Diversity Report: a representação de cores, gêneros, corpos e idades nas passarelas brasileiras

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por Mirrorage

Em março deste ano, a indústria internacional da moda se viu finalmente associada ao termo diversidades em noticiário positivo. The Fashion Spot anunciava que, juntas, Nova York, Londres, Paris e Milão haviam feito da Fall 2018 a temporada de desfiles mais racialmente diversa da história. O percentual de 32.5% de participação de modelos não-brancos nos desfiles ecoou em artigos de revistas e plataformas do mundo inteiro. E a temporada internacional acabava com Anok Yai, imigrante do Sudão, como a primeira model of color a abrir um show da Prada em vinte anos. Chegada a vez brasileira de exibir as criações de seus mais importantes designers, foi realizada na última semana a edição n45 da São Paulo Fashion Week. Durante toda a semana, a recém-lançada plataforma de criação Mirrorage pesquisou a participação de modelos não-brancos, transgênero, plus-size e de meia-idade em cada um dos 33 desfiles do evento. A pesquisa teve como objetivo documentar a participação percentual desses grupos e ilustrar a performance de inclusão da SPFW em relação as principais capitais internacionais da moda.

O Diversity Report: SPFW n45 mostra que a semana brasileira também apresenta certa evolução no percentual de participação de modelos considerados não-brancos nos desfiles. Das 1053 aparições de modelos durante o evento, 278 foram contabilizados no grupo de models of color, representando a participação de 26.6%. O percentual é maior em relação às edições n44 (20.5%) e n43 (21%) da SPFW, mas ainda revela uma posição emergente do evento brasileiro no mapa de inclusão nos desfiles das principais grifes do mundo.

Apesar da evolução, a SPFW ainda mostra ter um longo caminho a percorrer em inclusão de diversidades. O evento fica em último lugar se compararmos com as semanas de moda internacionais, atrás de Milão (27.1%), Paris (31.1%), Londres (34.5%) e Nova York, que com o percentual de 37.3% de modelos não-brancos desfilando, se estabelece como a fashion week mais inclusiva do mundo.  Marcas como Gypsy Sport, Chromat, Jeremy Scott e Eckhaus Latta trabalham com castings alternativos e desfilam coleções em altos níveis de diversidade étnica.

Apesar de minoria, modelos não-brancos abriram mais da metade dos shows da SPFW.

Em São Paulo, os desfiles com a maior participação de modelos não-brancos foram das marcas MEMO (92.3%),  Lenny Niemayer (64.5%), João Pimenta Feminino (60.8%), Projeto Ponto Firme (58.3%) e Beira (45.4%), esses dois últimos parte da renovação do evento. Os castings mais inclusivos eram vistos, desde 2016, nos desfiles da LAB Fantasma, empreitada criativa de Emicida e seu irmão, Evandro Fióti. A marca, no entanto, decidiu não participar da última edição do evento.

Os desfiles com a menor participação de modelos não-brancos foram Gloria Coelho com três de 58 modelos (5%), Água de Coco por Liana Tomaz com nove de 46(9%), Amir Slama com seis de 60 modelos (10%), Fernanda Yamamoto com quatro de 34 modelos (11.7%) e Osklen com sete de 42 modelos (16,6%). Fora do line-up oficial do evento nesta edição, Vitorino Campos teve os castings menos inclusivos de duas temporadas passadas. Na n43 foram apenas dois de 24 modelos (8.3%) e na 44 nenhum (0%).

TRANS VISIBILITY

Celebrar a SPFW como gender inclusive seria esforço, porém o grupo tem visto significante avanço em participação no evento. Foram contabilizadas 19 aparições de modelos transgênero durante a semana. Se em diversidade étnica a fashion week brasileira fica em último lugar entre outras capitais, no assunto inclusão de corpos transgênero nos castings São Paulo se mostra mais inclusiva que Milão (7), Londres (10) e Paris (14), ficando atrás apenas de Nova York, que contabilizou 33 aparições de modelos trans na última temporada.

Destaque na edição, a modelo paulista Marcela Thomé foi mandada para as passarelas por sete designers diferentes, aproximando-se de alcançar o ranking de tops da temporada, que contabiliza modelos com mais de dez desfiles. Marcela teve aparições em Água de Coco, Amir Slama, Lenny Niemeyer, Lino Villaventura, Ronaldo Fraga e Juliana Jabour. Em outro destaque, foi contabilizada a aprição de um modelo homem trans no desfile da Amapô. 21 marcas, no entanto, produziram castings sem a inclusão de nenhum modelo transgênero.  

Transgender model Marcela Thomé foi destaque na temporada, com sete desfiles

PLUS SIZE

Modelos com manequim acima de 44 apareceram 12 vezes durante a semana nos desfiles de Água de Coco por Liana Thomaz (1), Modem (1), MEMO (2), Lino Villaventura (1), Amapô (3) e Fernanda Yamamoto, que mandou quatro asiáticas plus-size para a sua passarela. Apesar de tímida, a performance de São Paulo em inclusão de diversidade de corpos nos desfiles é esmagadora em relação às demais capitais internacionais, que, juntas, tiveram apenas apenas 30 aparições de plus-size models durante a Fall 2018; 27 delas em Nova York.

Agua de Coco

MIDDLE-AGE

A São Paulo Fashion Week aparece pela primeira vez a frente de Nova York, Londres, Paris e Milão em participação de modelos com idades avançadas nos desfiles. Homens e mulheres em seus 40s, 50s ou 60s apareceram 19 vezes no evento finalizado na última semana. O número também foi impulsionado pela estilista Fernanda Yamamoto, que trouxe dez modelos de meia-idade em sua apresentação. A top catarinense Ana Claudia Michels, de 36 anos, foi mandada grávida para a passarela de Água de Coco e a apresentadora brasileira Marília Grabriela desfilou dois looks da coleção de Ronaldo Fraga. 

Fernanda Yamamoto

A última edição da São Paulo Fashion Week mostrou que o evento pode estar às vésperas de surpreender com mais diversidade e inclusão, mas ainda sofre com culturas de direção coladas em marcas antigas. Poucas marcas, representantes de uma renovação, concentram a maior parte da inclusão. Em tempos de street casting, non-models casting e genderless fashion design, é utopia acreditar que grandes marcas com comportamento normativo possam oferecer futuro promissor à moda brasileira.

@mirrorage + diversity report spfwn45 teve como inspiração a iniciativa de @moremodelsofcolor, que mapeando a participação de modelos não-brancos nos desfiles das principais capitais da moda no mundo.

agradecimentos @moremodelsofcolor @thefashionspotofficial @alinadorzbacher 

todas as fotos: ag fotosite

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