Desaceleração, a não-culpa e os 10 mundos de felicidade

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Felicidade por ser uma simples reunião de bons momentos? Sim. Pode ser uma percepção mais aprofundada das nossas sensações, frente a um cotidiano onde sentimos tudo e ao mesmo tempo nada da forma que se deveria? Também.

por Fabio Lafa

Por padrão costumamos manter o sorriso, uma leveza  na resposta “tá tudo bem, sim”, para qualquer conhecido na rua. Ainda mais para nós latinos, o otimismo e a ótica do “copo cheio” é nosso mantra que reforça a opinião mundial de “gente feliz” através dos tempos. Falando de tempo, e mais além, do tempo em que vivemos, ao nosso redor um monte de coisas tende a atenuar esse feliz estado de espírito. Agenda, emprego, incertezas do mercado e do governo e o telefone nos entupindo de tarefas, antes mesmo de desbloquear a tela. Não está e não é fácil pra ninguém.

O que traremos hoje vai muito baseado em algumas inspirações acerca de pequenas e grandes sequelas que sofremos enquanto procura-se uma “fórmula” para ser feliz, quando decidimos morar no campo, desativar as notificações, pular as notícias sobre a violência urbana, demonizar o guru, o consultor, usar um mar de técnicas para o auto-cuidado e ainda assim, lá no fundo se sentir longe do “tá tudo bem, sim” que respondemos.

Sem papo de coach, mas vemos ações realmente muito interessantes que nos convidam à reflexão, o que pode por ventura funcionar ou deixar de fazer sentido ao longo do caminho. O que parece ser muito lógico, nós todos já sabemos, e talvez precisemos de mais afinco ao praticar.

Acertando o pace

E quem corre, sabe: para finalizar bem uma corrida, não é sobre ir mais rápido, e sim achar uma velocidade adequada para respirar corretamente, mas só depois de um tempo praticando errado, é que aprendemos a aplicar. O mesmo ocorre no nosso cotidiano: quando procuramos válvulas de escape para terminar um dia, um período, uma fase “bem”: consumindo bens e serviços (bem menos do que antes, menos mal), hobbies, meditação, yoga, outras atividades que, não guiadas adequadamente acabam se transformando em volume em uma lista. Pronto, cá estamos nós igualmente pressionados e frustrados por programar em fazer e não fazer. Talvez seja interessante tentarmos simplesmente, desacelerar.

Ironicamente, o autocuidado se tornou solução e, dependendo da dose, a própria causa do stress, à medida que procuramos cada vez mais informações a respeito nas redes sociais. Hashtags como #autocuidado ou #yoga no Instagram – a última inclusive, traz mais de 72 milhões de postagens. Com esse mar de estímulos, saberemos somente o que nos trará um bem-estar real se encontrarmos cada um, seu ritmo – até pra nos acalmar.

 

A abundância de opções no setor de wellness geralmente cria confusão em vez de fornecer respostas. De acordo com alguns levantamentos, encontrava-se perto de 3.500 aplicativos de meditação, fitness e autocuidado no Google Play e na AppStore em 2018, contra 1.750 em 2014. Embora se possa argumentar que isso é simplesmente democratizar o bem-estar das massas, alguns dizem que o número de aplicativos é esmagador.

Entender que o autocuidado é constante e não momentâneo é muito importante para que não nos culpemos. O exercício diário de se cuidar vai além de um checkin diário em determinada atividade, até por tratar-se de uma construção perene e constate, e o não fazer hoje ou essa semana por algum contratempo não vai colocar tudo a perder. O objetivo é ficar bem, certo? Todos estamos tentando – Aqui no Brasil, com vários problemas e até em lugares onde aparentemente, está tudo bem.

Problemas no paraíso

Quando o World Happiness Report, relatório que mapeia o bem-estar da população mundial anuncia que a Finlândia é pela segunda vez o país mais feliz do mundo, a reação da população finlandesa é uma só – com base em alguns aspectos, apontar que não é bem assim.

Pegando como base a satisfação geral, qualidade do ar, os programas sociais e poder de compra por exemplo, a Finlândia junto dos demais países nórdicos, como Noruega, Islândia, Suécia e Dinamarca está sempre ocupando as primeiras posições nessa medição de felicidade da população mas, quando se olha a quantidade de emoções positivas a certa população é exposta durante seu cotidiano, o topo da lista fica bem diferente – e aí países da América Latina como Paraguai, Guatemala e Costa Rica tem uma taxa de exposição à positividade infinitamente maior, segundo o Global Emotions Report, conduzido pela americana Gallup. A Finlândia está longe do topo, o que não deve surpreender quem está ciente da reputação dos finlandeses, na forma que expressam emoções.

As coisas ficam ainda mais complicadas quando analisamos aumento do número de pessoas com depressão em diferentes países. Em uma comparação feita pela Organização Mundial da Saúde, a prevalência per capita de transtornos depressivos unipolares é mais alta no mundo nos Estados Unidos, e a Finlândia é o número dois. Paradoxalmente, então, o mesmo país pode ter alta satisfação com a vida, mas caminhando para um estado mais depressivo (?).

 

 

Embora existam deficiências significativas nas comparações internacionais de depressão e enquanto outras pesquisas estimaram que as taxas de depressão da Finlândia estariam mais próximas da média global, o que está claro é que a Finlândia está longe do topo do mundo na prevenção à depressão.

O aumento na quantidade de pessoas com depressão na Finlândia acompanha o excesso no consumo de álcool e drogas, concentrando onde? Na geração Z. As incertezas de mercado global afeta a esses jovens, que aparentemente não estão salvos de experimentarem uma baixa qualidade de vida, mesmo tendo uma bela condição socioeconômica. A sociedade finlandesa está vivendo um momento onde precisa adequar seus serviços, buscando justamente o equilíbrio no atendimento psicológico e psiquiátrico para as pessoas.

Pensar em uma percepção de bons pensamentos e bom estado de humor das pessoas parece ser uma medição mais sensata de felicidade e novamente, é inerente a cada comunidade quais são esses fatores, ou o que é de fato importante para que se sinta feliz. E pensando em uma percepção individual desses valores, como seria se pudéssemos individualmente mensurar, olhando nossa própria existência?

Entender que o autocuidado é constante e não momentâneo é muito importante para que não nos culpemos.

Os Dez Mundos

Buscar a felicidade requer uma compreensão mais profunda das tendências de sua vida, diz Ash ElDifrawi, doutor em psicologia pela Universidade de Chicago e co-autor do livro Dez Mundos: A Nova Psicologia da Felicidade. Em seu livro, identifica dez crenças fundamentais sobre a felicidade. Enquanto você pode navegar em meio a essas crenças (chamadas de mundos), a maioria de nós se aproxima de uma delas como sendo a nossa verdade, nosso mundo. Nove deles são ilusões, enquanto um, na visão do autor, é o absoluto. Veja onde você se reconhece:

Inferno: O mundo do sofrimento. Quando presos aqui, nos sentimos desesperados e impotentes. A ilusão neste mundo é que somos impotentes para acabar com o sofrimento.

Fome: O mundo do desejo. As pessoas que vivem neste mundo estão inquietas e têm um desejo persistente. A ilusão neste mundo é que você precisa conseguir o que quer ser feliz.

Animalidade: O mundo do instinto.Este mundo gira em torno do momento presente e da satisfação de nossas necessidades físicas. A ilusão é que felicidade e prazer são os mesmos.

Raiva: O mundo do ego. Neste mundo, somos movidos pela necessidade de sermos sempre vistos sob uma luz positiva, o que geralmente nos faz sentir desprezo e inveja dos outros. A ilusão neste mundo é que a felicidade é sobre ser melhor do que todos os outros.

Tranquilidade: O mundo da serenidade. As pessoas que vivem neste mundo encontram conforto no status quo, evitam a variedade e tentar coisas novas. A ilusão é que, para ser feliz, devemos evitar a dor.

Arrebatamento: O mundo da alegria. Este mundo parece emocionante e cheio, mas é hedonista. A ilusão é que a felicidade depende de apegos específicos, como dinheiro ou coisas.  (oi, millenials!).

Aprendizagem: O mundo da maestria. Neste mundo, você sente um impulso incansável para aprender e realizar algo que cria valor e significado. A ilusão surge quando você pensa que a felicidade vem apenas através da realização.

Realização: O mundo do auto-aperfeiçoamento. Aqui, você é obcecado por auto-exame e crescimento pessoal, mas isso pode levar à auto-absorção. A ilusão é que você acha que precisa crescer para ser feliz.

Compaixão: O mundo do amor. Neste mundo, a satisfação vem de se importar tanto com a felicidade dos outros quanto nós mesmos. Embora isso pareça bom, a ilusão é que você acredita que pode ser feliz, mas deve ajudar os outros a se tornarem felizes, o que pode gerar ressentimento.

Iluminação: O mundo do temor. O décimo mundo (novamente, na opinião do autor) é o verdadeiro caminho para a felicidade. Permanecemos em um estado contínuo de admiração pela ordem e beleza sublimes do universo.

 

O convite para encontrar um estado de felicidade mais constante vai em torno de ter a consciência maior de qual dos mundos pertencemos, bem como entender os prós e contras de cada um. “Se você realmente se permitir ter esperança, imaginar ou lutar por isso, pode descobrir o seu eu mais esclarecido”, diz ele. “Descubra o que provoca emoção em você. Nem todo mundo fica triste pelas mesmas coisas, ou não admira a mesma experiência ou pensamentos. O que estamos discutindo é uma maneira de experimentar um auto-ambiente mais expansivo, liberando condições de vida e uma alegria incrivelmente transcendente. Esta é a melhor maneira de pensar sobre a felicidade: examine suas crenças e estimule-as entendendo e assumindo o controle delas.”

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