Cores programadas: como cinema, design, moda e indústria se articulam na definição de tendências cromáticas

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Como cinema, design, moda e indústria se articulam na definição de tendências cromáticas.

por Ponto Eletrônico e Clarice Garcia Capa Damien Hirst

As rápidas transformações sociais representam um dos fenômenos mais marcantes e desafiadores da atualidade. A complexidade contemporânea derruba a lógica da fórmula única e cede lugar a um emaranhado plural de referenciais de design. A inconstância e a imprevisibilidade atuais impulsionam a busca insistente por soluções compatíveis aos desejos e às necessidades cambiantes de consumidores à espreita do novo.

No mundo atual, o consumo protagoniza dilemas de uma sociedade inconstante, que coloca a novidade como pilar definidor de novos papéis sociais. O culto ao ineditismo, à mudança, ao efêmero e ao futuro deteriorou antigos ideais de permanência e durabilidade do design, deixando-nos com a tarefa de compreender fatos e mudanças socioculturais que possam refletir e antecipar os mais variados desejos, expressos por meio de uma cultura de consumo permeada por trocas materiais e simbólicas, fruto das mais espinhosas interações e construções sociais.

Em um contexto de mudanças incessantes, o design se depara com a fragilidade das relações entre forma e função e essa vulnerabilidade cede lugar às manifestações superficiais do produto, que se oferece como recurso emocional de contemplação e de desejo de consumo atraído pela superfície, pela forma, pelo toque e pela cor.

 Diante desse cenário, a divulgação da cor do ano por empresas como Pantone e WGSN ganhou popularidade, sempre acompanhada avidamente por designers e por consumidores antenados nas mais frescas tendências. A escolha da cor do ano leva em consideração a análise somatória de aspectos socioculturais, estéticos, transculturais e mercadológicos para formular o diagnóstico de futuro cromático com dois anos de antecedência à chegada do produto nas prateleiras.

Nessa equação, o trinômio arquitetura-moda-objeto está intrincado e se retroalimenta quando falamos em cores para o design. Em dezembro de 2017 a Pantone divulgou o Ultra-violet como aposta de cor para 2018. Ocorre que, anteriormente a isso, já nos desfiles de prêt-a-porter primavera/verão 2017, diversas marcas adotaram o violeta que posteriormente seria divulgado como cor do ano. Nesse sentido, poderíamos falar em antecipação ou apenas em validação de uma informação?

Cabe, portanto, um olhar mais detalhista à questão. Partindo de uma análise transversal entre diferentes campos estéticos, percebe-se que a cor eleita pela Pantone tem origem nos têxteis da moda para, posteriormente, encontrar eco no Salão do Móvel de Milão em 2018. A italiana Moroso enfatizou a extravagância cromática sob um viés de inspiração africana em violetas e em vermelhos estridentes. A Cassina também se apropriou da dramaticidade cromática nas poltronas Feltri de Gaetano Pesce. Mas o violeta puro ultrapassou o universo do design e também foi visto de maneira contundente na fotografia e no figurino do filme Blade Runner 2049. E é justamente nesse momento, quando uma cor perpassa diferentes setores produtivos que a tendência ganha força, consagra a previsão e torna-se finalmente moda.

Stand Moroso no Salão do Móvel de Milão 2018
Desfiles da temporada prêt-à-porter primavera/verão 2017
Blade Runner 2049 – dir. Denis Villeneuve

Embora os trabalhos de previsão de tendências possuam sempre um componente de intuição inexorável, o processo de color forecasting não se restringe ao instinto do pesquisador uma vez que é amparado por técnicas qualitativas e quantitativas de pesquisa de mercado. As análises qualitativas dizem respeito ao Zeitgeist de um período e consistem no monitoramento de alterações de comportamento de consumidores early-adopters, de redes sociais, de noticiários e de revistas, observando-se ainda novas expressões estéticas, artísticas e culturais, retirando do cinema, das artes visuais, da música, da tecnologia e da televisão ingredientes fundamentais de pesquisa. Já a pesquisa quantitativa auxilia na confirmação dos resultados extraídos qualitativamente. Segundo a pesquisadora de tendências da WGSN, Monnington Boddy, em entrevista para o site Dezeen, a cor surge no mercado a partir da lógica trickle-down-effect. Ou seja, primeiramente é vista em desfiles ou em salões de design para depois atingir as ruas. Essa ideia diz respeito à própria lógica produtiva industrial, que, na categoria têxtil ainda é dependente da fabricação em larga escala da matéria-prima necessária para abastecer o mercado.

Recentemente, a WGSN divulgou sua aposta para cor do ano de 2020, o Neo-mint. O verde menta já foi alvo em anos anteriores, mas como a moda é cíclica, é natural uma tonalidade volte à baila de tempos em tempos. A WGSN defende que o menta traduz o alinhamento entre tecnologia e natureza, apontando assim para uma questão proeminente do Zeitgeist atual, onde tecnologia e natureza são protagonistas intransigentes. No cruzamento transversal entre linguagens artísticas, o menta ultrapassa as fronteiras do design e surge também na produção audiovisual, impactando o imaginário do expectador de Black Mirror em uma estética crua, fria e asséptica traduzida em figurinos e cenários de um futuro sombrio.

Episódio Nosedive da série Black Mirror. dir – Joe Wright

Recentemente, outro fator passou a interferir nas análises de tendências cromáticas: a vinculação da cor a núcleos geracionais. Divulgado pela Pantone em 2016, o Rosa Quartz passou a ser reconhecido como Millenial Pink. Escolhido juntamente com o azul Serenity, em uma imagem de gradiente cromático que simbolizada fusão e mistura, a dualidade de cores dialogava com um momento de fluidez e de questionamento do sistema binário de gêneros.


Diferentemente do azul, o rosa se mantém no mercado na medida em que passou a ser reconhecido como uma nova possibilidade de neutro. De fácil combinação tanto na moda como no design de interiores – e, portanto, mais duradoura do que tons muito extravagantes – a cor persiste sem sofrer envelhecimento simbólico com a passagem do Greenery em 2017 e do Ultra-violet em 2018. A manutenção do rosa no mercado está diretamente vinculada à sua popularidade nas redes sociais, à sua condição de neutralidade, bem ao sucesso de vendas em anos anteriores.

Imagens: @elledecoration_nl

Além disso, questões relacionadas a valores socioculturais dos Millennials podem ser relevantes nesse resultado. Um report divulgado em 2015 aponta para a nova relação que essa geração estabelece com a vida adulta em um mundo conturbado.  Associações lúdicas expressas por unicórnios, milkshakes e sereias foram bastante populares nos últimos dois anos. Além disso, o Millennial Pink reflete uma geração questionadora de rótulos de gênero e mais inclinada à liberdade sexual e afetiva que as anteriores.

Já em 2017, o site Man Repeller cunhou o termo Gen Z Yellow, declarando que o pink suave deveria dar passagem a uma cor vibrante e alinhada com o comportamento da nova geração. A Geração Z se identifica com valores de subversão das tradicionais hierarquias, de busca por autenticidade e por autoconhecimento, de otimismo e de valorização das falhas e erros como processos de aprendizagem. São jovens que não se definem mais como pertencentes a uma única tribo, mas passeiam por diversos grupos socioculturais simultaneamente. São móveis e fluidos, verdadeiros ciganos culturais. Sobrecarregados com os efeitos das mídias sociais, demonstram altos níveis de ansiedade, ao mesmo tempo em que tentam combatê-la por meio do autoconhecimento. Nesse contexto, o amarelo é uma cor que dialoga com essa geração. Segundo Leatrice Eisenman, diretora de trends da Pantone, o amarelo é uma cor que tem propriedades de estimular o movimento, a expressão pessoal, a energia intelectual e a capacidade de ver as coisas de uma forma mais clara e mais objetiva. É também a cor da felicidade, da originalidade e do otimismo. O amarelo ganhou importância com Beyoncè no clipe Hold Up do álbum Lemonade. No entanto, naquele momento o amarelo era mais queimado, em uma tonalidade açafrão. O amarelo açafrão mais austero de 2016 evoluiu para uma cor mais luminosa e jovem em 2018.

Balenciaga Primavera/verão 2018
Vetements Primavera/verão 2018 menswear

No entanto, ainda que as cores do ano ou a cor geracional sejam importantes na solidificação de uma tendência, o panorama contemporâneo contraria as noções de estabilidade e rigidez e é impregnado pela necessidade de transformações constantes, pela surpresa e pela novidade iminente. Pesquisadores da University Central Florida desenvolveram um tecido capaz de mudar de cor a partir de comandos emitidos por smartphones.

A empresa Master & Dynamic lançou headphones revestidos em couro termocrômico que mudam de cor a partir da sensibilidade do material à emissão de ondas cerebrais do usuário, estimuladas pelo gênero musical que ele estiver escutando. A empresa defende que a cor do produto irá variar de forma específica para cada usuário. No entanto, pode haver semelhanças a partir do gênero musical, onde uma faixa de hip-hop pode produzir uma cor amarela, enquanto o jazz pode aparecer como roxo. 

A seguradora AIG usou a mudança de cor em tecidos tecnológicos para falar de diversidade. Na campanha Diversity is strength o tecido preto ao ser esticado revela as cores do arco-íris, partindo do conceito de que somos diferentes mas estamos unidos por uma força maior.


O estúdio sul-coreano de design Orijeen, por exemplo, trabalhou com superfícies em mobiliários que aparentam mudar de cor a depender do posicionamento que quem vê o objeto.

Orijeen

Outras tantas iniciativas do design têm apontado para a volatilidade da cor e do material com sintoma de inovação tecnológica e como estratégia de captura do interesse do consumidor mutante em produtos igualmente fluidos. A mudança e a versatilidade despertam interesse em uma sociedade que deseja assumir diferentes identidades a um só tempo.

A valorização da multiplicidade também interfere diretamente no papel das pesquisas de tendências. Hoje com padrões cada vez mais plurais, conflitantes entre si e simultaneamente contraditórios, o design busca a flexibilidade e a indagação sobre a ideia de tendência dominante. A desestabilização do existente e da solidez dos processos, do mercado e da própria sociedade, alarga caminhos de possibilidades contraditórias a repensar modos de criação e de produção de bens e de ideias.

O verde de agora, se transformará certamente em um laranja ou um lilás no futuro como artifício manifesto do desejo pela mudança frequente e como valorização da novidade como atributo simbólico corriqueiramente desejável. Saturado por uma multiplicidade estética, o design contemporâneo é capaz de atender a uma sociedade igualmente diversa, encontrando estímulo criativo nos mais antagônicos estilos e nas mais distintas visões de mundo. Nesse contexto de diversidade e considerando comportamentos de consumo mais conscientes, uma tecnologia que muda de cor parece fazer mais sentido para atender desejos e moods diversos sem que seja necessário trocar e descartar objetos com tanta frequência.

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