Sobre o primeiro episódio de Guerras do Brasil.doc

Os interessados na história do país contam agora com uma nova série de episódios sobre o nosso passado histórico.

Trata-se da série documental Guerras do Brasil.doc, lançada em abril desse ano e disponível em diferentes plataformas de streaming.

A série procurar retratar conflitos decisivos para os rumos da história do Brasil, com um mergulho em alguns dos momentos mais traumáticos da história do país.

O conteúdo é dividido em 5 curtos episódios: As Guerras da Conquista, As Guerras de Palmares, A Guerra do Paraguai, A Revolução de 1930 e Universidade do Crime.

O roteiro e a concepção são de Luiz Bolognesi que também é responsável pela direção da série.

Em termos cronológicos, os dois primeiros episódios enfocam o Brasil Colônia, já o terceiro episódio trata da Guerra do Paraguai, o conflito mais importante da época do Brasil Império.

O episódio seguinte aborda a Revolução de 30, um conflito interno que pôs fim à Primeira República e moldou as feições que o país assumiria ao longo do século XX. O último episódio avança para o século XXI ao tratar dos conflitos com o crime organizado no Brasil contemporâneo.

O tom da reconstituição histórica realizada pela série passa longe do heroísmo idealizado ou das narrativas oficiais que durante tanto tempo dominaram o panorama dos estudos históricos no Brasil.

Sabe-se que durante muito tempo, a história oficial brasileira se limitou a interpretar o passado pela visão dos colonizadores. Afirmação especialmente válida para os olhares que durante séculos se dirigiram para o passado colonial brasileiro.

Quase sempre, o passado que surgia dessas reconstituições históricas reservava aos colonizadores um papel nobre, que teriam desempenhado com bravura ao colonizar esse pedaço inóspito do Novo Mundo.

Aos colonizados, quando muito, cabiam algumas menções de rodapé e um ou outro detalhe nos apêndices ao final dos livros. Desempenhavam quase sempre o papel de coadjuvantes, ou de meros expectadores do desenrolar dos acontecimentos históricos.

Já nas últimas décadas, parte dos estudos especializados têm procurado matizar essas visões, cuidando de apreender as formas de vida e de resistência que ganharam corpo nos primeiros séculos de formação da sociedade brasileira.

Os dois primeiros episódios – Guerras da Conquistae Guerras de Palmares – são os que melhor ilustram essa orientação narrativa, bem expressa já no título do primeiro episódio da série, que chama de Guerras de Conquista o que antes muitos preferiram caracterizar como Guerras de Descobrimento.

Afinal, como dar a esse processo o nome de “descobrimento” se já haviam aqui povos com histórias próprias e mesmo uma cosmovisão de mundo compartilhada entre as diferentes nações que aqui conviviam?

É o que também questiona o pensador e líder indígena Ailton Krenak, em depoimento que abre o primeiro episódio da série documental.

Para Krenak, o Brasil só passa a existir a partir da invasão dos portugueses e de outros povos europeus.

Dados trazidos pelo documentário corroboram essa fala. Estima-se que quando da chegada dos colonizadores no século XVI, já habitavam o Brasil – ou a território que viria a ser o Brasil – entre 8 e 40 milhões de pessoas.

Também presente no primeiro episódio do documentário, a fala do historiador Pedro Puntoni ressalta que as trocas entre os colonizadores e os grupos que aqui habitavam foram sempre marcadas pela tensão.

Os povos indígenas desde o início mostraram-se abertos a alteridade, isso é, dispostos a aceitar e conviver com as diferenças dos europeus desembarcados nessa porção do Novo Mundo.

A diversidade e a própria existência do outro eram parte integrante da visão de mundo desses povos. Os colonizadores, por outro lado, projetavam nos povos indígenas o que pretendiam obter, ou mesmo o que queriam evitar e proibir.

Com o avanço do processo de colonização, os portugueses aprendem a manipular os conflitos existentes entre os diferentes povos indígenas a seu favor. Da mesma forma, o maior contato com os europeus potencializa o surgimento de doenças e epidemias.

É difícil dar a dimensão do impacto que as epidemias tiveram. O antropólogo Carlos Fausto conta que os relatos de época dão conta de milhares de mortes pelo território da colônia brasileira.

Se consideramos as estimativas da população indígena da época em torno de 80 milhões de pessoas, é possível dizer que parte expressiva da humanidade da época simplesmente deixou de existir em pouco tempo, como afirma o antropólogo.

A mortalidade foi tão alta que era como se o mundo dos indígenas estivesse acabando. Esse foi também o ponto de inflexão, momento em que o processo de colonização europeia tornou-se irreversível, completa Fausto.

Daí em diante, a ocupação do que viria a ser o território brasileiro foi acompanhada do extermínio dos povos indígenas, como afirma Puntoni. Provavelmente é esse o motivo que leva Ailton Krenak a afirmar que, desde a ocupação até os dias de hoje, há uma guerra em curso contra os povos indígenas.

Para Krenak, a guerra é o estado permanente da relação entre os indígenas e os colonizadores. Algo que tem início com as Guerras de Conquista, passa pela expansão territorial da colônia, pelos projetos de ocupação do interior do país já no século XX e chega aos dias de hoje com a ameaça permanente à demarcação das terras indígenas.

Uma das últimas cenas do episódio talvez seja a mais emblemática: Durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1988, um jovem Ailton Krenak discursa para o plenário da Câmara dos Deputados.

Enquanto denuncia os ataques aos povos indígenas pelo poder econômico, vai pintando o rosto com a tinta preta do jenipapo. Pede aos constituintes que não considerem como inimigos um povo – seu povo –  que habita casas cobertas de palha e que dorme em esteiras no chão.

O negro do jenipapo tinge de luto o rosto de Krenak ao pedir que os direitos de seu povo sejam escritos na Constituição que prometia um novo país.

Luto pelo passado dos que sobrevivem à uma guerra de mais de cinco séculos e alguma esperança de que um futuro menos trágico pudesse surgir dali.

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