada. Mautner e Zappa pertencem a uma categoria especial de artistas. Eles levam sua música a sério, mas não se levam a sério.

De forma análoga, hoje alguns artistas têm feito as pessoas coçarem a cabeça em dúvida. São nativos digitais que transitam habilmente entre as fronteiras sutis do real e digital para criar conflitos sonoros e visuais, que fazem sentido para quem está habituado com a chuva de referências ininterrupta da internet — referências que coabitam o mesmo tempo e espaço, e muitas vezes são destoantes entre si. Nem sempre estes artistas em questão trabalham com o humor puro, mas todos eles, como Mautner e Zappa, trabalham com a dúvida, colocam uma pulga atrás da orelha do ouvinte. Os questionamentos que esta nova safra propõe exploram lugares comuns da música mainstream e refrescam um mundo que tem pouco espaço para rir de si mesmo com inteligência.

Kero Kero Bonito — fofura e imaginação flexibilizam as fronteiras entre a infância e o mundo adulto, com referências do pop ocidental e oriental.

Kool A.D. — rapper prolífico que já encabeçou outras bandas, sempre com tom satírico, com a intenção de desconstruir e rearranjar objetos culturais.

Die Antwoord — dupla de rap da África do Sul com referências eletrônicas caricatas. Inocência e malícia, do jeito mais incômodo e conflitante possível.

Charli XCX — ponte entre a vanguarda e o mainstream do pop, que acaba disseminando uma ironia autorreferente e fina, quase imperceptível.

That Poppy — personagem robótica meticulosamente planejada por Titanic Sinclair, que, além de música, faz esquetes estranhíssimas no YouTube.

Neil Cicierega — pai da meme music, um gênero em que a música é criada através da edição de músicas preexistentes com objetivo de criar humor.

Lil Yachty — conhecido como “Rei dos Adolescentes”, adapta com destreza a cultura da internet para a música. Diz que faz “bubblegum trap” e não se considera um rapper.

PC Music — projeto ambíguo que explora os clichês e limites do pop, com uma estética tão limpa e comprimida que chega a ser agressiva.

Tommy Cash — “rap pós-soviético” que deriva da cena de witch house. Lida com o absurdo de forma magnética, coroado por vídeos surreais.

Exibir texto integral

Vá Além

Guia para gêneros musicais troll

A ironia e o troll típicos da era pós-internet são base para cenas musicais peculiares como Witch House, Vaporwave, Seapunk e Flute Drop. Neste artigo, estes e outros gêneros são apresentados e aprofundados, com definições e indicações de artistas representantes deste movimento contemporâneo que tem uma estranheza cativante.

Pop, preconceito e PC Music

Sons como os do produtor SOPHIE e do coletivo PC Music têm sido queridinhos dos críticos porque é realmente muito diferente. Hoje, porém, a predominância de elogios está polarizada. Muitos alegam que sentimentos negativos em relação a esta cena se deve a preconceitos dentro de círculos alternativos em relação ao pop.

Sons acelerados bugam até cérebros de nativos digitais

Uma boa análise de artistas e produtores underground com influência de sons super comerciais. Da PC Music a trilhas sonoras de video games, é possível conhecer ainda mais artistas que seguem a linha de nativos digitais influenciados pela estética açucarada dos anos 1990 e da perfeição distorcida.

Comente

Mudando de assunto...

Zero Waste: o futuro da consciência ambiental

Lowsumerism

A forma como a sociedade encara seus deveres em relação ao meio ambiente mostra sinais de que ela está passando por uma importante e complexa transformação. Os anos de repetição do mesmo manual de “cidadão sustentável” estão chegando ao fim. O modelo em que tudo é descartável começa a sair de cena e dá lugar aos projetos de “zero waste”, ou “lixo zero”.

A ficção como a verdadeira realidade

Playing Reality

Passa a existir um blur entre o que é real e o que é imaginário quando narrativas fictícias podem propor realidades tão convincentes que são capazes de diluir as barreiras entre o verdadeiro e a fantasia. A ficção sublinha o que há de mais importante e, muitas vezes, ressalta as reações humanas em situações e contextos considerados extremos.

Fusão de gêneros: respiro para a moda masculina

Unfashion

As noções de feminilidade e masculinidade estão sendo questionadas e desconstruídas em todas as áreas, incluindo a moda. O terreno é fértil para a construção de uma cultura de moda que abarque a diversidade. Até então, a maioria dos experimentos envolvendo gênero aconteciam no vestuário feminino, mas hoje o gender blur invade as passarelas e mostra que a moda masculina passa por um rico momento criativo.