O FaceApp na era da beleza

Por mais que tentemos evitar o envelhecimento e todos os tabus que criamos em volta dele, nessa semana compartilhamos a nossa curiosidade de como estaremos daqui a 50 ou 60 anos nas redes sociais graças à viralização do aplicativo FaceApp.

Não é novidade que vivemos tempos em que a busca pela jovialidade é algo que nossa sociedade tenta ir atrás e, por diversos motivos – muitos deles mercadológicos –, jamais iremos achar o pote de colágeno no fim do arco-íris. Não existem tutoriais de skincare ou harmonizações faciais o suficiente que possam atrasar a chegada da idade.

Você deve ter percebido que com o auxílio dos features de inteligência artificial disponíveis no programa, e mesmo com opiniões contrárias alertando sobre os riscos de em quais mãos poderiam parar nossas fotos, muitas pessoas entraram na brincadeira viral de se auto envelhecerem. Além disso, no app também é possível mudarmos as cores dos nossos cabelos, gênero ou até colocarmos um sorriso em fotos que saímos com a boca fechada.

O fenômeno é paradoxal ao que ocorreu há alguns meses, quando todos estavam usando o filtro do Snapchat para parecer com uma criança. Agora, deixando de lado as possíveis teorias de banco de dados que são criados através das impressões digitais que compartilhamos nessas simples brincadeiras, por que estamos brincando de máquina no tempo através desses programas?

Há tempos já lançados, filtros de embelezamento não são novidade. Por exemplo, em uma época de obsessão por selfies e Instagram, a foto perfeita do nosso rosto é superpossível graças a diferentes aplicativos como YouCam Perfect, Facetune ou Visage, além dos próprios filtros disponíveis no Instagram e Snapchat.

A tecnologia tem nos possibilitado brincar com a manipulação do nosso corpo e aparência sem nos machucarmos de maneira física e sem limites. De acordo com o artigo do fundador e CEO do Nexves, Chris Herd:

“O Instagram nos permitiu compartilharmos nossas melhores fotos, mas através da próxima fase da inovação tecnológica vamos poder não somente alterar nossa aparência, mas também como somos percebidos permanentemente por todos ao nosso redor” 

Será que a oportunidade de podermos nos enxergar daqui a 40 ou 50 anos pode nos ajudar a aceitarmos melhor o avanço da idade ou apenas fazer com que nossas beauty routines fiquem muito mais drásticas?

 

Desmistificação do aging – entendendo a aceitação da idade e do envelhecimento

 

Nos anos 50, o físico Erik Erikson elaborou um modelo de oito estágios do desenvolvimento humano. Cada estágio é marcado por alguma crise existencial e ansiedade.

1 – Confiança / Desconfiança: É quando ainda nos primeiros meses de vida, o recém-nascido começa a criar confiança e segurança nas pessoas ao seu redor.

2 – Autonomia / Vergonha / Dúvida: Ocorre durante os 2 ou 3 anos do bebê, quando o mesmo já consegue responder por suas necessidades fisiológicas e higiene pessoal.

3 – Iniciativa / Culpa: No período dos 4 e 5 anos, é quando as crianças já começam a perceber suas diferenças sexuais e levantam questionamentos sobre o seu redor.

4 – Construtividade / Inferioridade: Entre os 6 e 11 anos, a alfabetização é desenvolvida na criança através da escola. Com isso ela também começa a ser inserida no meio social.

5 – Identidade / Confusão de papel: O quinto estágio ocorre dos 12 aos 18 anos, que é quando ocorre a busca pela identidade através da nossa vivência social e psicológica.

6 – Intimidade / Isolamento: Quando jovem adulto, a busca por novos interesses e o planejamento do futuro se tornam o main goal.

7 – Produtividade / Estagnação: É o período da meia idade, em que ocorre a dedicação à sociedade à sua volta ou grande preocupação com o conforto físico e material.

8 – Integridade / Desesperança: Ao chegarmos na terceira idade é que começamos a valorizar o que vivemos, construímos ou até mesmo o que deixamos de fazer, podendo criar arrependimento e melancolia. E é daqui que seguimos o nosso assunto.

 

Com o desenvolvimento da medicina, as expectativas de vida das pessoas vêm aumentando. Quem chega nesse estágio de vida já não é considerado sexy, atraente, ativo de possíveis realizações pessoais ou, até mesmo, útil. E esses são apenas alguns dos tópicos que se criam em volta do envelhecimento, criando medo e diferentes maneiras evitá-lo.

Muitas empresas têm batido na tecla contra o uso do termo anti-aging – ou antienvelhecimento, em português -, principalmente no universo feminino. Recentemente, uma das principais revistas do ramo de beleza do mundo, a Allure, declarou exclusão do termo após a redatora Michelle Lee trazer outra perspectiva sobre o tópico. “Ninguém aqui está sugerindo que se pare de usar retinol. Mas mudar a maneira como encaramos o envelhecimento começa pela maneira como falamos sobre ele”, declarou Michelle.

No Brasil, a Natura adotou o termo “Tratamento Antisinais” para a linha Chronos, em contraponto à promessa de anti-idade – ou seja, de não querer parecer velha -, pois reconheceu o envelhecimento como algo natural. “Esse termo, por si só, é uma antítese! Ao negar a idade, negamos também a beleza da passagem do tempo, que é onde a vida acontece. A beleza é viva e ela muda o tempo todo, porque a gente muda, as coisas mudam, a vida muda”, pontuou Fernanda Rol, diretora da unidade global de cosmética da Natura.

Há também o exemplo de outras marcas, como a L’Óreal, que substituiu o termo anti-aging pela expressão age-perfect, ou como a Vichy e a Clinique, que adotaram os termos slow age e age-intelligence em seus catálogos de produtos.

 

Envelhecimento feminino na indústria do entretenimento

Em fevereiro desse ano, a atriz Selma Hayek, 52 anos, postou uma foto no Instagram celebrando os seus cabelos grisalhos e lembrando os fãs que o tempo é curto. Em 2017, em entrevista pro New York Times, ela disse:

“Um dos motivos pelos quais não pinto mais o meu cabelo é porque não tenho mais paciência, então só deixo ele acontecer. Não quero passar o que resta da minha juventude fingindo ser mais jovem do que sou no lugar de simplesmente curtir a minha vida”. 

Não só Hayek como outras mulheres mundo afora têm se desprendido dos padrões estéticos impostos pela sociedade quando o assunto é o envelhecimento, afirmando que no lugar de esconder as marcas/linhas de expressões ou outros indicadores de idade avançada, devemos celebrá-los.

Quem aprova esse processo natural é a atriz Jane Fonda. Em agosto de 2018, a americana enviou uma mensagem para os diretores e executivos de Hollywood, pedindo que criassem mais roteiros para o grupo demográfico que mais cresce no mundo: as mulheres mais velhas.

“Um dos motivos do público jovem gostar de “Grace & Frankie” é porque eles pensam “Nossa, essas idosas ainda estão com tudo e se divertindo muito”. Quando somos retratadas a partir de uma única percepção, todos saem perdendo, nós e os homens, principalmente porque o grupo das nossas faixas etárias tem muito para oferecer ao público”.

Com o lançamento do filme “The Wife” (2018), a atriz principal e indicada ao Oscar de melhor atriz pela performance, Glenn Close, escreveu um tweet sobre o impacto que ela esperava causar no público. O enredo do longa gira em torno dos questionamentos de uma esposa (Close) sobre as escolhas de sua vida enquanto viaja para Estocolmo com o marido (Jonathan Pryce) extremamente narcisista. O livro que inspirou o filme está prestes a ser premiado com o Prêmio Nobel de Literatura.

“Espero que o filme mostre que mulheres mais velhas podem ser sexies e interessantes. Quero que o público perceba que além disso também existem histórias maravilhosas e incríveis que podem ser contadas sobre a minha geração.”

 

Envelhecimento x Wellness

A busca por melhorias na saúde física e mental não para de crescer no mercado global de Wellness. Hábitos que ajudam a trilhar e refletir um futuro mais saudável são essenciais para que tenhamos um processo de envelhecimento menos negativo e mais seguro e positivo diante dos desafios que são enfrentados, um processo que muitos chamam de envelhecimento saudável.

Entre 2015 e 2050, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMC), a proporção da população mundial idosa vai passar de 12% a 22%. Segundo a PwC Brasil, em 11 anos a população brasileira terá mais idosos do que crianças menores de 10 anos. Já conforme estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em 2060 um em três brasileiros será idoso.

Com essas mudanças, precisamos pensar em maneiras de mantermos esse grupo ativo e cada vez mais presente na sociedade, ao mesmo tempo que atendemos suas necessidades mercadológicas e sociais: através de motivações para exercícios físicos, reduzindo a chances de doenças cardiovasculares como a hipertensão; cuidados nutricionais, pois muitos desenvolvem uma alimentação fraca devido à perda do olfato ou paladar; e até emocionais, lembrando que a depressão é uma das doenças psicológicas que mais atige os idosos, além de outras necessidades.

Envelhecer, de fato, não é algo fácil do ponto de vista fisiológico. Nosso corpo e mente mudam e desaceleramos com o tempo. Já do ponto de vista psicológico, ela poderia ser mais fácil, mas também é difícil devido à maneira negativa que todos encaram o processo de envelhecer.

Por isso, entra o questionamento: por que, ao mesmo tempo que as pessoas não aceitam a velhice, elas estão utilizando-a como forma de entretenimento através do FaceApp? Porque se ela é virtual e reversível, não é um problema. No entanto, quando é real, não é vista como algo positivo devido às pressões sociais e à falta de preparação para aceitar o ciclo natural da vida.

Precisamos nos preparar para o envelhecimento a partir de jovens, assim como nos preparamos para todas as outras fases da vida. Precisamos paramos de fugir e aceitar que cada nova marca de expressão em nosso rosto carrega emoções e lembranças do que vivemos.

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