Inteligência Artificial na Era do Novo Nacionalismo

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No cenário político global, o discurso concentra-se nos nostálgicos “bons e velhos tempos”. E, quando a nostalgia é uma força motivadora, o ceticismo quanto ao futuro aumenta: mas o que isso significa para o futuro da inteligência artificial?

por Becky Willoughby Tradução Clara Fagundes Foto Gaia Presidente

‘At Home in One’s Past’ não é o título de um novo podcast de autoajuda, mas de um relatório publicado recentemente pela DEMOS (a principal organização política apartidária do Reino Unido) que examina a nostalgia como uma força cultural e política em toda a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha. Das principais descobertas presentes no relatório, em última análise, há uma ampla conclusão: as pessoas acreditam que a vida era melhor antes, quando eram mais novas.

Narrativas construídas a partir da nostalgia espalharam-se por campanhas eleitorais nas maiores democracias do mundo nos últimos anos. E, embora o fundamento específico ou a expressão dessa nostalgia sofra alterações (determinados pela história sociocultural de uma nação e o que influencia a sua sociedade), o “sentimento” predominante de que os melhores dias ficaram para trás e o futuro é algo a ser temido, a menos que se tomem medidas drásticas, tornou-se uma fórmula familiar, ganhadora de eleições. A nostalgia é um argumento político simbolicamente ligado a um novo e revigorado nacionalismo.

 

O progresso na área de Inteligência de Máquina ou IA (inteligência artificial) também está sendo moldado por essas narrativas nacionalistas, com o surgimento de duas principais tendências em 2018: o Nacionalismo de IA e a Nacionalização da IA. Os termos descrevem um novo tipo de geopolítica e foram cunhados por Ian Hogarth em seu ensaio de título “AI Nationalism”, publicado em junho de 2018.

Como a Quarta Revolução Industrial desponta e, junto com ela, a conectividade universal entre pessoas, lugares e máquinas, mais do que nunca a cooperação internacional parece ser uma rota de progressão lógica. No entanto, como o cenário político (global) atual evidencia: a lógica nem sempre prevalece. À medida as nações desenvolvidas começaram a reunir suas estratégias individuais de IA em 2018, houve um realinhamento do foco em direção à supremacia soberana. Ou seja, como a IA pode ser desenvolvida e utilizada para conquistar vantagem geopolítica e militar (Nacionalismo da IA) e aproximar Estado e empresas para o alcance de objetivos estratégicos compartilhados em relação à IA (Nacionalização da IA).

Agora, antes de pedir a Alexa ou a Siri para tocar uma playlist para o dia do juízo final prevendo um tempo sem esperança, vamos, primeiro, examinar alguns modelos de boas práticas. A Estônia, por exemplo. Talvez não seja surpreendente que o país que ajudou a desenvolver o Skype tenha também introduzido um governo sem papel e uma votação online nacional. Apenas três entre os impressionantes – e progressivos – exemplos desse país com apenas 1,3 milhão de habitantes que está evoluindo em um ritmo mais rápido do que a maioria em sua abordagem à inteligência de máquina.

De fato, é impressionante como a IA já está sendo integrada à sociedade estoniana, desde robôs para delivery sem motorista, autorizados neste ano pelo parlamento estoniano para mudar o tráfego, até planos de dar personalidade jurídica à inteligência artificial. Mas é a abordagem (arrisco dizer, filosofia) estoniana o seu principal fator diferenciador. Acima de tudo, é uma abordagem que ilustra a possibilidade de cultivar (e proteger) os próprios interesses nacionais sem extremismo ou protecionismo, apesar de a Estônia representar, possivelmente, o melhor caso registrado de adoção de um novo nacionalismo, tendo se tornado independente da Rússia somente em 1991.

A presidente da Estônia (jovem e mulher), Kersti Kaljulaid, também está promovendo uma estratégia de segurança nacional, mas reconhece que a melhor maneira de fazer isso é através da colaboração global e respondendo ao que está acontecendo no país atualmente, como afirma em uma entrevista concedida no início deste ano à Wired: “No nosso caso, também o governo está dentro da esfera digital. Reconhecemos que há necessidade de pensar nos sistemas tributários se as pessoas trabalham em cinco empresas diferentes em cinco países diferentes, ao mesmo tempo. Isso precisa ser resolvido. Não podemos fazer isso sozinhos, a questão precisa ser resolvida globalmente ”.

O que o exemplo estoniano consegue destacar é a antítese do nacionalismo e do progresso em um mundo globalizado. Em outros lugares, há o que poderia ser descrito como “ruídos” positivos nas estratégias de IA de vários países, mas nada tão coeso ou consistente (ou que realmente esteja acontecendo) quanto o sistema estoniano. E, onde as boas ideias fluem, mais questões tendem a surgir, particularmente nas sociedades em que essa ideia de nostalgia está sendo canalizada como um ideal.

No Brasil, há o desenvolvimento da inteligência artificial (‘Rosie‘) que busca eliminar a corrupção no uso das finanças públicas pelos políticos do Congresso (“Operação Serenata de Amor”). Rosie tem sua própria conta no Twitter, onde publica suas descobertas e identifica os suspeitos (ou seja, congressistas) para oferecer ao público a oportunidade de pedir explicações. Sim, a iniciativa é ótima, mas depende totalmente de crowdfunding para sobreviver. E qual será o efeito da eleição de um presidente como Jair Bolsonaro (que durante a sua campanha política expressou nada menos do que uma nostalgia pelos dias de ditadura no país)? Que futuro os projetos de código aberto, como o Serenata, têm no que tende a ser uma governança cada vez mais totalitária?

Da mesma forma, no Reino Unido, a escolha de votar para “sair” da União Europeia no referendo Brexit de 2016 foi em grande parte impulsionada por narrativas nostálgicas, usadas para instaurar sentimentos de medo quanto ao futuro. No relatório DEVOS ‘At Home in One’s Past’, 63% dos entrevistados acreditavam que a vida era melhor quando estavam crescendo.

Um relatório publicado este ano pelo Comitê da Câmara dos Lordes sobre Inteligência Artificial (“IA no Reino Unido: pronta, disposta e capaz?”) concluiu que a melhor maneira de “liderar” na área de inteligência artificial é abordá-la de um ângulo claramente moral, recomendado pelo comitê como uma forma de o Reino Unido “forjar um papel distinto para si mesmo como um pioneiro na IA ética”. Posicionamento que, se avaliado de maneira cínica, poderia ser visto como: “qual é a maneira menos onerosa para avançarmos com essa coisa de IA?”

Em um ato surpreendente de dissonância cognitiva (todas as coisas que o Brexit considerou, particularmente em relação ao sentimento antiimigração), o relatório continua a recomendar que “… start-ups podem ter dificuldades para crescer por conta própria. Nossas recomendações para um fundo de crescimento para PMEs e mudanças no sistema de imigração ajudarão nesse sentido”. Também deve ser notado que “liderar” a partir de um ângulo moral em um cenário internacional já é, por si só, um tipo de abordagem nacionalista. Ou seja, sugere a ideia de ser uma força “civilizadora” (leia-se: colonial).

Ainda não é possível saber como as estratégias de IA avançarão no contexto das agendas nacionalistas pelo mundo ou mesmo por quanto tempo essas narrativas nostálgicas prevalecerão nas sociedades em que foram implantadas. Mas, ao considerar um mecanismo de defesa contra os efeitos desencadeados pelo progresso da nostalgia, talvez Neruda responda melhor:

“Você pode cortar todas as flores, mas não pode impedir que a primavera venha.”

 

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