Por que falar de dinheiro para mulheres?

Mulheres puderam ter CPF a partir de 1962. Isso são 56 anos atrás. A mãe da Aninha tem 57 anos e a mãe da Vic tem 53. Por que isso importa? Porque elas são filhas – e possivelmente você, leitor(a), também – da primeira geração de mulheres brasileiras com o direito de ter uma conta bancária em seus nomes. Direito esse que, na década de sessenta, passou a estar no papel mas ainda não fazia parte de uma mudança cultural de fato – Ou seja, levamos mais alguns anos (até décadas) para realmente termos algum controle sobre nosso dinheiro.

Além disso, não basta ter uma conta bancária se você não ganha seu próprio dinheiro, não é mesmo? Ter o direito por si só não muda nada, falar de autonomia é ter uma conta no seu nome e ter seu próprio dinheiro lá. Portanto, sabemos que os desafios para essa autonomia são diversos e são culturais – levam gerações para serem superados. Em outras palavras, estes ainda são desafios nos dias de hoje.

Isso importa porque se as gerações das nossas mães não foram incentivadas a ganhar dinheiro e nem ensinadas a cuidar do seu próprio dinheiro, as mulheres jovens de hoje estão, portanto, tendo que quebrar barreiras, estão desbravando um território que não é familiar, estão aprendendo agora o que homens aprendem de geração em geração há séculos. Essa nova geração de Youtubers de finanças, de autoras, de palestrantes, tudo isso é um fenômeno social que está ajudando as novas gerações de mulheres a se apropriarem deste assunto tão essencial para a nossa independência: a autonomia financeira. A cada nova geração de mulheres é provável que esse assunto seja um pouco mais familiar, mas com certeza, para a maior parte das mulheres em idade ativa hoje no Brasil, falar sobre dinheiro não é normal. E por quê?

Porque as expectativas ensinadas para meninas desde pequenas, na maioria dos casos (sabemos que existem exceções!), são diferentes das ensinadas aos meninos (e, aos poucos, estão mudando!). A imagem da boa moça não combina com ser ambiciosa, com querer dinheiro, com negociar, com pedir mais, com defender o seu valor no mercado de trabalho, com querer se garantir e se proteger sozinha. E a imagem da boa moça é muito perigosa, pois ela tem a capacidade de destruir nossa autonomia, nossa liberdade. E por isso falar de dinheiro com mulheres é diferente de falar de dinheiro com homens.

Mais do que isso, hoje falamos muito de empoderamento, certo? De poder ser e fazer o que quisermos. Muitas vezes tratamos desses pontos na escolha de uma profissão, na roupa que vestimos, no formato dos nossos corpos, com quantas pessoas e com quem queremos sair, no ir e vir, na quantidade de maquiagem, enfim, em muitas esferas. No entanto, muitas vezes deixamos de lado um ponto muito importante, o quanto ser independente financeiramente é um passo anterior a qualquer tipo de liberdade e empoderamento. Fazer o que a gente quer passa inevitavelmente por dinheiro.

Se não entendemos como o dinheiro está presente na maior parte das nossas decisões do dia a dia, se simplesmente delegamos essas escolhas para outra pessoa, não quebramos ciclos viciosos ou relacionamentos abusivos, ficamos na mesma situação porque dependemos de outra pessoa para termos dinheiro para comer, ter um teto onde morar, comprar coisas, etc. E podemos ir além: mesmo que o dinheiro seja ganho por nós mesmas, se deixarmos que outra pessoa cuide dele, nossas ações serão sempre vigiadas, seja em uma relação entre pai/filha, marido/mulher, irmão/irmã, namoradx, e até mesmo no trabalho.

Como se já não fossem motivos suficientes, isso tudo importa porque a maioria dos casos de abuso sexual dentro dos lares no nosso país são acompanhados de abuso financeiro, de dependência financeira por parte da mulher.

Precisamos ganhar nosso dinheiro, precisamos aprender a cuidar do nosso dinheiro, precisamos ter autonomia financeira para podermos ser, de fato, livres. E estamos aqui para contribuir com esse movimento, porque acreditamos no poder das histórias de todas nós e no poder de uma comunidade de mulheres falando sobre esses temas. Queremos construir ambientes e momentos que possibilitem essas trocas e conversas. É por isso que hoje o foco do Invista como uma garota é nas mulheres. Vamos juntas!

Versão resumida ×

Exibir texto integral

Comente

Mudando de assunto...

Cinema como perpetuação da mentalidade consumista

Lowsumerism

Até onde vão as similaridades de um filme com uma peça de fast fashion? O excesso de títulos lançados e a rapidez do rodízio nas salas empurra os espectadores a não terem tempo suficiente sequer para digerir os significados da história, pois o próximo imperdível já entra em cartaz. Assistir, ou não, a um filme é um ato profundamente conectado com as emergências do mundo atual.

Moda com propósito: valores humanos conectam marca e público

Unfashion

Roupas e outros bens de consumo deixarão de ser meros objetos e irão se transformar em sujeitos para construir com as pessoas uma relação mais emocional. Mais do que nunca, a moda deverá olhar para as pessoas, hoje menos rotuláveis e previsíveis. As pulsões individuais falam mais alto do que qualquer lifestyle padronizado.

O SXSW acabou, mas não podemos perder essas bandas de vista

Music Trends

Uma semana com palcos, bares e calçadas respirando música durante o SXSW. Oficialmente ou não na programação oficial, a cidade de Austin que é a meca das boas idéias nos States recebeu instrumentistas, cantores e DJs de todo o planeta e, talvez tenha sido o ano em que a música brasileira teve mais representantes –…