Vanguarda musical do Pará: história e contemporaneidade

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Conheça a história dos ritmos paraenses e os nomes que se destacam na cena contemporânea local

por Arthur Porto capa Mestre Vieira — Foto: Luciana Medeiros

Belém, que durante o ciclo da borracha foi uma das cidades mais desenvolvidas do país, é uma das maiores metrópoles da região norte, dotada de cultura extremamente rica e característica. Muito por sua herança cultural, pelo calor tropical durante o ano todo, mas também pelos aproximados 3 mil quilômetros que separam a capital do Pará do epicentro cultural do eixo Rio-São Paulo.

Há muito se percebe que limitação e isolamento podem ser benéficos para a produção musical. A linha entre exclusão e exclusividade, no ponto de vista musical, é tênue. É comum que criadores busquem inspiração em culturas menos difundidas mundo afora — projetos como o Awesome Tapes From Africa são baseados nesse conceito.

Awesome Tapes From Africa

É notável nos últimos anos um interesse maior do público nacional pela cultura do norte do país, principalmente sobre a gastronomia e a música do Pará. Nas capitais do sudeste são comuns baladas com lambada, tecnobrega e outros ritmos da região amazônica, como o carimbó. É interessante conhecer a história da música desta região, para que ela seja apreciada da melhor e mais respeitosa forma possível — como ela merece.

Contexto histórico

O carimbó é uma das principais matrizes rítmicas da música popular do Pará. Foi influenciado pelas culturas indígena, africana e também pela música portuguesa do período colonial. Talvez seja na dança onde se evidencie a maior pluralidade cultural do carimbó: da tradição indígena, a dança em passos curtos e em roda; da tradição africana, o rebolado, sensualidade e percussão rápida; dos portugueses, o modo de dançar girando em casais e instrumentos de sopro.

No “Código de Posturas de Belém”, documento de 1880, é possível ver que a prefeitura proibia a prática do carimbó e demais manifestações culturais dos nativos e negros. Somente no ano de 2014 foi considerado patrimônio imaterial brasileiro. Ou seja, a cultura popular do Pará enfrenta resistências conservadoras até mesmo quando o assunto é uma expressão popular tão enraizada na comunidade local.



A mesma resistência aconteceu com os ritmos subsequentes ao carimbó no século XX, pejorativamente taxados de “cafonas” e “bregas”.

A música “brega” se difundia Brasil adentro com nomes como Reginaldo Rossi, Amado Batista e Odair José. Estes estilos acabaram segregados, destinados, em grande parte, ao público das periferias.

Toda evolução e mudança de percepção de valor atual dessa cultura popular se dá ao trabalho incessante de resistência, articulação e autenticidade dos agentes culturais, artistas e demais pessoas envolvidas em sua propagação e memória. Muito do que está tocando nas baladas hoje fez sucesso na periferia de Belém no ínicio dos anos 2000.

As paródias de hits dos anos 80 da banda Fruto Sensual são hoje considerados clássicos do Brega Pop Paraense.


A geografia do estado exerceu papel fundamental na produção de seus ritmos populares. No final dos anos 1970 e durante os anos 1980 era comum que os programas de rádios populares de Belém conseguissem captar sinais de países como Suriname, Guianas e Bolívia. Cumbia, merengue, salsa, zouk: tudo isso foi consumido em Belém sob o termo guarda-chuva lambada em uma tentativa de simplificação por meio das rádios.

A lambada teve maior repercussão, numa primeira fase, até o nordeste do Brasil. O grande sucesso, no entanto, só aconteceu após a entrada de empresários franceses no negócio. Com uma gigantesca estrutura de marketing e músicos populares experientes, o grupo franco-brasileiro Kaoma lançou, em 1989, com êxito, a lambada na Europa e outros continentes. A música “Chorando Se Foi” tornou-se o carro chefe da novidade pelo mundo. Em pouco tempo, já na década de 1990, a lambada estava presente em programas de auditório, trilhas e novelas brasileiras. Foi até tema de filme de Hollywood: “Lambada, A Dança Proibida”.

No decorrer dos anos 1990 a lambada deu lugar a outros ritmos mais vendáveis no Brasil. Nomes como Tonny Brasil, Kim Marques, Adilson Ribeiro, Alberto Moreno, Edílson Moreno, Wanderley Andrade e Nelsinho Rodrigues tornaram-se figuras conhecidas nas rádios FM paraenses. Surgia durante essa época o brega pop. O nome, criação dos radialistas Jorge Reis, Rosenildo Franco e Marquinho Pinheiro, foi uma maneira de diferenciar o brega surgido no Pará, que tinha peculiaridades em relação ao brega do resto do Brasil.

Banda Calypso

No início dos anos 2000, com o brega pop já completamente consolidado na capital paraense, a Banda Calypso torna-se o maior expoente do brega pop paraense no país. A banda foi muitas vezes confundida com o próprio ritmo em si, também chamado de “Brega Calypso”.

O mercado do brega pop paraense gira em torno de uma estrutura muito particular de mercado que se estendeu para os dias de hoje: as festas de aparelhagem. Eventos que contam com estruturas colossais em que DJs recebem discos dos produtores e tocam as novas canções. Quando uma música ou um artista se torna um sucesso em uma festa de aparelhagem, a divulgação no mercado aumenta através da reprodução não-autorizada das músicas, em sua maioria por camelôs. No entanto, os artistas entendem a importância do mercado informal para o alcance do sucesso e muitas vezes entregam as matrizes de seus projetos aos vendedores para reprodução e divulgação.

Eventualmente com a popularização da banda larga de internet e também da pirataria de softwares de produção musical, em especial o Fruity Loops, o brega pop se modernizou e se transformou no tecnobrega, posteriormente conhecido como tecnomelody.

Os remixes são muitos comuns na cultura do tecnobrega, porém com uma peculiaridade: as letras muitas vezes são trocadas por paródias em português nos mais diversos temas, aproximando mais os temas das canções da realidade do povo paraense. Foi considerado uma ruptura no mercado fonográfico paraense da época e curiosamente ganhou o título de patrimônio imaterial artístico e cultural do Pará em 2013, um ano antes do Carimbó. A banda considerada pioneira do estilo é a Banda Tecno Show, na época liderada por Gaby Amarantos.

Em 2012, Gaby lança seu primeiro disco solo. A faixa “Ex Mai Love” foi tema de abertura de novela e fez com que o tecnomelody fosse ouvido pelo resto do país. Depois disso foi só ladeira acima.

Para conhecer sobre este cenário, apresentamos uma lista generosa com os nomes mais interessantes da atualidade na música paraense:

Lucas Estrela

Jovem multi instrumentista e produtor musical que tem a guitarra como principal instrumento. Lançou em agosto de 2017 o álbum Farol, segundo de sua carreira. Tanto em Farol quanto em seu primeiro trabalho, Sal ou Moscou, Lucas mescla a harmonia da guitarrada com loops e batidas eletrônicas de tecnomelody aliadas à percussão característica do carimbó das ilhas do norte. O resultado é um som tropical instrumental de vanguarda.

Link Spotify.

Pio Lobato

Guitarrista e produtor, é um dos principais responsáveis pelo reconhecimento da guitarrada no cenário nacional. Iniciou seu trabalho como músico nos anos 1990 e construiu um trabalho respeitado de experimentação pop e releitura da música popular brasileira. Em 2003 criou e produziu grupo “Mestres da Guitarrada” que estabeleceu uma nova visão do gênero no país. Em 2015 lançou seu trabalho mais recente e pessoal, intitulado “Pio Lobato”.

Link Spotify.

Combo Cordeiro

Combo Cordeiro: Manoel e Felipe, pai e filho (Jose de Holanda/Divulgação)

Combo Cordeiro dá nome ao projeto instrumental dos grandes artistas Manoel e Felipe Cordeiro. Manoel, pai de Felipe, é um experiente musicista do Norte. Felipe, um dos principais expoentes da nova geração da música pop do Pará. Com beats eletrônicos e guitarras em primeiro plano, a dupla explora levadas dançantes — como tecnobrega, lambada, carimbó, cumbia e guitarrada — com versatilidade.

Link Spotify.

Felipe Cordeiro

Felipe entrou na Escola de Música da Universidade Federal do Pará aos onze anos e não parou mais. É um artista conhecido nacionalmente que mistura diversas sonoridades e referências com um humor, por vezes ácido, além de poéticas, em torno da música popular. A parceria de pai e filho do Combo Cordeiro se estende também a carreira solo de Felipe — Manuel coproduz e toca guitarra e sintetizadores na banda.

Gang do Eletro

Grupo musical de eletromelody, formado em novembro de 2008 com o intuito de tocar em festas de aparelhagem. Seu primeiro álbum foi apontado pelo jornal O Globo como um dos 10 mais importantes do ano. Em 2013 realizaram uma turnê pela Europa. O clipe “Velocidade do Eletro” acontece em pleno bairro do Comércio, em Belém, região que concentra boa parte do comércio informal da cidade. Isso evidencia a relação de cumplicidade que o artista de tecnomelody tem com o vendedor ambulante.

Dona Onete

Ionete Gama foi Secretária de Cultura e Professora de História e Estudos Paraenses, organizou grupos de danças folclóricas e agremiações carnavalescas. Mas só depois de aposentada, aos 62 anos, foi convidada por um grupo de Carimbó para ser vocalista, depois de ser ouvida a cantar sozinha em casa. Desde então seu sucesso foi estrondoso. Produtoras estrangeiras, turnês internacionais e capa da revista Songlines fazem parte de sua história recente.

Dj Zek Picoteiro

Pesquisador, DJ residente e produtor da festa Lambateria, que celebra ritmos locais e acontece toda quinta-feira na capital, e anualmente em formato de festival. Seu set é rico em referências populares e gemas da músicas paraense.

Link Soundcloud.

Felix Robatto

Guitarrista, percussionista e pesquisador da música latino-amazônica que vem se destacando como produtor musical dentro e fora do país. Seu trabalho mostra uma música contemporânea paraense construída a partir de elementos da guitarrada, surf music, música latina e pop. Idealizou a Lambateria, produziu o disco Treme, de Gaby Amarantos, criou o grupo La Pupuña e o inusitado projeto “The Charque Side of the Moon”, releitura com gêneros amazônicos do clássico The Dark Side of the Moon.

Mestres da Guitarrada

Criado em 2003, o projeto reúne três dos maiores nomes da guitarrada: Mestre Vieira (falecido em 2018), Mestre Curica e Mestre Aldo Sena. A história do trio se confunde com a própria história da música no Pará: Curica é um dos expoentes do carimbó paraense e um dos fundadores do Grupo Uirapuru; Vieira é o criador da guitarrada homônima; Aldo Sena criou a sua interpretação da guitarrada misturando influências do grupo Os Incríveis e do rock clássico.

Orquestra Pau e Cordista de Carimbó

Formada em 2016, a Orquestra segue um formato de bloco popular percussivo, contando com naipe de cordas e sopros como sax, flauta, clarinete e banjo. O projeto propõe um passeio por toda a diversidade instrumental do Carimbó, assim com a vasta obra lítero-musical dos antigos e contemporâneos mestres e mestras, dialogando com gêneros e artistas do mundo. Em 2017 lançaram o EP digital “Carimbó Avuador”.

Jaloo

Desde 2010 Jaloo exercita seu lado musical com uma série de versões únicas para hits, sejam eles covers, remixes ou mashups. Em 2015 lançou seu elogiadíssimo primeiro álbum autoral, #1. A música de Jaloo é uma mistura de pop atual, música eletrônica de vanguarda e tecnomelody.

Link Spotify.

Pelé do Manifesto e Everton MC

“Rima Com Farinha”, dos MC’s Pelé do Manifesto e Everton MC, é uma mistura de hip hop estilo boom bap com Carimbó e cultura de Belém do Pará. As músicas de ambos os MCs comumente exaltam a cultura paraense das mais diversas manifestações, partindo da música folclórica até o futebol da Região Norte.

Bando Mastodontes

Um espetáculo cênico musical. O bando é uma big band, um bloco festivo, uma orquestra percussiva popular. Misturando tambores, instrumentos de corda, coros e muitas vozes, a big band propõe um som pulsante e melódico quente, pra dançar e liberar energias. Vão da psicodelia à sensualidade, e utilizam elementos musicais do país inteiro, incluindo, é claro, o Pará.

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Vá Além

Brega S/A

Documentário de Vladimir Cunha e Gustavo Godinho.

Good Copy, Bad Copy

Documentário de Andreas Johnsen, Ralf Christensen e Henrik Moltke.

MusicaParaense.org


Um dos mais completos acervos de bandas de Belém do Pará, projeto do radialista e pesquisador Edvaldo Souza (Blue). Começou como blog e hoje concentra suas atividades no Spotify.


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