Arquivos perdidos do Ponto: Comportamento dualista digital

Vamos dividir uma verdade com vocês: nós, daqui,  ficamos sempre na expectativa de vivenciar todas todas as nossas apostas de futuro. Uma carga robusta de levantamentos e estudos que nos levaram a entregar o True Gen para vocês e, nos deparamos com uma provocação muito interessante da Lydia Caldana lá de 2015, onde as primeiras propostas de ruptura nos moldes de comunicação utilizados pelos mais jovens e, por bem dizer, a extensão desse comportamento para seus familiares – com vantagens e desvantagens, que talvez troquem de lado dependendo da ótica. Olha isso:

 

Tarde de domingo, casa dos avós. Netos e pais e reunidos em frente à televisão, rindo, trocando opiniões. Essa cena poderia ter descrito um domingo de 1985, se não fosse pelo fato que os netos (e alguns pais, talvez até alguns avós) estão em frente à televisão mas não a olham: os olhos estão voltados para o celular; o risos vem da mensagem de WhatsApp recebida ou de uma menção em vídeo do Vine engraçado.

De acordo com pesquisa do Pew Research Center, 92% de adolescentes entre 13 e 17 anos nos Estados Unidos acessam a internet todos os dias, e 24% destes dizem estar online “quase constantemente”. Nota-­se esse comportamento aditivo digital dos mais jovens há alguns anos, que é hoje ampliado a diversas classes sociais através de smartphones a preço acessível. Critica-­se os jovens e se pensa em como a infância desses é afetada pela existência de tais ferramentas que, para os Millennials mais velhos e Generation X, foi algo descoberto após a adolescência. Em face às redes sociais emergentes e infinitas formas de comunicação, o valor que a experiência, a troca e o conhecimento possuem é diferente hoje.

Muitas vezes, já existimos no mundo digital antes de existir do mundo físico desde fotos que os pais tiram de roupas e berços antes mesmo de engravidarem, ao acompanhemento real­time de ultrassons divulgados com suas centenas de amigos no Facebook. A exposição digital e às vezes desenfreada dos jovens pais foi resposta ao boom do acesso à tecnologia e vislumbramento de possibilidades ilimitadas de comunicação. Seus filhos, então, cresceram tendo suas fotos tiradas por smartphones e naturalmente publicadas, geolocalizadas e tagueadas imediatamente. Ambos os pais e os filhos esperam ansiosamente os frutos dessa postagem: likes, comentários, compartilhamentos… Estes são entendidos como indicadores do sucesso virtual dos posts, e, consequentemente, das pessoas. Confunde-­se a quantidade de likes com a importância real depositada por trás deles, e acredita­-se na auto­validação por meio desse breve sucesso digital.

Acostumados com esse mindset, é quase óbvio que a criança aprenda que a importância com a imagem transparecida no online seja a mesma que a no mundo real. A pesquisa da PRC também apontou que 95% os adolescentes dessa faixa etária (13­-17 anos) passam tempo com os amigos fora da escola, pessoalmente ou ocasionalmente, mas apenas 25% dos adolescentes o fazem fisicamente no dia­ a ­dia: 55% o fazem diariamente ou a cada 2 dias através de mensagem por celular.

Seria então, o adolescente total e unicamente culpado por prezar o mundo digital de forma obsessiva?

A sobre­exposição virtual tem raízes no útero da mãe e se propaga a medida que os pais, hoje, conseguem tirar várias fotos de uma mesma situação e, com a mesma facilidade, as descartam. Esse descarte compõe a edição das memórias da infância da criança pelo adulto, e projeta a imagem que o adulto quer passar para os outros. Raramente se salvará na nuvem e divulgará no Instagram aquela versão da foto em que a criança saiu sem foco ou piscando e o mesmo vale para o adulto. Nisso, perde­-se a honestidade e espontaneidade do momento vivido. De acordo com Niobe Way, professor de psicologia aplicada na New York University, a ilusão de conexão ao usar redes sociais deve ser exterminada, já que as usamos primordialmente como forma de otimização da nossa imagem.

Tudo aponta para que a infância dos mais jovens seja composta por memórias físicas tanto quanto digitais, com a onipresença de aparelhos móveis, do multi­screening e da mídia não-linear. Way afirma que existe uma mudança de memória social para memória pessoal: “Você não vai lembrar com quem você estava quando postou algo na Internet”.

Em contraponto, o teorista da mídia social Nathan Jurgenson, identificou a atitude “dualista digital”, que é a concepção errônea de que as experiências virtuais são menos importantes ou mais desconexas do que as do mundo físico. Jurgenson afirma que as memórias que construímos nas mídias sociais são tão legítimas quanto as mais tradicionais, como cair de bicicleta.

Há vantagens e desvantagens de ter um registro completo (mesmo que editado) do seu passado. Poder acessar quais eram as questões que pairavam na sua cabeça aos 10 anos de idade, quem era seu melhor amigo na quarta série e reviver momentos através de fotos podem ser vantagens. Também existe a questão biológica que nos impede de lembrar com precisão o que aconteceu, principalmente entre os 3 e 7 anos de idade: de acordo com relatório do American Psychology Association, essas memórias são as mais vagas e mais facilmente esquecidas pelos adultos. A comunicação com pessoas a distância que jamais se conheceriam é facilitada com esse avanço tecnológico. Mas quanto pode-­se dizer que se conhece verdadeiramente uma pessoa, quando todas as conversas foram por mensagem de texto?

Hoje temos adolescentes que, aos 12 anos de idade já podem olhar para trás e contemplar o império virtual que construiu com seu vlog, e, ao mesmo tempo, pessoas acima de 80 anos que se transformam em Insta­celebrities utilizando dessas mesmas ferramentas (vide instagram.com/baddiewinkle). Algo que a tecnologia oferece é, sem dúvida, oportunidades democráticas que podem ser aproveitadas por pessoas de diferentes gerações das mais diversas maneiras, com as mais diversas intenções. O perigo não está na tecnologia em si, mas na mente por trás de quem a manipula com propósitos enganosos.

Bom, temos aí diversos pontos para discutir: durante o processo de fusão entre vida pessoal e online, passamos por intensidades diferentes de exposição e por consequência diferentes impactos sócio-comportamentais nas unidades em que estamos (família, trabalho, bairro, bolha). E concordemos, tudo isso dito em 2015 (saudades, Vine <3) e cada um exposto de forma diferente, de fato ocorreu. E dentre os vários questionamentos, queremos saber de você: Como foi esse impacto, daí? As consequências não tão positivas podem ser inicialmente tratadas durante esse exercício que propomos aqui, em conjunto. Fala mesmo, vamos dividir! 

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