Música em 8D: A conversa após a euforia

/

por Fabio Lafa Ilustração Denis Freitas

Nas últimas semanas, foi viralizado via WhatsApp um audio acompanhado dos dizeres “Escutem essa musica em anexo com fone de ouvido. É a nova música do A. R. Rahman composta em tecnologia * 8D * * Ouça apenas usando fones de ouvido * É a primeira vez que você vai ouvir uma música com a cabeça e não com os ouvidos. Você vai sentir a música vindo de fora e não dos fones de ouvido. Sinta a realidade, sinta a magia, aproveite o poder da música”. Seguindo-se as instruções de ouvir o arquivo de áudio especificamente utilizando qualquer fone de ouvido começa uma música produzida por Allahrakka Rahman, que tem por marca em seus trabalhos a integração da pop music e EDM (eletronic dance music) com os clássicos da música indiana. A canção Dilbar Dilbar, lançada em 2011 (e aparentemente não existe registro de crédito ao produtos indiano nessa versão) tá de cara, diferente: nos primeiros segundos, percebe-se um isolamento maior do barulho externo e a incrível sensação que música de fato entra e “anda” dentro de cabeça em sentido horizontal e vertical, indo e voltando, como se estivéssemos andando em volta de uma enorme caixa de som, ou se estivéssemos andando em um festival pela plateia. São muitas formas que os sons 8D ou áudio ambisônico, nos impactam – mas o intuito aqui é destrinchar um pouco mais alguns pontos em torno essa experiência.

É novidade?

Na verdade, não. Mesmo sendo a música o grande propulsor de discussões nas redes socais nas últimas semanas, o universo cinematográfico e dos games já o explora há certo tempo. Além disso, a teoria da holofonia criada pelo cientista Hugo Zuccareli nos anos 1980 já nos preparava para isso. Com um conceito similar ao de exposição de hologramas, em que uma imagem é exposta de diversos pontos, criando um ambiente multidimensional, os sons são reproduzidos de diversos pontos, fechando um “círculo” e criando o som multidimensional, um holograma sonoro. Inicialmente, Zuccareli fez o teste com a cabeça de um manequim, implantando pequenos microfones próximo de onde seriam as orelhas e expondo-o a esse campo sonoro multidimensional, e experimentou ruídos simples, como barulhos de tesouras e caixas de fósforo. Os microfones captaram a proveniência dos sons da mesma forma que o sistema auditivo humano.

Qual a reação do corpo humano?

Corpo humano, máquina perfeita, todos sabemos. Nossas orelhas funcionam como receptores que rebatem a proveniência do som para detectar se ele vem de trás ou frente, de cima ou de baixo; e a parte interna do ouvido se comunica para entender se a onda sonora vem mais à direita ou à esquerda, fechando aí o processo que acontece no nosso sentido da audição. Quando Hugo Zuccareli captou esses sons tendo essas premissas em mãos, os microfones que simulavam o ouvido humano captaram diferentes impulsos de diferentes direções: nascia aí o conceito de holofonia, que serviu de base para se pensar em novas formas de percepção de som, incrementando a indústria do entretenimento e se desenvolvendo até hoje.

O grande salto:

Mesmo que já estejamos acostumados e familiarizados com o Surround, através de alguns softwares como o Reaper ou o FL Studio a experiência de captação do áudio pode ser guiada. Os pontos onde as faixas podem se movimentar de um lado para o outro, reverberar, e oscilar o volume podem ser feitas com qualquer música (esteja ela em stereo ou mono) e, por isso encontramos já o vasto acervo de músicas ao efetuarmos qualquer busca, (que sim, a esse ponto você já fez) encontrando inclusive sucessos de Drake, Beyoncé, Imagine Dragons e vários outros artistas que já estamos acostumados.

A sensação é que a cabeça explode! Será que existe algum risco para minha audição?

Embora tenhamos uma experiência completamente diferente ouvindo música em 8D e fazendo-se necessário a utilização dos fones de ouvido para que o som “ande” por dentro da cabeça, não há riscos significativos em ouvir 2, 3 ou 15 faixas. Valendo somente a recomendação do Conselho Federal de Fonoaudiologia e a OMS quanto ao volume e tempo sem pausas que expomos nossos ouvidos a qualquer som ou barulho.

Por fim: Viral ou não?

Entendemos resumidamente aqui o que vem acontecendo, quantidade de conversas e conteúdo gerado e de onde a tecnologia e aplicação do áudio ambisônico começou. Talvez possamos inicialmente fazer uma alusão, dentro do mundo das mídias sociais a uma hashtag ou filtro de fotos que todo mundo comece a utilizar, mas ainda não se tem de fato uma ação da indústria da música para utilizar dos benefícios dessa tecnologia. Por fim e principalmente por ora, podemos tratar como um viral.

E pensando na infinidade de possibilidades, falaremos um pouco mais sobre alguns aspectos não abordados e principalmente possibilidades que o mercado pode aproveitar a partir daqui. Por enquanto, continue a experimentar diferentes estilos musicais e a conversar com seus amigos ou no trabalho sobre. Fechado?

Versão resumida ×

Exibir texto integral

Vá Além

Comente

Mudando de assunto...

Cultura pop e a redenção do gênero

TRANScenGENDER

A cultura de massa que expõe nuances de gênero é o contato mais próximo que muitas pessoas têm com seus universos ideais. O pop, com todas as suas indefinições, exime-se da obrigação de possuir um papel social ativo, mas, intencionalmente ou não, acaba por provocar transformações. Quando uma situação é retratada em uma peça de teatro ou em um filme, visitamos lugares psicológicos sem a necessidade de aquilo ser real. Com o gênero acontece o mesmo.

Transcendendo a idade: juventude empoderadora

Youth Mode

Seriedade e competência não são coisa de adulto. Energia e espontaneidade não são coisa de moleque. Acostume-se: estereótipos de idade não representam o mundo contemporâneo. Na mídia, na moda e na música, adolescentes aparecem não mais como símbolos de inexperiência, mas como ícones personalidade.

As novas economias e suas possibilidades de fluxo

Microeconomias

Para nos libertarmos de um modelo econômico que destrói a natureza e nos afasta de toda e qualquer conexão significativa, temos que nos livrar de suas premissas. A liberdade não reside na escolha de consumo nem de produção, mas na escolha de como fazê-los. O campo social pós-Internet mostra que, ao interagirmos na rede da economia colaborativa, ampliamos as possibilidades de fluxo, não só de informação mas também de recursos.