Pedagogias culturais e novos modelos administrativos

Desde 2011, quando comecei a pesquisar sobre a experiência vivida de mulheres trans e travestis no Brasil, como já dito por mim diversas vezes, encontrei indicadores que me introduziam a nossa condição de vida precarizada na nação brasileira. Os resultados no Google eram sobre assassinatos, prostituição e humilhação pública de homens famosos que se relacionaram conosco. Posso afirmar sem medo que, naquele momento, as pedagogias culturais não se interessavam em visibilizar nossa comunidade em uma narrativa humanizada e cidadã.

Frente a isso, quando assisto a primeira entrevista da modelo Lea T para o Fantástico, expondo quais são as mazelas que enfrentamos e pontuando a necessidade de outros se responsabilizarem e se posicionarem em relação a desigualdade que vivenciamos, dei por mim que naquela entrevista existia um deslocamento necessário: tínhamos passado de só ser visibilizadas a partir de um arquétipo construído pelo outro, para nos tornarmos sujeitas/os da nossa própria história.

Quando Grada Kilomba nos relembra da máscara do silenciamento, uma arma colonial, no primeiro capítulo “Mask” de seu livro “Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism”, a autora analisa como sujeitos negros foram silenciados historicamente, e como isso fez com que nossas narrativas fossem construídas a partir de marcadores que a branquitude rejeita para si. Ou seja, a construção da identidade do sujeito negro foi permeada pelas atribuições que a branquitude não deseja ser veiculada.

Articulando com o pensamento de Kilomba e resgatando a forma como as pedagogias culturais construíram o que é ser travesti, também afirmo como muito do que é visto, na nossa nação, enquanto atribuições/características do cidadão brasileiro, foram introjetadas de maneira antagonista em travestis. Travestis são as que não possuem cidadania. Não existimos no seio social, não trabalhamos formalmente, não possuímos famílias, não somos inteligíveis para relacionamentos públicos, não temos formação, não somos gente. Dentro da sociedade brasileira, nós ocupamos uma posição de abjeção. E ainda que tenham construído essa abjeção como fato dado, como parte intrínseca da nossa identidade, o caminho que agora estamos percorrendo, é o de desnaturalizar a desumanização que fomos submetidas.

Não estamos em postos de trabalho ou em universidades porque, como muitos acreditam, não desejamos ou não vemos perspectivas em levar nossas vidas por esse caminho. O que, na verdade, se enfrenta, são redes de poder, trabalhando de maneira conjunta, para edificar nossa posição dentro da sociedade como uma não-posição, um não-lugar. E isso se relaciona com o fato de que nossa entrada nesses espaços, concomitantemente, acarretaria em novas formas de se entender a sociedade e a forma como as condições são distribuídas de maneira desiguais, arbitrárias e violentas.

Afirmo isso, porque quando entro na Universidade Federal de Pernambuco e exponho que não existia política de nome social e banheiro por identidade de gênero, recebo como feedback da Reitoria, um comunicado que afirmava a importância da UFPE ouvir, dialogar e construir com os novos corpos que agora estão adentrando a academia. Não deveria ser eu, travesti, a me adequar as condições da UFPE, mas sim a instituição se revisitar de maneira que possa receber meu corpo, minha história e minhas demandas, se colocando numa posição de escuta e assistência.

Quando, então, penso o momento atual, tendo sido a primeira garota propaganda trans a fazer campanha para uma marca de cosméticos no Brasil, afirmo que nossos passos agora vão de encontro a repensar a maneira como visibilizamos certos grupos e quais são os caminhos concretos na construção de novas narrativas para esses. Porém, esse trabalho não pode ser visto em uma ótica de consumo/ampliação de público.

Uma das maiores problemáticas atuais quando discutindo processos de representatividade, é de que maneira estão sendo construídos esses novos modelos representativos. Se, de fato, tem existido, por parte dessas pedagogias culturais, um interesse ético de repensar que certos grupos foram sistematicamente excluídos do direito de se representar. Para alguns, estamos sendo usados/as de maneira estratégica, uma vez que a luta por representação se tornou mais uma faceta do capitalismo.

É impossível discordar que o capitalismo consegue se adaptar e aparelhar em discussões e movimentações contemporâneas que se iniciam a partir de um viés político-ético, mas minha maior contribuição quanto a pensar maneiras de combater isso, é evidenciar que nossos corpos não devem ser vistos enquanto objetos, ainda que seja nossa história sendo contada. Pessoas negras e pessoas trans/travestis precisam estar dentro da construção dessas narrativas, campanhas, processos criativos, não só como colaboradores e consultores. Não obstante, repensar a maneira como construo pedagogias culturais que violentam certos grupos não deve ser visto enquanto um grande ato assistencialista, no sentido de favor ou “falsa generosidade”, como bem coloca Paulo Freire.

Para além de (re)construirmos essas narrativas, nossos trabalhos também precisam ser valorizados como contundentes, ainda que não sejam sobre o que nos atravessa. Enquanto travesti e estudante de Pedagogia, afirmo exaustivamente que também sei discutir sobre gestão democrática da educação, sobre educação não-formal/informal, sobre teoria curricular, sobre processos socio-afetivos do desenvolvimento e outras subáreas da educação. Minha formação não se restringe ao que me atravessa enquanto vivência. E construir narrativas é também entender que precisamos estar presentes em redes de poder, acrescentando, inclusive, em aspectos que não necessariamente nos toque intimamente. Afinal, a pluralidade só existe na horizontalidade e ainda que projetos sejam construídos por ‘n’ pessoas, se essas fazem parte unanimamente de grupos específicos, não existe pluralidade, mas sim monopolização das relações de poder e das possibilidades de decisão ou construção conjunta.

Enquanto quem trabalha por diversas áreas, já fui convidada para participar de filmes/séries, mas ainda que não aceite o convite, passo a ideia de que não se deve construir narrativas sobre pessoas trans, ainda que pretendendo nos humanizar, sem que estejamos ativamente naquele processo, afinal, como se constrói um roteiro sobre pessoas trans ou travestis, quando roteiristas, muitas vezes, nunca conviveram ou, se quer, conhecem nossa realidade? Frente a isso, muitos deles procuram pesquisar sobre nossa vivência, mas, como já dito, as pedagogias culturais em torno das nossas identidades não nos representam e isso culmina em um processo representativo falido, uma vez que algo foi construído, mas foi sobre nós e não conosco.

Logo, repensar de maneira profunda o processo de representação, deve ir além de qual rosto estampa uma propaganda, mas sim quais são as mãos que constroem projetos. Traçar novas pedagogias culturais deve estar diretamente ligado com possibilitar que vozes outrora silenciadas, passem a contribuir ativamente nas mesas que decidem como certos grupos serão representados.

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