A escola ensina? A escola educa?

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Se você trabalha em educação no Brasil, por favor, desligue o automático.

por Vinícius Moisés

Esqueça o prazo para ontem, a prova para hoje, o planejamento para amanhã. Esqueça a palestra, o edital, a aula. O currículo, o congresso, o big data. Pare seja lá o que estiver fazendo e enfrente a pergunta que dá título a esse texto. Educar ou ensinar: o que realmente importa nas nossas escolas?

Não se apresse na resposta. Ela parece simples, mas não é. Esse dilema é antigo. Bem antigo. Já faz 25 séculos que Aristóteles constatou que “as opiniões sobre educação diferem. Não há acordo sobre o que os jovens devem aprender, nem no que se refere à virtude nem quanto ao necessário para uma vida melhor. Tampouco está claro se a educação deveria preocupar-se mais com a formação do intelecto ou do caráter.”

Já se você não é da área, saiba que há cerca de 50 milhões de alunos matriculados na educação básica no Brasil. 85% deles em escolas públicas. O investimento do Estado em educação no País é de mais ou menos 6% do PIB: o que dá um pouco mais R$ 100 bilhões. Além disso, temos um mercado de escolas privadas, sistemas de ensino e materiais didáticos com uma receita que gira em torno de outros R$ 100 bilhões anuais.

Hoje, educação é um negócio. Um baita negócio de muitos bilhões de reais. E, assim como em qualquer outro negócio, muita gente ganha bastante dinheiro com ele. O que esse negócio vende é basicamente uma promessa de futuro. O ativo dele é uma aposta. Uma aposta com bastante especulação envolvida. E o produto final dessa promessa um dia já foi você. Hoje, é o seu filho. Amanhã, seus netos.

Cada “player” desse mercado vende seu diferencial na construção desse produto que atravessa gerações: as escolas prometem o melhor ecossistema educacional; as editoras, o material mais preciso; as startups de edtech, a tecnologia mais eficiente; o Estado… bom, o Estado se propõe a gerir todas essas relações, quase como um operador logístico. Dificilmente consegue ser bem sucedido. Mesmo quando o terceiro setor, bem intencionado, desce do mundo das ideias para tentar ajudá-lo.

Faça um teste. Leia dez projetos-políticos-pedagógicos criados pelas escolas. Pegue dez livros didáticos produzidos pelas editoras. Entre em dez plataformas desenvolvidas pelas edtechs. Tente se inscrever em dez editais propostos pelo terceiro setor em parceria com o Estado. E, se um dia der na telha, saia por aí visitando o maior número de escolas que conseguir. Alerta de spoiler: a experiência será sempre a mesma. E não muito empolgante.

Isso acontece por dois motivos. E eles são complementares. Primeiro, porque é muito difícil inovar em um sistema que busca a padronização. Segundo, porque a literatura acadêmica sobre o assunto é tão confusa, que ninguém sabe ao certo o que significa uma boa escola: aquela que melhor ensina, ou aquela que melhor educa?

O problema dessa indecisão é que acabamos escorregando tanto ao ensinar para os alunos os conteúdos básicos das diferentes áreas de conhecimento, quanto ao educar para que eles atinjam seus potenciais criativos e éticos.

E, quando falhamos nesses dois planos, a escola se transforma em um simples depósito de crianças. Deixamos elas lá, enquanto tocamos nossas vidas. Volta e meia damos uma espiada para ver se está tudo bem. Volta e meia somos surpreendidos por tragédias como as de Suzano ou Realengo.

Em choque, saímos por aí numa desenfreada caça às bruxas. Sem saber para quem apontar o dedo. Porque, quando absurdos desses acontecem, a sensação de impotência e de fracasso nos impelem a procurar culpados que expiem nossa responsabilidade.

Por isso, é hora de desligar o automático.

Não dá mais para acelerar em direção a uma falsa ideia de eficiência, enquanto tropeçamos nos conceitos básicos que definem nosso trabalho.

Não podemos mais jogar fora treze valiosos anos da vida de nossos filhos, tentando prepara-los para um futuro que não conhecemos, em vez de possibilitar que eles sejam verdadeiramente produtivos no presente.

Não podemos carregar para sempre o fardo de um modelo de educação inventado no auge militar do império prussiano e consolidado para atender as demandas da Revolução Industrial. Um modelo que teve o mérito de democratizar o que antes era um privilégio para poucos, mas que hoje não é capaz de sobreviver à complexidade social na qual vivemos.

Precisamos interromper a inércia histórica e questionar essa herança escolar que definitivamente não nos pertence. Precisamos romper de vez com esse sistema escolar perverso, que se alimenta de cada material didático publicado, cada aula dada, plataforma tecnológica desenvolvida, currículo debatido, metodologia criada e pedagogia reinventada. Precisamos retomar a essência dessa instituição, criada pela sociedade como instância maior do desenvolvimento humano.

Essa revolução não virá de fora. Ela já está surgindo, aos poucos, silenciosa, no chão das nossas escolas. Mas para que esse chão se torne um terreno fértil para frutificar algo novo, precisaremos semear a mensagem de que ali há espaço para a inovação. E um bom primeiro passo seria definir nosso foco principal.

Educar ou ensinar, o que realmente importa nas nossas escolas?

 

 

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