Novas conexões, outros territórios de cura

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O novo geralmente veste as roupas do inimigo. Compreendemos que as novas ideias nos aterrorizam por nos tirar o chão das certezas, dos territórios conhecidos.

por Bruno Henri

Indicaram-me uma inimiga. Ela não era bem vista entre aqueles que vestem trajes sóbrios e seguem o catecismo de Freud nem pelo seus oponentes, os práticos e um tanto otimistas behavioristas. A inimiga não estava dentro, nem fora. Ela circulava por vários círculos com sua saia rodada, e isso era (talvez ainda seja) motivo de discórdia entre os curadores da mente.

O ano era 2008, e como a urgência do momento me impedia de pensar em muitas opções – não questionei muito, e lá fui conhecer a minha primeira terapeuta transpessoal. Não era uma sala branca, nem havia o costumeira placa com o tridente na porta (representação simbólica das três forças do eu). Ainda me lembro hoje da imagem: para minha surpresa – e talvez um pouco de incômodo e dúvida – era uma casa. Uma casa com muitas plantas. Uma casa para receber os que avistaram o vazio.

Após fazer um breve relato dos motivos que me fizeram chegar àquela casa – ou clínica – a terapeuta transpessoal olhou com calma meu tênis, minha calça e por fim minha camiseta. Fez uma pausa e disse: “Você usa muito preto – e realmente está precisando de mais cor. Principalmente vermelho. Vermelho. E vermelho também na alimentação, carne, melancia, beterraba”. O que poderia soar como um desapontamento ou descrédito – afinal eu tinha entrado naquele espaço para falar do meu sofrimento e não da minha dieta alimentar – ao contrário, soou como um alívio. Por um momento, ela desviou meu olhar de todo o lamaçal interno que me consumia há tempos, e me mostrou novas conexões, outros territórios.

Ultimamente tenho escutado com certa regularidade termos que há dez anos atrás não faziam parte de digressões filosóficas e inflamadas de mesas de bar. Termos estes que a cada dia escuto com maior regularidade de relatos carregados com veemência de amigos próximos. Rapé, constelação familiar, tantra começaram a estar mais presentes nesses diálogos que os já velhos conhecidos, superego, recalque e neurose. Estaríamos, portanto, em um período de crepúsculo das teorias freudianas? A disciplina que respondeu tantas perguntas indigestas da sociedade ocidental estaria cedendo lugar para outras disciplinas – correntes de pensamentos que enxergam o eu além dos conhecidos limites do ego, das relações familiares e dos traumas?

Apesar de toda resistência e crítica que a psicanálise enfrentou nas primeiras décadas da sua prática, percebe-se com clareza como ela tornou-se um fato decisivo na cultura do Ocidente. Um dos principais biógrafos de Freud, Peter Gay, fez uma comparação muito precisa entre a arte moderna do século XX e o impacto das teorias freudianas. Em seu livro “O Modernismo, o fascínio da heresia” ele constata como o artista moderno teve como um dos principais pilares: “o compromisso com o princípio cerrado de si mesmo, que acarreta uma exploração do eu…”. E além dos campos da arte, toda essa influência adentrou e se solidificou em locais tão distantes quanto diversos – da pedagogia ao marketing, da política aos sistemas administrativos. Contudo, mesmo sendo indelével a influência da psicanálise nas diversas áreas da vida ocidental, eu penso que esse aumento de terapias alternativas trazem uma vontade de olhar o homem de forma mais sistêmica e integrada com outros componentes – além do velho e estabelecido eu.

A ciência moderna construiu até os dias de hoje um crescente movimento de divisão e especialização dos saberes. Enquanto na Grécia antiga, o conhecimento era constituído a partir da combinação de diversos saberes – da música à lógica – a época moderna instaurou a divisão entre ciências humanas, biológicas e exatas. O pensamento moderno também sustentou a definição de que um sistema complexo poderia ser entendido pela investigação dos seus componentes fundamentais, ou seja, o todo poderia ser explicado por suas partes.

Na segunda metade do século XX, porém, novas teorias começaram a propor um olhar diferente diante da redução do todo por seus componentes. Surgiram, então, em diversos campos do saber uma forma de compreensão sistêmica (ou holística). Esse método de análise propõe que o todo é ligado às suas partes por interações constantes. E a cada acontecimento está ligado a outros acontecimentos, criando constantemente novas relações e fenômenos. Fenômenos com um alto grau de complexidade e imprevisibilidade utilizam a análise sistêmica para seus estudos tais como os movimentos das placas tectônicas, as variações do mercado financeiro e o crescimento das populações – para citar apenas alguns.

É interessante, porém, observarmos que enquanto o homem ocidental e urbano descobriu apenas a partir da década de 70 novas formas de tratamento de saúde a partir de uma análise sistêmica dos fatores biológicos, psicológicos e sociais, as culturas indígenas sempre possuíram essa abordagem. O pajé ou xamã é, antes de qualquer definição, um comunicador. De acordo com a cultura indígena, mesmo dispondo de um amplo conhecimento sobre enfermidades, plantas e técnicas de cura,o que assegura a eficiência do pajé é a sua capacidade de se conectar com diferentes forças que compõem a vida. Os índios acreditam que, seja para curar uma doença ou para restabelecer um convívio de paz na tribo, o contato do pajé com diversas realidades, físicas e espirituais, restabelecem a harmonia, a força, a cura e o equilíbrio.

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O novo geralmente veste as roupas do inimigo. Compreendemos que as novas ideias nos aterrorizam por nos tirar o chão das certezas, dos territórios conhecidos. Mas elas também podem nos revelar estruturas antes ocultas. Todas as verdades – até aquelas que chamamos de científicas – carregam estruturas de poder que controlam a sua produção de discurso (do saber). E essa produção e controle do saber carrega interesses, desejos e ideologias. Foucault diz em seu livro A Ordem do Discurso: “… suponho que em toda a sociedade a produção do discurso é simultaneamente controlada, selecionada, organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos..”. Portanto, uma nova ideia não seria também um caminho para enxergar as estruturas e interesses de uma ideia antiga?

 

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