GenExit: a geração pós-Personal Brand

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Como a juventude aproxima-se do fim dos Digital Influencers

por André Alves e Sophie Secaf GenExit é um ensaio baseado em pesquisa quantitativa de campo, realizada pela Box1824 em 7 estados norte-americanos — download texto publicado originalmente na revista L'Officiel capa astropuke

O que você faz por um like? Fotografa seu prato antes de tocá-lo. Marca “amigos” de quem nem gosta muito nos seus posts, porque ele ou ela tem muitos seguidores. Publica textões sobre diversos assuntos, afinal você tem muito a dizer. Posta fotos do seu cachorro, ele tem uma hashtag própria. Compra seguidores, ou pelo menos já pensou no assunto. Tem pavor de que alguém descubra. Ou talvez você não se importe com o que posta nas redes sociais, afinal a vida real é mais importante do que o que se compartilha na internet. Mesmo assim, é impossível que você nunca tenha se importado com o número de curtidas que recebeu em uma foto.

Em tempos digitais, a individualidade é expressa através de Personal Brands, ou marcas pessoais. Você é o que você posta, não necessariamente o que você vive. Seu feed deve ser consistente e mostrar o quão original — e aspiracional — é o seu estilo de vida. Seguindo princípios de marketing, cada post é uma oportunidade de avaliar o poder de alcance da sua personalidade e moldá-la de acordo com as reações dos seus seguimores. É uma linha fina entre “ser quem você é” e “ser o que os outros querem que você seja”.

A ideia de querer ser famoso na internet pode até parecer fútil, até o momento em que a influência online converter-se em ganhos materiais. Ninguém sabe explicar como Kim Kardashian West é tão famosa, mas de alguma forma ela construiu um império que envolve um reality show, aplicativos com mais de 50 milhões de downloads e uma linha de maquiagem que esgotou em minutos. Kim K é a promessa de que cada um de nós é um Digital Influencer em potencial, prestes a ser descoberto e seguido. A @thaynaraog e aquele amigo que virou YouTuber buscam a mesma trajetória de sucesso: viajar o mundo postando seus presentes #recebidos. E se eles conseguiram, talvez você também consiga.

Mas apesar de nossas personas públicas esbanjarem felicidade e #gratidão, nos momentos privados estamos sozinhos e ansiosos. Nos últimos anos, inúmeros estudos apontaram uma relação direta entre o número de horas dedicadas às mídias sociais e índices de ansiedade e depressão. Para muitas pessoas, o feed deixou de ser uma inspiração para se tornar um lembrete diário de que você poderia — ou deveria — estar mais feliz.

Anxiety calls, por @sainthoax
“Quantas horas tem o dia dela? Como ele consegue aquele corpo? Ela está de férias ou está trabalhando? Como consegue viajar tanto? Quanto custa manter esse estilo de vida?”

Talvez você nunca seja feliz como eles. Todos querem ser a melhor versão de si mesmos e, sem perceber, caímos na cilada de investir nossos escassos recursos emocionais na construção de versões perfeitas de nós mesmos. Assim como a Luciana Gimenez no Twitter, estamos exaustos.

 

A próxima geração vem criando novas alternativas para escapar dessa armadilha antes que seja tarde demais. Dados sobre a Geração Z, indivíduos nascidos entre 1998 e o presente, apontam uma nova relação com suas personas online: eles estão abandonando o Facebook, mantém suas contas no Instagram privadas e preferem a lógica de posts efêmeros do Snapchat. Previsões também apontam um declínio na participação na força de trabalho formal, nas matrículas em universidades e na filiação a partidos políticos tradicionais. Nesse contexto, a associação da letra “Z” a essa geração é mais simbólica do que parece: assim como “Z” é última letra do alfabeto, essa pode ser a última geração nos moldes sociais tradicionais. Não se trata apenas de abandonar o Facebook, mas também de uma geração que está abandonando as estruturas sociais tradicionais, pessoas agnósticas em todas as áreas da vida.

GenExit é a geração que está sempre pronta para sair.

Este contexto pode ser menos apocalíptico do que parece, afinal uma saída pode ser uma chance de mudança. Os membros da GenExit sabem — ou estão aprendendo — que manter uma Personal Brand pode ser uma grande armadilha. Eles não querem passar a vida na busca pelo feed perfeito. Os feeds de seus Instagrams não serão os moodboards de suas vidas.

Historicamente, a teoria geracional sempre tentou colocar na juventude a responsabilidade de salvar o mundo, como se cada geração fosse obrigada a reinventar paradigmas culturais e estruturas sociais. GenExit parte de um ponto de vista mais pragmático e realista: no lugar de criar a salvação, optam por experimentar novas possibilidades identitárias que sejam mais livres e menos deterministas.

Esse futuro começa com a negação das coerentes Personal Brands dos Millennials. Os membros da GenExit priorizam identidades mais fluidas no lugar de personas tão controladas, anonimato no lugar do poder de ser seguido, a construção de comunidades ao invés de enxergar os amigos como audiência e alcance. Trata-se de uma cultura de massa mais criativa, mais experimental e menos idealizada. Para a GenExit, a desconexão é o início da libertação.

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