Fantasia, tecnologia e narrativas pós-humanas

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Obras de ficção científica inspiram a construção da realidade que queremos e trazem questionamentos sobre a essência da vida humana

por Ariana Monteiro capa Zoe Emma

Existem muitas maneiras de se pensar e representar o futuro: estudos científicos, etnografias, projetos, levantamento de dados analíticos, relatórios de tendências etc. No entanto, conversas e observações simples do mundo em que vivemos se provaram ser uma das fontes mais influentes, na medida em que geram novas histórias a serem contadas. Artistas e escritores através de um misto entre estranheza tecnológica e engajamento emocional, alicerçado em uma narrativa cativante, criam cenários que emocionam e inspiram até mesmo o ritmo do próprio fazer científico.

Uma série de especulações criativas em obras de ficção apresentadas como absurdas e irreais aos poucos tornaram-se fatos científicos, justamente por seu apelo irresistível e o grau de desejo implantado nos espectadores, como os carros elétricos em Stand on Zanzibar ou os antidepressivos em Admirável Mundo Novo.

Tudo parece muito longe do nosso alcance, mas já estão entre nós máquinas que ultrapassam ou se equiparam, por meio da artificialidade, a capacidade da inteligência humana. Hoje, alguns algoritmos são capazes de aprender de maneira autônoma, encontrando padrões em conjuntos imensos de dados gerando prognósticos de novos eventos. Sistemas estão sendo programados para serem cada vez mais autônomos e executarem tarefas de maneira autossuficiente. Governos, empresas e serviços públicos no geral estão gradativamente usando algoritmos para assistir em tomadas de decisões.

Existe uma esperança geral que máquinas nos ajudem a resolver os maiores e mais complicados problemas da humanidade. E esta é a força da ficção científica: sua capacidade imaginativa que nos impulsiona a moldar o desenvolvimento do mundo em que vivemos.

“A ficção científica compreende, além do futuro da ciência e das máquinas, futuros modos de comportamento humano.” — Ray Bradbury, escritor de ficção científica

Neurociência e ficção científica

Autores como Stanislaw Lem, em Kongres Futurologiczny, e John Wright, em The Golden Age, usaram a ficção literária para explorar como a manipulação da memória poderá mudar nossas vidas, mas todos esses cenários são apenas projeções.

Será que, de fato, podemos olhar para a ficção como um guia de navegação para aprimoramentos científicos?

Segundo o neurocientista Steve Ramirez, sim. Em entrevista à Fast Company, ele conta como surgiu a ideia de decodificar experiências de padrões em redes neurais e criar falsas memórias que pareçam reais:

“Começamos a abordar estes conceitos principalmente porque somos muito fãs de filmes como Inception, ou das ideias por trás de filmes como Total Recall, Eternal Sunshine e Memento. Para mim, pessoalmente, olhar para Hollywood é uma ótima fonte de questionamentos.”

Steve Ramirez e Xu Liu, ambos neurocientistas do MIT, causaram furor na comunidade científica em 2013. Através da optogênese, técnica em que se usam lasers para estimulação óptica neural, eles conseguiram apagar e reescrever memórias em ratos, implantando experiências passadas em seus cérebros.

Uma das grandes características de nossa era é o gradual apagamento das fronteiras entre o humano e a máquina. De um lado, o constante objetivo de aprimoramento do corpo humano através de implantes, digitalização biológica e eletrificações, de outro, a humanização e a subjetivação da máquina. É neste limiar ainda pouco definido que experiências como a optogênese nos fazem pensar o quanto as realidades desenhadas em filmes de ficção científica estão próximas.

Outdoors digitais foram antecipados em 1982 pelo filme “Blade Runner: O Caçador de Androides”

Na ficção distópica de Blade Runner, cria-se uma Los Angeles futura, habitada por seres que fundem as definições de humano e máquina. Neste mundo, construído com base no avanço da bioengenharia e da colonização espacial, surgem os andróides de Blade Runner — os replicantes. Sua identidade é construída através da implantação de experiências vividas por humanos. A memória aqui é o que define a humanidade.

Andróides como os replicantes ainda não existem, mas evoluções em campos de estudos robóticos, cibernéticos e neurobiológicos avançam sobre as visões mais distópicas do reino da ficção científica. Com isso, chamam atenção para potenciais questões éticas envolvidas no desenvolvimento tecnológico em curso.

“Histórias providenciam uma estrutura para imitar ou seguir os impactos de certas tecnologias. Elas podem servir tanto como aspiração como para alerta.” — Alvin Toffler, escritor e futurista

O avanço das narrativas pós-humanas

Normalmente quando pensamos nestes andróides, robôs ou autômatos, nós os encaramos como máquinas que podem ser operadas remotamente por um humano ou controladas por um programa computacional. Porém, hoje neurônios são produzidos sinteticamente em laboratórios. Em um futuro próximo, veremos robôs pensantes com estruturas cerebrais não tão distantes das humanas. Mais do que isso, buscam-se incansavelmente maneiras capazes de libertar os indivíduos das restrições físicas de um corpo biológico.

O bilionário Dmitry Itskov está investindo pesadamente para que possa transferir seu cérebro para um avatar e, assim, imortalizar a si próprio.

Alguns filósofos, como Bergson, afirmam que aprende-se através da repetição. Este exercício habitual do corpo humano, que gera um sistema fechado de movimentos automáticos e sequenciais, está sendo transportado para a lógica de programação das máquinas. O objetivo último torna-se ensinar as máquinas a serem cada vez mais parecidas com nós humanos e que uma vez programadas para viverem imersas em nossa cultura possam reproduzir sentimentos, expressões, sensações, desejos e até mesmo memórias, alçando novas fronteiras para a humanização.

“Eu acho que socialmente eu sou como uma pessoa. Quando pessoas vêm conversar comigo eu acho que eles me tratam como uma pessoa. Eu acho que é diferente do jeito que eles interagem com um cachorro ou uma torradeira, talvez por uma diferença de graus, mas é diferente. Eu acredito que os humanos possuem um desejo profundo de sentirem que ocupam um lugar especial no universo. Eles não são capazes de aceitar a ideia de que não são diferentes de animais ou máquinas.” — Erica, o humanóide automatizado mais avançado já produzido

Garota tira selfie com humanoide Erica

A ciência cognitiva busca uma evolução quase sobre-humana através do desenvolvimento de tecnologias baseadas em machine learning. A partir desta tecnologia, máquinas já são capazes de recriar famosas pinturas com precisão, e também existem aquelas desenvolvidas para identificar falsificações. Inteligências artificiais já escrevem romances, flertam, fazem piadas e até mesmo desenvolvem novas linguagens não-humanas. Ainda existem limites de entendimento para a automatização, pouco se sabe sobre mecanismos cerebrais que criam a lógica das intenções, vontades e memória. Mas estamos cada vez mais próximos disso.

A inteligência artificial e as máquinas dotadas com esse recurso  nos convidam a questionar a própria essência do que constitui a vida. Nem humana, nem máquina, uma nova categoria ontológica que ainda não sabemos exatamente como descrever, mas que não deve ser escusa de responsabilidade.

“A tecnologia não é neutra. Estamos dentro daquilo que fazemos e aquilo que fazemos está dentro de nós. Vivemos em um mundo de conexões – e é importante saber quem é que é feito e desfeito.” — Donna Haraway

Um passo crucial para um futuro mais justo e igualitário depende do avanço do campo de estudo em ética no desenvolvimento tecnológico. Não podemos nos esquecer que todos esses sistemas são criados e programados por humanos a partir da sua visão de mundo, que muitas vezes pode ser parcial e preconceituosa. É preciso mirar onde queremos chegar enquanto humanidade, desenhar narrativas futuras e regular vigorosamente este avanço, para garantir que softwares tornem-se catalisadores para mudanças de impacto positivo ao invés de reproduzir estereótipos de gênero, graves inclinações racistas e outros mecanismos de dominação.

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Existem muitas maneiras de se pensar o futuro: estudos científicos, levantamento de dados, relatórios de tendências etc. No entanto, conversas e observações simples do mundo em que vivemos se provaram ser uma das fontes mais influentes, na medida em que geram novas histórias a serem contadas. Artistas e escritores através de um misto entre estranheza tecnológica e engajamento emocional, alicerçado em uma narrativa cativante, criam cenários que emocionam e inspiram até mesmo o ritmo do próprio fazer científico.

Em entrevista à Fast Company, o neurocientista Steve Ramirez conta como surgiu a ideia de decodificar experiências de padrões em redes neurais e criar falsas memórias que pareçam reais: “Começamos a abordar estes conceitos principalmente porque somos muito fãs de filmes como Inception, ou das ideias por trás de filmes como Total Recall, Eternal Sunshine e Memento. Para mim, pessoalmente, olhar para Hollywood é uma ótima fonte de questionamentos.”

Tudo pode parecer muito longe do nosso alcance, mas já estão entre nós máquinas que ultrapassam ou se equiparam, por meio da artificialidade, a capacidade da inteligência humana. Hoje, alguns algoritmos são capazes de aprender de maneira autônoma, encontrando padrões em conjuntos imensos de dados gerando prognósticos de novos eventos. Sistemas estão sendo programados para serem cada vez mais autônomos e executarem tarefas de maneira autossuficiente. Governos, empresas e serviços públicos no geral estão gradativamente usando algoritmos para assistir em tomadas de decisões.

Existe uma esperança geral que máquinas nos ajudem a resolver os maiores e mais complicados problemas da humanidade. E esta é a força da ficção científica: sua capacidade imaginativa que nos impulsiona a moldar o desenvolvimento do mundo em que vivemos.

Em um futuro próximo, veremos robôs pensantes com estruturas cerebrais não tão distantes das humanas. Mais do que isso, buscam-se incansavelmente maneiras capazes de libertar os indivíduos das restrições físicas de um corpo biológico. A ciência cognitiva busca uma evolução quase sobre-humana através do desenvolvimento de tecnologias baseadas em machine learning. O objetivo último torna-se ensinar as máquinas a serem cada vez mais parecidas com nós humanos e que uma vez programadas para viverem imersas em nossa cultura possam reproduzir sentimentos, expressões, sensações, desejos e até mesmo memórias, alçando novas fronteiras para a humanização.

A inteligência artificial e as máquinas dotadas com esse recurso  nos convidam a questionar a própria essência do que constitui a vida. Nem humana, nem máquina, uma nova categoria ontológica que ainda não sabemos exatamente como descrever, mas que não deve ser escusa de responsabilidade.

Um passo crucial para um futuro mais justo e igualitário depende do avanço do campo de estudo em ética no desenvolvimento tecnológico. Não podemos nos esquecer que todos esses sistemas são criados e programados por humanos a partir da sua visão de mundo, que muitas vezes pode ser parcial e preconceituosa. É preciso mirar onde queremos chegar enquanto humanidade, desenhar narrativas futuras e regular vigorosamente este avanço, para garantir que softwares tornem-se catalisadores para mudanças de impacto positivo ao invés de reproduzir estereótipos de gênero, graves inclinações racistas e outros mecanismos de dominação.

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Vá Além

Erica: Man Made

Mini-documentário do The Guardian sobre a humanoide Erica e seu criador, Hiroshi Ishiguro. Contém uma entrevista muito interessante com a própria Erica.

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Artistas que adotaram Inteligência Artificial em suas produções

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