FutureFest 2018: O que você precisa saber.

Há alguns anos, as ideias que formamos de futuro vêm se tornando nebulosas. De um modo geral, estamos menos otimistas, menos esperançosos e menos certos da máxima de que “tudo vai dar certo”. No entanto, os mesmos obstáculos percebidos por alguns são entendidos como oportunidades para outros. E é nesse contexto que o FutureFest 2018 apresenta a sua quarta edição em Londres.

Dois dias, cinco palcos e 4.000 dos maiores criadores, especialistas e futurologistas de diversos países reunidos naquele que é um dos mais importantes festivais sobre o tema no mundo. Como cientistas culturais, não poderíamos ficar de fora. Lydia Caldana, head da área de Futures da Box1824, cobriu o evento e fez uma curadoria de tudo o que você precisa saber sobre o FutureFest.

O futuro é de todos nós. Por isso, é nossa a responsabilidade de ocupá-lo, compreendê-lo e construí-lo.

foto: Nesta.org

Três grandes categorias dividiram a programação: Alternative Visions (“Visões Alternativas”), Alternative You (“Você, alternativo”) and Making Alternatives (“Criando alternativas”).

A categoria “Visões alternativas” adentrou o debate ao abranger economia, cidades, democracia e poder. “Você, alternativo” discutiu temas como identidade, saúde, conectividade e pertencimento. “Criando alternativas”, por sua vez, mergulhou nos universos de tecnologia, ferramentas e caminhos para conexão e pertencimento futuros.

Questões como a tecnologia, a desigualdade, a inteligência artificial e a nossa responsabilidade de construir um futuro mais equilibrado e inclusivo permearam as principais discussões do FutureFest 2018.

FutureFest 2018: o futuro que queremos depende de nós

foto: Nesta.org

Futuros desiguais: riqueza e saúde

O aprimoramento de genes já é uma realidade em países desenvolvidos. Visões de futuro otimistas – e, por vezes, privilegiadas – abordam avanços científicos como sinais de uma evolução que irá, aos poucos, estratificar-se e se expressar em diferentes contextos econômicos.

No entanto, a desigualdade segue imbatível para a maior parcela do mundo. Como poderemos construir um futuro menos desigual do que tem sido o presente e já foi o passado? A igualdade deve ser compreendida como um valor primário da civilização e a sua busca começará pela equiparação do acesso à educação e à saúde.

Por exemplo: a edição de genes avança como alternativa para um futuro mais saudável, porém problemas básicos como o estresse seguem causando inflamações pelo corpo e no sistema circulatório, aumentando os riscos de câncer.

O ambiente faz toda a diferença para a nossa saúde. Nossos relacionamentos, amizades e trabalho representam imensa importância sobre a nossa qualidade de vida. Precisamos formular iniciativas para deixarmos os corpos das pessoas mais saudáveis e reduzirmos o estresse da população antes de nos voltarmos para os avanços no aprimoramento dos genes.

Em outras palavras, antes de nos tornarmos super humanos, precisamos aprender a ser bons humanos. Ao trilharmos esse caminho, será necessário encarar o fato de que é nossa a responsabilidade de garantir que a evolução identificada por uns possa alcançar quem precisa dela e não apenas quem possa pagar.

O futuro do trabalho e as redes

Você já parou para pensar se o seu trabalho continuará a existir em 2030? Ou se perguntar quais ocupações existirão daqui a alguns anos?

Neste caminho irreversível de automação e inteligência artificial, muitos trabalhos desaparecerão, tornando-se obsoletos, assim como outros surgirão. Quais as habilidades e conhecimentos necessários para se tornar indispensável em um cenário futuro com tantas mudanças inéditas? Os especialistas e pensadores do FutureFest destacam: buscar conhecimentos amplos e a destreza para resolver problemas complexos; manter a mente sempre aberta para a educação e o aprendizado (nossa “atualização de sistema operacional” constante); aptidão para comunicar e ensinar esses avanços às outras pessoas e não ignorar como as coisas estão sempre em processo de transformação.

A democratização do ensino e dos avanços tecnológicos é compreendida como a principal saída na evolução comportamental no trabalho. Mais do que experts em construir e aperfeiçoar ferramentas, saber ensinar outros a usá-las será um grande diferencial.

Portanto, é compreensível que a formação das redes (“networks”) esteja ajudando pessoas a evoluírem e expandirem os seus potenciais. A capacidade de avaliar e perceber o surgimento e o movimento dessas redes é uma das mais importantes competências para o futuro. Quem está se movendo e para onde? Quem está indo embora para não voltar?

As redes podem ser generosas, tolerantes e inclusivas, mas isso não acontece naturalmente. E o porquê é simples: o nosso instinto sempre será o de formar tribos. Ser inclusivo é um esforço para operar diferente e tende a ser, também, uma aptidão valiosa.

Outro importante comportamento para o futuro do trabalho é a comunicação visual aplicada a todas as áreas de conhecimento. Ou seja, somar artes e design criativo às indústrias científicas, tecnológicas, de engenharia e matemática.

O futuro do trabalho trará diversas expressões do cuidado, da interação e do calor humanos. Portanto, trabalhos que usem esses assets tendem a crescer, surgir e se manter relevantes nos anos que virão.

No âmbito da educação, as tendências já despontam na visão de construção de carreira da geração Z. Os jovens já entendem que não há um caminho único de formação (escola/faculdade) de conhecimento. A necessidade já se tornou é e continuará sendo estudar ininterruptamente. Afinal, em um mundo com mudanças que acontecem numa velocidade nunca antes vista, as exigências para nos mantermos atualizados consequentemente crescem de maneira exponencial.

A geopolítica da Inteligencia Artificial

Inteligência Artificial é a habilidade de prever, classificar e distinguir um objeto do outro. Sua definição e mesmo a aplicabilidade parecem limitadas, no entanto, refletem a capacidade, por exemplo, de essa tecnologia tornar-se base para a invenção de carros que se dirijam sozinhos. I.A. é uma infraestrutura. Portanto, se for dominada pelos Estados, eles terão o poder de subvertê-la como quiserem.

São notáveis movimentações semelhantes às da Guerra Fria, uma disputa dividida entre dois comportamentos. Por um lado, investimentos estatais e protecionistas, que resultam no controle sobre o desenvolvimento de I.As pelos governos (como acontece na China e na Rússia). Por outro, avanços fortemente controlados pela indústria privada (como é o caso dos EUA).

O meio do caminho parece a solução: existir investimento governamental sem controle abusivo do Estado, assim como abrir portas para políticas de investimento e aceleração partindo dos dois setores. É preciso haver uma construção dessa nova relação entre Estado e iniciativa privada, tanto para garantir a regulamentação que essa estrutura requer, quanto para controlar possíveis perigos que ela pode gerar.

A mesma discussão permeia a temática do uso de dados que geramos quando conectados (24/7). A regulamentação da política de dados protege os dados pessoais. Mas e quanto aos dados sociais, coletivos, que você e seu vizinho produzem em conjunto – isso é privado ou público? Essa pergunta e seus possíveis desdobramentos trazem a previsão de surgimento de um segundo mercado para lidar com a avaliação e a análise de dados no contexto macro e social.

Os governos podem – e devem – habilitar a regulamentação ao acesso de dados, mas, partindo da premissa de que esses dados pertencem a nós, e não a eles, a responsabilidade precisa ser compartilhada.

As mulheres inventam o futuro

As oito pessoas mais ricas do mundo são homens brancos. Eles controlam setores tech e a maior parcela do dinheiro que circula globalmente, deixando lacunas de responsabilidade, diversidade e inclusão em diversos mercados, mas, principalmente, nas indústrias STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática). A previsão de igualdade de gênero na área é de 2094, já na de inovação, 2136.

É urgente a necessidade de expandir os perfis de pessoas com possibilidades de criar e inovar, e essa necessidade naturalmente passa pela inclusão das mulheres em setores do universo da inovação e da ciência.

O baixo percentual de mulheres presentes na tecnologia é resultado da falta de representatividade em seu processo de formação, do desencorajamento por professores e familiares na hora de escolher um curso, de políticas de contratação que não são igualitárias e também na falta de suporte no ambiente de trabalho.

Problemas com causas diversas exigem uma solução também complexa. É um loop: a dificuldade de as mulheres alcançarem cargos e posições de liderança impede que as próprias mulheres possam alçar umas às outras, melhorando as políticas e criando a diferença para outras adentrarem o setor.

Para quem é a internet?

A lenda urbana do momento é a de que a tecnologia é um campo democrático em que qualquer pessoa com habilidades possui espaço. E, como todas as lendas urbanas, isso não é verdade. Avanço tecnológico não significa, necessariamente, progresso.

Afinal, para ter espaço na tecnologia, é necessário ter acesso a ela. As pessoas que melhor conseguem utilizá-la ao seu favor costumam ser homens ricos, héteros e brancos. Como aconteceu com todas as outras grandes invenções ao longo da história da humanidade, esse grupo privilegiado que criou a tecnologia não atende, em suas soluções, às necessidades e vulnerabilidades que apenas as minorias podem compreender. E as suas soluções partem, em geral, da perda da nossa privacidade.

A tecnologia resulta em ferramentas para consolidar e exercitar o poder. Compreendendo isso, a pergunta natural é: a tecnologia deveria ficar sob responsabilidade do governo em detrimento das empresas? Os especialistas deste painel no festival acreditam que não. Ela deve ficar na mão do povo, a partir da democratização das escolhas e da operação.

O FutureFest 2018 levantou questionamentos e propôs debates em torno do impacto da tecnologia na vida das pessoas, governos e sociedades. Mas, acima de tudo, em torno do que nos une e do que queremos como seres humanos para a construção de um futuro mais inclusivo, esperançoso e – inevitavelmente – melhor. Angela Nagle, uma das participantes do evento, resume e finaliza:

“eu acho que o futuro pertence aos idealistas e que podem imaginar uma sociedade tecnologicamente avançada, mas baseada em temas humanos eternos que não são possíveis de ignorar através da internet ou da tecnologia. Essas necessidades humanas mais profundas durarão mais que tecnologias”.

Mais do que isso: elas nos ajudarão a conquistar esse futuro com visões e caminhos alternativos propostos pelo festival.

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