Resgate dos saberes tradicionais das mulheres

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O conhecimento não acadêmico de parteiras, benzedeiras e curandeiras ganha suporte e é reverenciado por iniciativas conectadas a valores humanos e à identidade cultural regional

por Giovana Camargo capa Sara Falli

Chá de boldo para gastrite, de orégano para cólicas, limão e gengibre para gripe, pasta d’água para queimaduras. Por trás destas ingênuas receitas, existe um valioso conhecimento detido por curandeiras, benzedeiras e parteiras. São mulheres carregadoras de uma sabedoria nativa, sensíveis às respostas da natureza. Seus saberes as tornam líderes em suas comunidades e agentes de transformação social. Muitos destes ofícios tradicionais correm o risco de se perder por serem apenas passados de geração em geração, pela fala e convívio.

Hoje, após anos de resistência, os saberes tradicionais ganham reconhecimento e são resgatados, com novo fôlego, pelo despertar de uma nova consciência atrelada ao declínio do consumo. A sabedoria natural motiva projetos e marcas que têm como prioridade a reapropriação dos corpos, a aceitação dos processos orgânicos e a reconexão com o sagrado.

Cuidado e cura pela natureza

As curandeiras ou raizeiras são grandes conhecedoras das raízes, ervas e plantas disponíveis no ambiente onde vivem. Seu trabalho compreende a identificação de plantas para uso medicinal e preparo de remédios caseiros, como chás, tinturas, pomadas e óleos indicados para diversas enfermidades. Devido à noção singular do ecossistema a seu redor, são também fundamentais para manutenção e preservação de biomas, espécies nativas, para ampliação do catálogo e registro de plantas medicinais e fomento a pesquisas sobre o potencial fitoterápico de plantas regionais.

A riqueza deste trabalho tem sido visibilizada por projetos como Mulheres da Terra, que documenta histórias e fotografias de mulheres que desenvolvem papeis importantes em suas comunidades, em “uma jornada de resgate dos saberes ancestrais femininos ao redor do mundo”. A Articulação Pacari é outro movimento nacional relevante de proteção às plantas medicinais do cerrado. O grupo, formado em sua maioria por mulheres, faz uso sustentável da biodiversidade na produção e venda de medicamentos terapêuticos.

Dona Maria d’Ajuda, parteira e raizeira. Foto: Isadora Carneiro.

Atualmente, este movimento comportamental ganha força entre mulheres mais novas que buscam viver uma vida mais leve e menos medicalizada. Na jornada por uma vida mais leve, o consumo de produtos com substâncias nocivas para a saúde é reduzido e os cuidados diários caseiros, orgânicos e artesanais são priorizados. Muitas retomam receitas antigas de família e produzem os próprios cosméticos, de forma autônoma e consciente. Plataformas de conteúdo online como o Matricaria impulsionam a tendência e pulverizam informações referentes à ecologia feminina.

Algumas marcas de cosméticos também têm utilizado como espinha dorsal a conexão humanizada com matérias naturais. Pequenos negócios comandados por mulheres prosperam movidos pelo propósito de levar os benefícios da energia orgânica para a intimidade do cotidiano. Marcas maiores também podem endossar a valorização do natural: é o caso da tradicional Weleda, que produz medicamentos e cosméticos sob princípios antroposóficos desde 1921.

“Tenho consciência da dificuldade de se produzir em escala industrial produtos 100% naturais e por preços acessíveis, mas essa iniciativa visa colocar na nossa vida diária um pouquinho do que a natureza realmente pode fazer por nós de bom.” — Sachimi dos Santos, da SACHI cosméticos naturais

SACHI cosméticos naturais
Sacerdotisa: alquimias naturais terapêuticas e cosmética consciente
Fefa Pimenta tem como objetivo “levar os produtos ao encontro das pessoas que também procuram integração com a natureza, saúde e autocuidados verdadeiros”
Jardineira de Oxalá incentiva as pessoas a se cuidarem “como antigamente” por meio da produção de cosméticos feitos com “ingredientes naturais e sabedoria ancestral”.

Humanização do parto

Um movimento de compreensão feminina busca naturalizar a prática orgânica do parto vaginal e o entendimento de que seus corpos são feitos para parir. O chamado parto humanizado defende o gestar e parir com menos intervenções médicas, sem uso de hormônios sintéticos e medicações. Esta prática resgata um dos ofícios mais antigos do mundo, o das parteiras, mulheres que acompanham, cuidam, direcionam, preparam o ambiente, os medicamentos naturais e auxiliam no trabalho de parto usando manobras e técnicas caso seja necessário.

“Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer.” — Michel Odent, obstetra defensor do parto humanizado

Importante pontuar que no Brasil este movimento é recente e especialmente importante. Isto porque partos naturais são extremamente comuns no mundo todo, mas não em nosso país, que tem um dos maiores índices globais de cesarianas. A realidade da violência obstétrica está mudando, mas ainda é alarmante.

Neste contexto, o parto humanizado faz também parte da tomada de consciência da mulher, que passa a repensar o que foi imposto a ela e tomado como natural por tanto tempo, como o uso de absorventes descartáveis e pílula anticoncepcional.

Foto: Isadora Carneiro

Uma opção para as mulheres que optam pelo parto humanizado e com poucas intervenções médicas são as casas de parto, ambientes desenhados para acolher mães, pais e seus bebês recém-nascidos. Por exemplo a paulistana Casa Angela, que atende cerca de vinte partos por mês e inclui encontros e grupos de apoio para gestantes no pré-natal, além de apoio à amamentação. O Cais do Parto, em Olinda, também oferece formações e capacitações técnicas de parteiras e doulas.

Parto pelo mundo” iniciou como uma série de episódios no canal GNT e, mais tarde, tornou-se um documentário longa-metragem, O Renascimento do Parto

Wild Born Project é um projeto fotográfico e científico que explora os aspectos socioculturais e ecológicos que permeiam as tradições e práticas naturais do nascimento em comunidades ao redor do mundo.

Bela Gil tem sido, no Brasil, uma figura importante na disseminação da conversa sobre parto humanizado, compartilhando vídeos informativos e até seu próprio parto, feito em casa.

Revalorização da espiritualidade

A cura pelas rezas é outro ofício muito tradicional entre mulheres. É um campo totalmente ligado à espiritualidade e fé, cruza o Brasil com diferentes símbolos e heranças religiosas e se manifesta com particularidades em locais distintos. A maior parte delas não recebe pelos seus trabalhos, mas muitas não se queixam disso, pelo medo de que essas sabedorias não sigam adiante.

Atualmente há a preocupação de garantir a continuidade deste ofício e a preservação do patrimônio cultural imaterial e do vínculo com o divino.
Dona Francisquinha, xamã, parteira e curandeira. Foto: Isadora Carneiro

Na cidade de Rebouças, no Paraná, as benzedeiras foram mapeadas e registradas — têm até uma carteirinha oficial. Na prática a legitimidade significa mais segurança para as rezadeiras. Antes denunciadas à polícia e tratadas com preconceito, hoje são reconhecidas por ajudar no bem estar e saúde pública de sua região.

O filme “Benzedeiras — ofício tradicional”, de Lia Marchi, mostra a vida e conquistas das benzedeiras.

Algumas práticas mais próximas das comunidades indígenas, com vínculos próximos dos rituais xamânicos, repercutem como uma nova concepção de medicina. A noção de saúde amplia-se para além da matéria física e corpo carnal e conecta-se com a espiritualidade. Práticas ritualísticas feitas com chás preparados com “ervas de poder”, como ayahuasca e jurema, ou o uso de rapé, kambô (vacina do sapo) e sananga permitem acesso a entendimentos únicos e se tornam instrumentos de cura. Cientistas têm estudado as inegáveis mudanças fisiológicas e padrões comportamentais de indivíduos que aderem a algumas práticas. A ayahuasca, por exemplo, já teve comprovado seu poder de estimular a proliferação de neurônios.

É fundamental, no entanto, entender que práticas ritualísticas devem ser tratadas com respeito, e não consumidas como um produto da moda. Espiritualidade demanda conexão com a verdade, e somente assim seus efeitos benéficos podem ser vivenciados.
Samico

Apesar de reconhecerem o nome de todas as árvores encontradas pelo caminho, muitas das mulheres detentoras dos saberes tradicionais não têm estudo formal. Justamente por isso, passaram por um processo de deslegitimação. A colonização do Brasil, essencialmente predatória, enfraqueceu os saberes tradicionais. Assim aconteceu com o conhecimento, que se tornou propriedade acadêmica e científica, desmerecendo o que pertencia ao campo do sutil: o ritual, a espiritualidade, o empírico. Instituições foram criadas para validar e formular o que antes pertencia às pessoas e à inteligência coletiva — assim, nos afastamos da nossa própria identidade cultural.

A resistência de comunidades movidas e curadas pelos saberes tradicionais é notável: questionam modelos prontos e se empenham na busca por direitos igualitários e pela aproximação de valores mais humanos.

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Hoje, após anos de resistência, os saberes tradicionais ganham reconhecimento e são resgatados, com novo fôlego, pelo despertar de uma nova consciência atrelada ao declínio do consumo. A sabedoria natural motiva projetos e marcas que têm como prioridade a reapropriação dos corpos, a aceitação dos processos orgânicos e a reconexão com o sagrado.

O trabalho das curandeiras ou raizeiras, grandes conhecedoras de espécies nativas regionais, tem ganhado suporte de projetos como Mulheres da Terra e Articulação Pacari. Além disso, estes saberes ganham força entre mulheres mais novas que buscam viver uma vida mais leve e menos medicalizada.

Um movimento de compreensão feminina busca naturalizar a prática orgânica do parto vaginal e o entendimento de que seus corpos são feitos para parir. O chamado parto humanizado defende o gestar e parir sem uso de hormônios sintéticos e medicações, resgatando o milenar ofício das parteiras e doulas. Importante pontuar que no Brasil este movimento é recente e especialmente importante. Isto porque partos naturais são extremamente comuns no mundo todo, mas não em nosso país, que tem um dos maiores índices globais de cesarianas.

A cura pelas rezas é outro ofício muito tradicional entre mulheres. A maior parte das rezadeiras e benzedeiras não recebe pelos seus trabalhos, mas muitas não se queixam disso, pelo medo de que essas sabedorias não sigam adiante. Atualmente há a preocupação de garantir a continuidade deste ofício e a preservação do patrimônio cultural imaterial e do vínculo com o divino. Na cidade de Rebouças, no Paraná, as benzedeiras foram mapeadas e registradas. A legitimidade significa mais segurança para as rezadeiras. Antes denunciadas à polícia, hoje são reconhecidas por ajudar no bem estar de sua região.

Algumas práticas mais próximas das comunidades indígenas repercutem como uma nova concepção de medicina. Práticas ritualísticas feitas com chás preparados com “ervas de poder”, como ayahuasca e jurema, ou o uso de rapé, kambô (vacina do sapo) e sananga permitem acesso a entendimentos únicos e se tornam instrumentos de cura. Cientistas têm estudado as inegáveis mudanças fisiológicas e padrões comportamentais de indivíduos que aderem a algumas práticas. É fundamental, no entanto, entender que práticas ritualísticas devem ser tratadas com respeito, e não consumidas como um produto da moda.

Apesar de reconhecerem o nome de todas as árvores encontradas pelo caminho, muitas das mulheres detentoras dos saberes tradicionais não têm estudo formal. Justamente por isso, passaram por um processo de deslegitimação. Assim aconteceu com o conhecimento, que se tornou propriedade acadêmica e científica, desmerecendo o que pertencia ao campo do sutil: o ritual, a espiritualidade, o empírico. Instituições foram criadas para validar e formular o que antes pertencia às pessoas e à inteligência coletiva — assim, nos afastamos da nossa própria identidade cultural. A resistência de comunidades movidas e curadas pelos saberes tradicionais é notável: questionam modelos prontos e se empenham na busca por direitos igualitários e pela aproximação de valores mais humanos.

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