Transparência na cultura corporativa

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Quando o engajamento entre pessoas e empresas se dá pela identificação de valores, a confiança passa a gerar desejo e pautar a gestão e a comunicação das corporações

por Valdir de Oliveira Jr. capa Julian Charrière

“Transparência” é, sem dúvidas, um dos termos mais utilizados nos últimos anos. Todos querem transparência, em todas as esferas da vida: nas relações afetivas, de trabalho, nas opiniões e ideias. Afinal, em um mundo dominado por notícias falsas, aquilo que se pode ver com clareza vale muito.

Ainda há a concepção de que um certo enigma é preciso para criar desejo, e talvez isso seja verdade no jogo da conquista. Mas, falando de empresas, foi-se o tempo em que desejo se criava com poucas informações e muita maquiagem. Agora, o que os olhos não veem, o coração não quer nem saber.

Ignorância era uma bênção

Muitas marcas foram criadas e expandidas com o mínimo de informação possível entregue para os seus clientes e funcionários:

“De onde vem isso?”
“Não importa, mas veja que preço bom!”

“Para onde vai isso?”
“Ninguém quer saber, mas tem durabilidade alta!”

“Todos somos pagos justamente na empresa?”
“O importante é que vocês têm emprego!”

E assim se criou uma cultura corporativa opaca. Quanto menos as pessoas sabiam, mais a empresa ganhava. Até agora.

“A transparência não é uma questão de aposta, é uma realidade.” — Paulo Nassar, diretor da Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), em entrevista

A globalização trouxe (quase) tudo a (quase) todos — conhecemos bem toda a história. Fronteiras inexistem em um mundo onde até os problemas foram socializados: você pode tentar fingir que não é sobre você, mas, no fundo, sabe que tudo é de todos.

Hoje todos sabem que aquela blusa barata ou o último lançamento de smartphone tem seu custo em liberdade e até em vidas. O chocolate que tanto amamos está nos deixando doentes e acabando com a fauna e flora de algum país. E está aí o porquê da transparência ser tão temida: ela gera responsabilidade e consequências, tanto para quem faz, como para quem compra.

Simon Denny

Agora temos uma geração disposta a enfrentar as consequências e consumir de maneira transparente. Primeiro quando você diz ao seu cliente de onde vem seu produto, quanto ele custa, quanto é pago à mão de obra, qual o seu lucro. Assim, o desejo se cria justamente sobre a honestidade e transparência, e o engajamento se dá pela identificação de valores do comprador com a empresa.

“A transparência total é a única maneira de compartilhar o progresso; usamos stand ups diários, brainstorms semanais e dias de ‘compartilhamento’ mensais para garantir que todos no time tenham a oportunidade de ter voz no que estamos fazendo e ver o impacto do seu e do trabalho da equipe.” — Jascha Kaykas-Wolff, CMO BitTorrent

Muitas empresas e startups têm tido sucesso com a transparência total: Vert, Patagonia, Ben & Jerry’s, TransferWise, Everlane, Buffer, PACT, Honest By. Ou seja, não é nada ingênuo conciliar progresso e transparência. Basta estar preparado para os questionamentos que fazem parte de qualquer processo honesto.

Honest By: o desejo é criado sobre honestidade e transparência

Conhecimento compartilhado

Compartilhar problemas é sinônimo de transparência. No caso de e-mails partilhados, por exemplo, a exposição de informações compartilha com todos as responsabilidades advindas destas informações. Várias cabeças pensando sobre determinado assunto resultam em mais agilidade nos processos. Por outro lado, discussões entre muitos colaboradores também podem atrasar algumas tomadas de decisão.

A transparência dentro de empresas ainda gera questões delicadas, que precisam ser discutidas. Divulgar dados financeiros, por exemplo, devem vir acompanhados por um bom treinamento de finanças para todos os funcionários, pois é importante que as pessoas entendam o que está sendo compartilhado com elas.

Mas, sem dúvidas o exemplo mais questionado é o salário. Como divulgar salários ajudaria? Primeiro, todos em uma corporação já imaginam o quanto o outro ganha, então sai hipótese e entra o real. Diferenças salariais por gênero também seriam rapidamente desmascaradas e resolvidas.

Ted Talk de David Burkus: defesa da transparência de salário dentro das empresas

A grande vantagem de todos se sentirem parte relevante de uma empresa é que, quando todos têm a possibilidade de discutir e participar da tomada de decisão de uma empresa, se consegue por fim ter o sentimento de comunidade, tão precioso dentro de uma corporação que aspira à democracia. A partir de decisões coletivas, todos caminham confiantes em uma única direção, sabendo que se está trabalhando para algo além da relação patrão-empregado — trabalha-se para si e para todos.

O mais importante sobre essa discussão é entender que o conhecimento não é mais algo a ser guardado a sete chaves. Guardar informações relevantes para si não é sinônimo de poder, é bloquear o desenvolvimento da sociedade.

Conhecimento compartilhado é o verdadeiro poder: poder compartilhado, poder expandido, poder de alcance inigualável, um caminho sem volta.

A demanda não é por empresas perfeitas, mas por empresas em que se possa confiar. Logo chegará o dia em que uma empresa transparente será o esperado, e todas as que decidirem se manter às sombras serão instantaneamente questionadas sobre o que estão tentando esconder.

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“Transparência” é, sem dúvidas, um dos termos mais utilizados nos últimos anos. Afinal, em um mundo dominado por notícias falsas, aquilo que se pode ver com clareza vale muito. Falando de empresas, foi-se o tempo em que desejo se criava com poucas informações e muita maquiagem.

Agora temos uma geração disposta a enfrentar as consequências e consumir de maneira transparente. Primeiro quando você diz ao seu cliente de onde vem seu produto, quanto ele custa, quanto é pago à mão de obra, qual o seu lucro. Assim, o desejo se cria justamente sobre a honestidade e transparência, e o engajamento se dá pela identificação de valores do comprador com a empresa.

Muitas empresas e startups têm tido sucesso com a transparência total: Vert, Patagonia, Ben & Jerry’s, TransferWise, Everlane, Buffer, PACT, Honest By. Ou seja, não é nada ingênuo conciliar progresso e transparência. Basta estar preparado para os questionamentos que fazem parte de qualquer processo honesto.

CONHECIMENTO COMPARTILHADO

Compartilhar problemas é sinônimo de transparência. Várias cabeças pensando sobre determinado assunto resultam em mais agilidade nos processos. Por outro lado, discussões entre muitos colaboradores também podem atrasar algumas tomadas de decisão. A transparência dentro de empresas ainda gera questões delicadas, que precisam ser discutidas.

Sempre há contrapartidas, mas a grande vantagem de todos se sentirem parte relevante de uma empresa é que, quando todos têm a possibilidade de participar da tomada de decisão de uma empresa, se consegue por fim ter o sentimento de comunidade, tão precioso dentro de uma corporação que aspira à democracia. A partir de decisões coletivas, todos caminham confiantes em uma única direção, sabendo que se está trabalhando para algo além da relação patrão-empregado. Trabalha-se para si e para todos.

O mais importante sobre essa discussão é entender que o conhecimento não é mais algo a ser guardado a sete chaves. Guardar informações relevantes para si não é sinônimo de poder, é bloquear o desenvolvimento da sociedade. Conhecimento compartilhado é o verdadeiro poder: poder compartilhado, poder expandido, poder de alcance inigualável, um caminho sem volta. A nova demanda não é por empresas perfeitas, mas por empresas em que se possa confiar.

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