O absurdo ato de morrer

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A pergunta não é nova, mas segue sem resposta: por que é tão difícil aceitar o mais inevitável dos eventos? Falar sobre a morte é fundamental, inclusive para entender a própria vida e, sim, para sobreviver às perdas.

por Alana Della Nina

Se eu pudesse escolher, preferiria começar este texto sem mencionar o céu (o físico, no caso), mas o clichê é inevitável, pois foi exatamente assim que aconteceu: caía uma tempestade de raios na noite em que lidei pela primeira vez com a possibilidade de o meu pai morrer. Fiquei pensando no quanto esse fenômeno da natureza, do qual eu gostava muito, ficaria associado a esse dia. Coisas que a gente pensa quando a realidade atual não está fazendo muito sentido.

Enquanto eu dirigia do hospital para casa às dez da noite do dia 15 de janeiro de 2019, e os clarões iluminavam o céu sem irem a lugar nenhum, em determinado ponto, parei de calcular quando tal conexão deixaria de ser dolorosa e passaria a ser saudável. Àquela altura, eu só podia imaginar o que seria a imensidão da perda do meu pai. Buracos negros engolindo constelações inteiras, planetas e outros buracos negros menores, que se tornam tão desimportantes diante dos maiores.

Ele passou três semanas na UTI em uma situação gravíssima, como nos diziam os médicos, e podia morrer a qualquer momento. Achamos, eu e minha família, principalmente as minhas irmãs, um jeito muito barulhento e intenso de sobreviver à tensão permanente durante aqueles 21 dias, mas, hoje, quase um ano mais tarde, seguimos sem entender a partida dele.

Tenho certeza de que, como eu, minhas irmãs também choram por algumas horas no silêncio de suas camas noite ou outra ou precisam, eventualmente, sair da mesa do trabalho ou de alguma roda de conversa para poder perder o ar em paz. Naqueles tempos de UTI, lembro de olhar para elas e pensar em o que nos tornaríamos depois de tudo aquilo. Como cada uma se constituiria a partir dali não me interessava naquele momento, mas intuía que nossas jornadas, dali para frente, seriam diferentes. E, ainda assim, eu não sabia de nada.

É curioso como entender que uma pessoa vai morrer não te prepara em absoluto para a morte dela. Você pode até achar um jeito de se habituar ao primeiro cenário, mas jamais vai conseguir se enquadrar na realidade do segundo. Talvez “jamais” seja uma palavra muito definitiva. Mas, para mim, segue sendo uma sensação com cheiro de permanente. Outro dia, tentando explicar para um amigo, fiz uma metáfora terrível, mas funcional, sobre como era, de repente no meio do dia, lembrar que meu pai não está mais aqui: como um garfo riscando um prato. Um susto horroroso, uma aflição terrível, um ruído desagradável.

Há algo esquisito no fato de que nós sejamos tão despreparados para o evento mais inevitável da vida. Lembro de que na ocasião da má notícia – que eu já sabia que estava vindo – fiquei surpresa com a minha própria reação. Quando fizemos a matemática das explicações extremamente técnicas da médica e conseguimos concatenar que, enfim, ele tinha morrido, achei tudo absolutamente intolerável. Não lembro com detalhes do momento, que classifico por ora como o pior da minha vida, mas sei que me comportei como uma criatura entre selvagem e infantil. Caí, gritei, urrei, fiquei em posição fetal no chão da UTI e disse com todas as letras que não aceitava, que ele era muito novo e que eu não sairia dali de jeito nenhum. Logo eu, que encarei toda a batalha da UTI como um eficiente soldado de front.

A morte padece de dois clichês antagônicos: é a única certeza que temos e é o maior tabu da sociedade ocidental. Por que não falamos sobre ela? Por que não conseguimos – e nem queremos, acho – decifrar esse grande enigma que nos circunda por toda a vida, já que morremos de qualquer coisa? De uma queda de mau jeito, de doença, de tristeza, de desgosto, de velhice. É tão fácil morrer, aliás, que deveríamos ficar surpresos por ainda estarmos vivos.

Andar pela vida como se a morte não existisse ou decidir lidar com sua força avassaladora apenas em sua chegada são recursos capengas. É uma camada fina e frágil disfarçada de escudo que tem a função de nos proteger dos nossos maiores medos, só que conseguimos enxergar através dele do mesmo jeito.

Claro, é preciso levar em conta sua natureza: a morte tem dimensões oceânicas. Sua imensidão, em largura e profundidade, beira o insuportável. Ela tem um núcleo maciço de chumbo que te atinge na boca do estômago com uma força absolutamente inesperada, mesmo quando você esperava por ela. Arranca seu ar e desmonta, em segundos, sua arrogância ingênua (qual não é?) em acreditar que dava conta daquilo.

Ainda assim, nos falta a educação de entender que vivenciar uma perda, na melhor das hipóteses, vai fazer parte da existência de todo mundo. E que vivenciar esses sentimentos de impotência, não aceitação, falta de entendimento, desespero e tantos outros que não conseguimos nomear, também.

E aí tenho outra pergunta: quais portas a morte de alguém que amamos abre dentro de nós?

O meu pai foi minha primeira grande perda. Ele não está mais aqui. Sei disso e sou racionalmente consciente de que já não vivo mais em um mundo onde ele está, mas não consigo ainda me assentar em um mundo onde ele não vive mais. Confuso? Talvez seja o que chamamos de luto. Uma travessia entre uma vida e outra. Um fino e delicado fio sobre o qual caminhamos nos equilibrando com cautela, vislumbrando o enorme vazio abaixo de nós.

Ou talvez essa seja a vida que nos é revelada no momento em que somos obrigados a encará-la de verdade: em sua finitude. Alguns dos muitos ecos da morte dele foi a consciência real do envelhecimento e do sentido de todas as coisas. Nao vejo como vivenciar uma morte sem se questionar sobre as bases da existência – o que diabos estamos fazendo estamos aqui, afinal? No belo ensaio Luto e Melancolia, Freud discorre precisamente sobre a similaridade entre esses dois processos e nos deixa uma perturbação: o quanto são esfumaçadas as fronteiras entre uma coisa e outra? O quanto um processo de luto também não abre uma fenda no escuro para que a gente finalmente olhe para os buracos que carregamos?

A partida do meu pai afetou muita gente. Mas, mesmo sendo uma família grande e que ficou bastante unida nesse momento, lembro de me sentir muito sozinha. Compreendi, em algum ponto, que aquele sentimento não se referia apenas ao luto, mas que a solidão era uma maré contra a qual não valia mais a pena nadar. Era melhor me render de vez ao medo dela me agarrando às pessoas que eu amava, aceitando suas presenças inevitáveis como a única forma de viver uma vida que fazia sentido.

Isso também significava aceitar que perder meu pai era perder uma importante porção dessa frágil massa de afetos que me rodeava e que constituía, o que eu demorei a entender, a vida verdadeira. O que eu ia fazer com aquele imenso espaço vazio? Com o que iria ocupá-lo? Não tinha criatividade ou vontade o suficiente para pensar em maneiras de preencher aquela vaga dolorida. E não me parecia certo. Nada estava à altura de estar naquele lugar, teria que sepultá-lo em mim mesmo e inutilizar o espaço que pertencia a ele.

Não faltam camadas complexas e muito profundas para desbravar nesse processo. Eu vivi, vivo e sei que ainda vou viver a perda de diversas maneiras. E que terei outras perdas, que também serão vividas de formas diferentes. Se, antes, o que mais me assustava era a irrealidade de ele não estar mais aqui, mais tarde fiquei com medo de que a presença dele, que ocupou fisicamente minha vida pelos meus então 34 anos, parecesse uma alucinação, como se ele nunca tivesse existido.

 

A culpa também. Claro, se sentir culpado pela morte de alguém – a não ser que você tenha, de fato, matado a pessoa – é de uma arrogância tremenda. Como achar que você poderia mudar o curso de algo tão gigantesco quanto uma morte anunciada? Fico com as teorias psicanalíticas que defendem a culpa como um deslocamento oportuno para a imensa sensação de vazio que a morte deixa. Ainda assim, não deixo de senti-la. Mas também sei que isso vem de outros lugares, outros pedaços meus que preciso olhar com calma. Acho que essa dor é muito mais velha e rançosa do que a que é endereçada imediatamente à morte. É a culpa por tudo o que deixamos de fazer, já que nossa natureza é incompleta, egoísta, insuficiente. Sempre faltaremos e a morte expõe essa ferida que insistimos em esconder, inclusive de nós mesmos.

Sei que não é privilégio meu, a vida se organiza desajeitada ao redor da perda. Até que se passe a ter autonomia e caminhar novamente fora da sombra de quem se foi, leva tempo. Mas as perguntas inconvenientes que aparecem nesse processo talvez superem o prazo do luto.

Talvez a gente queira saber por que as coisas mais óbvias da vida nos fazem sofrer com tanta violência. Por que somos jogados em um mundo para o qual aparentemente não fomos feitos, nem fisicamente e nem emocionalmente.

Minhas tentativas de racionalizar, inspecionar e dissecar todos os sentimentos que aparecem fazem parte da minha natureza, mas também, porque dentro das coisas que me formam, há uma sorte de ferida que não é explicável, não há alternativa senão senti-la. A morte é um universo imenso e a cada momento a gente se depara com um aspecto diferente dela, uma nova constelação. Ao mesmo tempo em que é tão natural, não é. Pensei muito sobre toda a vida imensa do meu pai e como ela terminou com uma morte estúpida. Mas qual vida não é imensa e qual morte não é estúpida?

Eu me senti muito especial com a partida dele, como se fosse um evento espetacular. E, ao mesmo tempo, me senti insignificante. Como se eu não tivesse o direito de sofrer por algo tão corriqueiro e ordinário quanto a morte. O que minha perda tinha de maior ou mais importante que todas as outras que acontecem aos montes, todos os dias? Nos dias de UTI, vimos três ou quatro pacientes morrerem. Vimos parentes negarem, gritarem, saírem correndo pela porta para tirar satisfações raivosas com os médicos. O que eles têm de diferente de nós?

Assumir a morte escancaradamente e em parte resistir a ela é um fino equilíbrio.

Ouvimos que a dor faz crescer, é necessária para nosso amadurecimento. Penso que o processo é um pouco diferente. A dor nos obriga a acomodá-la em nossas vidas. A arrumar novos caminhos, nos força a uma criatividade de sobrevivência – você tem que achar um jeito de ocupar esses espaços. Você tem que achar uma nova vida para viver já que aquela velha conhecida não está mais disponível. Dia desses, um amigo me apresentou o novo disco do Nick Cave, o Ghosteen, que mergulha profundamente na morte inexplicável do seu filho de 15 anos, que caiu de um penhasco. Cave, aliás, é esse cara que decidiu pegar a morte pelos colarinhos. Além de tentar elaborar a dor por meio do que ele sabe fazer melhor, fala abertamente sobre o assunto. No Red Hand Files, site em que se dispõe a responder perguntas de todos os tipos, Cave tem algumas reflexões muito honestas sobre perdas e luto (em inglês).

A irreversibilidade da morte a torna bastante desconcertante. Não existe segunda chance. Meu pai morreu aos 61 anos e não tem nada que dê para fazer a respeito. A morte é o único erro sem repetição. No entanto, eis o paradoxo: antes de acontecer, ela parece fazer mais sentido. É lógica, natural. Enquanto está iminente, em algum momento, você se entende com ela, chega a um acordo de que é a vez dela. Até que acontece. E sua potência é um desnorteio.

A morte nos tira, mais do que a presença de alguém que amamos, um pedaço da nossa própria vida, da nossa própria história. Nos dá a percepção bruta de que nunca mais ouviremos a voz de quem, até então, sempre esteve lá. Isso é muito maior do que nosso entendimento cotidiano da vida. Representa uma transformação compulsória. E logo para nós, humaninhos inocentes, que detestamos mudanças e preferimos acreditar que temos controle sobre todas as coisas e as decisões são todas nossas.

Talvez eu nunca consiga compreender a morte do meu pai e essa nova realidade nunca faça sentido. Mas, nessa busca por me entender com a perda, percebo que querer encontrar um sentido, uma lógica, é inútil. E sofrido. Talvez, um dia, em vez de chegar a uma resposta, eu faça as pazes com essa falta de sentido; compreenda, de um jeito contraditório, que as coisas que escapam ao nosso entendimento são apenas muito maiores que nós; que posso me acostumar com o garfo riscando o prato, mas que ele nunca vai deixar de riscar.

 

 

 

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