O que a economia solidária pode fazer por você?

E se nossas vidas fossem totalmente democráticas? Ou melhor, e se todas as decisões que impactam nosso cotidiano fossem tomadas em processos democráticos? Se achamos natural eleger democraticamente nossos representantes nas diferentes esferas de governo, por que essa visão democrática não se estende também ao processo produtivo? Isso é, por que não eleger democraticamente o gerente do seu setor ou mesmo se candidatar para um cargo de coordenação em sua área de trabalho? Alguns desses princípios constituem a base de uma maneira particular de pensar as relações entre economia e sociedade, conhecida como Economia Solidária.

O que eu quero dizer é o seguinte: se consideramos natural a postura democrática ao decidir os rumos políticos da sociedade, por qual motivo essa forma de pensar não se estende também à esfera do trabalho?

É muito estranho pensar o sistema produtivo nesses termos? É irreal pensar que o mundo do trabalho pode se aproximar do que experimentamos na vida social de maneira mais ampla? Talvez não. E tentar responder a essas questões pode mudar sua visão de algumas coisas.

 

 

E se nossas vidas fossem totalmente democráticas? Ou melhor, e se todas as decisões que impactam nosso cotidiano fossem tomadas em processos democráticos?

 

Em seu sentido mais radical, a Economia Solidária se recusa a aceitar a divisão da sociedade em uma esfera política e outra econômica. Nessa acepção, as práticas que orientam a vida em sociedade não deveriam ser diferentes das que vigoram nos locais de trabalho.

É claro que o conceito de economia solidária é bem mais abrangente, comportando mesmo posições menos radicais. Em sentido amplo, é possível mesmo afirmar que a economia solidária é tão antiga quanto a própria Revolução Industrial.

Naquela época, a adoção da produção mecanizada em larga escala, combinada a uma série de inovações tecnológicas, aumentou exponencialmente a capacidade de produção de mercadorias. O que, ao mesmo tempo, representou um duro impacto nas condições de vida de trabalhadores do campo e dos artesãos que viviam nas cidades.

De certa forma, a situação é semelhante ao que ocorre hoje, com as inovações que possibilitaram o surgimento da chamada Gig Economy. Não por acaso, alguns analistas consideram que estaríamos passando pelo que pode ser considerada a 4ª Revolução Industrial.

Nos dias de hoje, é fato que as recentes tecnologias produtivas abrem possibilidades ainda não totalmente exploradas. Sabe-se, contudo, que a nova onda de flexibilização das relações de trabalho, que acompanha essas inovações, vem piorando as condições de vida de milhões de trabalhadores, principalmente os menos qualificados.

A resposta que nossa época dará a essas mudanças ainda é desconhecida, mas no passado, uma das soluções encontradas foi justamente a da organização da produção de produtos e serviços em cooperativas de trabalhadores, funcionando em regime de produção solidária.

No início do século XIX, em uma das primeiras experiências consolidadas de economia solidária de que se tem registros confiáveis, o britânico Robert Owen propôs um plano de criação de aldeias cooperativas em seu país. O objetivo era o de reinserir no sistema produtivo o enorme contingente de trabalhadores ociosos, afetados pela grande crise econômica que sucedeu as guerras napoleônicas.

As ideias de Owen fomentaram o posterior surgimento de uma série de empreendimentos de matriz cooperativa*. A partir daí os princípios owenistas de produção solidária se difundiram, tornando-se influência importante ainda nos dias de hoje.

Atualmente, uma das mais conhecidas e bem sucedidas iniciativas de produção solidária é a do Grameen Bank, fundado pelo economista Muhammad Yunus na cidade de Dhaka, capital do Bangladesh.

Yunus, então um jovem professor universitário de economia, ficou espantado com os efeitos negativos daquela que ficou conhecida como a grande fome de 1974 em Bangladesh. Ele notou que até havia comida suficiente para alimentar os que mais precisavam. O problema era exatamente que os mais pobres não tinham dinheiro algum para comprá-la.

Atento ao problema, Yunus percebeu que os que mais sofriam com a pobreza eram justamente aqueles que não tinham acesso a nenhum tipo de propriedade. Em sua maioria mulheres; artesãs e trabalhadoras rurais, que recorriam a agiotas locais para levantar algum capital que lhes permitisse trabalhar para viver.

Como os juros cobrados por esses agiotas eram escorchantes, essas trabalhadoras frequentemente se viam presas à uma relação financeira que mais parecia um tipo de extorsão. Quase todo o rendimento do seu trabalho diário era destinado ao pagamento dos pequenos empréstimos obtidos.

Yunus resolveu então entrar nesse circuito emprestando um pouco de seu próprio dinheiro, inicialmente sem prazo certo para pagamento e sem cobrança de juros. O resultado surpreendeu o jovem economista, que recebeu de volta praticamente todo o capital emprestado com baixíssimo índice de inadimplência.

A experiência então foi expandida por Yunus, que alguns anos depois, obteve recursos para finalmente fundar o Grameen Bank.

O Grameen Bank conduziu suas operações introduzindo algumas inovações, que incluem o uso do aval solidário, em que um grupo de cinco pessoas se responsabiliza pelos empréstimos de todos os membros. Ou mesmo a decisão de realizar empréstimos somente às mulheres, por perceber que elas aplicavam melhor os rendimentos obtidos em benefício de toda a família.

Além disso, o banco também foi instituído em um sistema cooperativo. O que significa que ao receberem um empréstimo, as mulheres se tornavam sócias do Grameen Bank. Isso é, cotistas com direito a voto em assembleias locais e representação nos conselhos decisórios.

O impacto social das operações do Grameen Bank foi bem além do que seu próprio fundador esperava. Estimuladas a participar das decisões do negócio, muitas mulheres passaram a se rebelar também contra outros tipos de injustiça, como as agressões domésticas que sofriam, bem como outros tipos de discriminação de gênero presentes em uma região predominantemente conservadora.

A experiência pioneira de Yunus tomou tal proporção que anos mais tarde, em 2006, Muhammad Yunus foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz, em reconhecimento aos seus esforços no fomento ao desenvolvimento econômico e social.

Outra importante experiência de economia solidária é a da Corporação Mondrágon, que leva o nome da pequena cidade em que foi fundada, na região do país Basco, na Espanha.

A corporação foi criada ainda na década de 1950 como uma fábrica de eletrodomésticos, para posteriormente se tornar o que pode ser considerado o maior complexo cooperativo do mundo. Na Corporação Mondrágon, os trabalhadores são também donos do negócio, partilhando os lucros acumulados e participando ativamente da gestão do empreendimento.

Já no Brasil, a economia solidária vem crescendo de maneira expressiva. O Observatório Nacional da Economia Solidária e do Cooperativismo, então ligado ao Ministério do Trabalho, estima a existência de 19.780 (dezenove mil setecentos e oitenta) empreendimentos de economia solidária. Que em suas atividades, mobilizam mais de 1.400.000 (um milhão e quatrocentos mil) trabalhadores, organizados em associações, cooperativas ou outras formas de produção solidária.

De fato, a autogestão do empreendimento, como praticada pela economia solidária demanda maior esforço de todos os envolvidos. Afinal, além de suas tarefas rotineiras, os trabalhadores devem se preocupar também com os aspectos mais amplos da gestão do negócio.

Por outro lado, a autogestão aumenta o interesse dos envolvidos nos aspectos globais da administração do empreendimento, melhorando também a percepção dos trabalhadores em relação à qualidade do serviço prestado.

A autogestão praticada pela economia solidária proporciona, além do lucro necessário para expansão do negócio, uma rica experiência de auto realização do ser humano, que se vê encorajado a expressar-se em um ambiente de discussão democrática.

Não são poucas as pessoas que ao refletirem sobre o significado político de suas escolhas acabam por entender a si mesmas. O simples exercício do direito de expressar o que se quer, de fazer conhecida sua vontade, muitas vezes permite começar a compreender seu próprio lugar na sociedade.

O fato é que os princípios da economia solidária não precisam ser adotados integralmente para que influenciem diferentes relações de trabalho. Sua existência como prática de negócios cria modelos que podem ser incorporados por todo tipo de empreendimento.

Até mais do que isso, pode-se dizer que algumas das atuais tendências de produção e consumo já foram antecipadas há algumas décadas pela economia solidária. São exemplos, a preocupação com a garantia de uma cadeia de produção sustentável. Assim como o incentivo ao consumo consciente e a necessidade de um tratamento humanizado dos consumidores.

Mesmo a consciência recente de que altos níveis de motivação dependem de fazer com que os funcionários se sintam um pouco “donos do negócio”, guarda algum parentesco com as práticas de autogestão da produção solidária, ainda que a orientação predominante seja outra.

Assim, ao borrar as diferenças entre trabalho e sociedade, os princípios de economia solidária podem nos ajudar a pensar o futuro.

Em uma época em que o consumo muitas vezes é visto como extensão dos ativismos. E em um mundo em que parte dos consumidores enxerga o ato de consumir como parte de sua própria identidade, a economia solidária pode nos dar pistas importantes para pensar novos rumos.

Para essas e tantas outras questões, os modelos de economia solidária permanecem como fonte valiosa de reflexão.

 

*Para os aspectos históricos e outros componentes desse texto, tomo como base: Singer, Paul. Introdução à economia solidária. São Paulo. Editora Fundação Perseu Abramo, 2010.

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