Veganismo, raça e classe

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Não é mais um lembrete para comer todos os legumes do prato.

por Fabio Lafa

Em torno da discussão no veganismo, mesmo com todo o impacto ambiental e na qualidade de vida das pessoas que já estamos vendo, ainda resta um grande viés, um grande paradigma: a mensagem é amplamente espalhada sim, mas ainda não chega em efetivo em quem a utilizaria muito bem. Visto o quadro de um recente levantamento do Ministério da Saúde, um quinto da população brasileira está acima do peso e 7,7%, algo em torno de 15 milhões de pessoas, é portador de algum tipo de diabetes.

Dentre as mais variadas causas, está a já conhecida má qualidade do alimento consumido. E, segundo vários estudos, deveríamos comer muito menos ou nenhuma proteína animal – ok, perfeito, problema resolvido. Essa informação, por mais benéfica que possa ser aos às populações carentes daqui e de fora, chega em todas as camadas da população como deveria, na sua oferta e exposição?

Façamos um exercício. Independente da região que você more, pense em um supermercado. Indo mais além, em dois moldes: um em bairro rico, outro na periferia. Em qual deles a oferta de hortaliças, verduras e legumes e opções de proteínas não animas é bem exposta e ofertada? (se tiver dúvida em desenhar mentalmente a composição dessas lojas uma breve busca no Google resolve.)

O legume que crescia no quintal de nossos avós está hoje ainda com terra na casca, na prateleira rústica de algum mercado do bairro cool da sua cidade. Aquele mesmo, da sua lembrança de infância. E, a quitanda no bairro onde você cresceu, junto dos dois terrenos que a cercavam, deram espaço para alguma bandeira global de fast food. Situação crônica, que todos assistimos com um sorriso amarelo estampado na face.

O consumo de frutas, legumes, hortaliças e mesmo a própria prática do veganismo se torna no começo dessa década que estamos nos despedindo, algo bem distante da vida do brasileiro assalariado que passa 12 meses do ano fazendo cálculos, assim que levanta da cama – “comida vegana é coisa de rico”.

E ao pensar que vemos uma série de alternativas para que o ato e o processo de nos alimentar sofre uma série de mudanças, tendências, boas e más práticas apontadas e a cadeira dos vilões da alimentação nunca se aquece. Não podemos deixar de pensar: as medidas parecem ser super funcionais, mas quanto custa?

Será que ao pensarmos em impactos diretos e indiretos no mercado de fornecimento de alimentos e, consequentemente em ações governamentais voltadas a saúde e bem estar da população em âmbito global, o recorte de classe é efetivamente usado como validador d’ “o que comer”, visto que alterações no consumo precisam caber no bolso da maioria da população?

SIM. E nada melhor que senso de pertencimento! Existem algumas pessoas que pesquisam e buscam soluções para aproximar o balanceamento da alimentação da população e mais além, desmistificar a essencialidade de proteína animal e que isso não tem a ver com gastar mais, e que a imagem do “ser vegano” vendida não precisa ser de nicho. Uma dessas pessoas é a estudante de direito paulistana Luciene Santos: mulher negra, lésbica, periférica, que mantém uma pesquisa lindíssima sobre a acessibilidade da alimentação vegana, fortificando que é necessário e principalmente possível revolucionar a forma que a população preta e pobre no Brasil se alimenta.

 

PE: Como se iniciou seu interesse e pesquisa sobre tornar o veganismo acessível, principalmente à população preta e pobre?

L: Geralmente, as pessoas têm a ideia de que veganismo é apenas para brancos e ricos e eu também pensava assim. Quando decidi que não queria mais colaborar com as indústrias que exploram animais humanos e não humanos tive que trabalhar esta ideia em mim, tive que encontrar um caminho para aplicar meus novos princípios ao meu estilo de vida que é o de uma pessoa preta e da periferia. Nos meses seguintes fui aprendendo a ser uma vegana pobre, então decidi que aquelas receitas mereciam ser compartilhadas com pessoas como eu, pretas e pobres, que muitas vezes não sabem as possibilidades de um alimento, não sabem que a couve flor não precisa ser usada apenas em saladas, que ela pode virar uma maionese, por exemplo, ou que o amendoim pode virar queijo ou pudim.

PE: Mesmo sendo de senso comum a importância de uma alimentação balanceada, na sua opinião quais são os principais pontos que causam estatísticas de obesidade infantil nas populações pobres no mundo, como por exemplo Brasil, Nigéria e África do Sul?

L: Nos alimentar mal é uma forma de nos controlar. A alimentação é uma parte muito importante da vida dos indivíduos, sem uma alimentação adequada até nossas possibilidades de ascensão ficam limitadas. Em agosto deste ano o Movimento Afro Vegano postou no Instagram um vídeo de uma palestra do Dr. Milton Mills em que ele fala sobre Laticínios e Racismo, que 75% de todos os afro-americanos são intolerantes à lactose. O Dr. Milton Mills é diretor do Comitê de Médicos Preventivos – PCRM, e coautor do relatório do PCRM sobre o viés racial e étnico nas Diretrizes Alimentares dos EUA. Além disso, o documentário The Invisible Vegan informa que as principais causas de morte na comunidade afroamericana são doenças cardíacas, câncer e acidentes vasculares cerebrais. Não sou da área da saúde, mas acredito que esses dados estão relacionados também com a questão da obesidade infantil, nós nos alimentamos muito mal, alimentamos nossas crianças muito mal, porque nos foi ensinado que comer mal é o correto para pessoas como nós, ainda que saibamos que a alimentação balanceada é importante, isso é muito superficial, nada é nos ensinado no sentido de questionar a alimentação e isso não é atoa.

PE: E se quiser citar iniciativas como a sua, de pessoas e coletivos para combater essa má qualidade de alimentação, principalmente se baseadas no não consumo de proteína animal (pode ser Brasil ou mundo e, se associadas ao esporte melhor ainda)

Tem bastante gente, no instagram eu sigo @vegana.semgrana, @veganaemmovimento, @veganoperiferico, @veganodequebrada, @afro.sou, @pretaveg, @veganaabessa, @adolescentevegana, @perifavegana, @favela_organica, @pobresveganas.

Sobre o mencionado Dr Milton Mills, formado pela Universidade de Stanford, encontramos um outro registro, através de podcast, sobre outro dos grandes vilões dos últimos 20 anos: o carboidrato.

 

Além de acompanharmos algumas pesquisas bem interessantes sobre a ressignificação do carboidrato, entendendo que ele sim é importante para toda atividade e metabólica e manutenção da nossa estrutura muscular – como muito bem mostrado no doc Dieta dos Gladiadores – e a própria atividade cerebral, também fica muito latente o que teimamos em “não-saber”: o problema gira no carboidrato processado. Aquele lá, o gostoso. O bolo que em um passe de mágica aparece no escritório no meio da tarde. Retomaremos essa pauta ano que vem!

Vale a pena encontrarmos medidas para que toda sociedade e indústria, serviços, intermediários no mercado de alimentação e as iniciativas governamentais se alinhem em duas questões:

 

  • A cadeia da revolução na alimentação, idéia essa tão brilhante, vai se atentar a  absolutamente todas as camadas da sociedade, ofertando opções de todas as faixas de preço na ponta?

 

  • O varejo de alimentos – e aí especificamente, as redes de supermercados, conveniências, fast food – têm um plano para que essas opções sejam ofertadas de maneira adequeada em seus corredores e cardápios e que a disponibilidade esteja nas grandes cidades e seus entornos?

 

Nos foi ensinado que comer mal é o correto para pessoas como nós, ainda que saibamos que a alimentação balanceada é importante

Luciene Silva

Entedemos ser um caminho mais prático contra todos os riscos elencados no exagero e exploração no consumo de carne que temos no mundo e, bem melhor caminharmos para esse lugar, antes de questionar quantos steaks congelados uma mãe solteira coloca no carrinho de supermercado.

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