Arquivos perdidos do Ponto: Ocupe Minha Escola

Ainda bem que, junto das várias formas de disseminar conteúdo que temos disponíveis hoje em rede, o offline não perde força – sim, as escolas. Elas que funcionam como a segunda unidade social que temos contato durante nossas existências. Aprendemos mais em conjunto, no exercício da reflexão, na comparação e alinhamento de valores. Educação como instrumento de movimento. Historicamente como propulsor de discussões e norte para entendermos o que trará melhoras para nossas existências, sem fugir de práticas importantes para nos mantermos como transporte do novo.

Com o limiar de movimentos governamentais que mesmo indiretamente podem comprometer nossas decisões, como o fantasma do contigenciamento nos investimentos para áreas de humanas de ensino, vimos jovens de escolas públicas e privadas se posicionando a favor de que seja mantidos os estudos das ciências nas áreas de filosofia, antropologia e sociologia e enfatizando sua contribuição para formação de profissionais das mais diversas áreas.

O fato é: exercício de questionamento jamais deixará de existir. Pensando nisso, voltamos a um recorte de ocupação efetuada pelos estudantes secundaristas nas escolas por todo o Brasil de 2015 e, o quão são atuais as premissas para o amanhã seja resultado de um pensamento empático hoje.

 

De tudo o que vivi durante as ocupações dos alunos nas escolas públicas de São Paulo, no final de 2015, o que mais me marcou foi a nítida sensação de que eles não voltariam nunca mais para aquela tortura cotidiana que insistimos em perpetuar nas salas de aula.

Afinal, como sobreviver ao eterno simulacro das aulas que “preparam para a vida”, depois de sentir na pele os embates, erros e acertos da vida que acontece no presente? Como, depois de experimentar o gosto da gestão democrática do espaço público, engolir a organização careta e vertical que os mais velhos pregam e praticam? O que fazer no entediante sábado cultural, logo depois de ter organizado um festival de música de verdade? E por que aceitar um lugar que não é seu, quando já descobriu ser possível integrar toda a comunidade numa lógica colaborativa?

Conversando semana passada com alguns dos líderes do movimento, percebi que eles não têm o menor interesse que alguém de fora venha com essas respostas. O desafio, agora, pertence só a eles, e independente das conquistas ao longo do processo, não há dúvidas de que a aprendizagem será intensa, verdadeira e relevante.

Mas e a escola, é capaz de aprender algo com isso?

Em seu livro, Escolas que aprendem, Peter Senge renova o já surrado conceito de “aprendizagem significativa” ao aplica-lo não mais ao aluno, mas à própria instituição. Ele reafirma a tese de que só aprendemos aquilo que nos interessa, e nos deixa com a certeza de que um bom começo seria a escola se interessar por si mesma.

Mas, para traduzir suas experiências em aprendizagem, antes a escola deveria definir sua função no jogo político contemporâneo. E não parece existir melhor oportunidade para isso do que agora, quando um movimento de tamanha força surge do meio de suas próprias entranhas.

Nos tempos modernos as opiniões sobre educação diferem. Não há acordo sobre o que os jovens devem aprender, nem no que se refere à virtude nem quanto ao necessário para uma vida melhor. Tampouco está claro se a educação deveria preocupar-se mais com a formação do intelecto ou do caráter.

Faz 25 séculos que Aristóteles escreveu a frase acima e ainda hoje discutimos se a escola deve informar aos alunos os conteúdos básicos das diferentes áreas do conhecimento ou se deve possibilitar a formação de uma sociedade criativa, crítica, autônoma e ética.

Na dúvida, falhamos categoricamente tanto na tentativa de democratizar o conhecimento por meio da padronização de um conteúdo comum, quanto numa formação voltada aos direitos humanos, à produção artística, ao pensamento científico e à cultura empreendedora.

Essa sensação de fracasso, porém, não é forte o suficiente para transformar a realidade educacional atual, pois é impossível se sentir derrotado quando não se sabe pelo o que se está lutando. Assim, enquanto investimos na tentativa de nos tornarmos cada vez mais eficientes, esquecemos que historicamente a melhora educativa não é só uma questão de esforço, mas de sentido.

Hoje, perdidos entre as pedagogias do século XX e as pirotecnias tecnológicas do século XXI, aceleramos fortes e determinados para a estrutura conceitual do século XIX, enquanto afundamos em busca de uma identidade que a escola nunca teve.

Eu não falhei 10 mil vezes. Apenas encontrei 10 mil opções que não funcionam. Sempre que eliminar todas as opções que não funcionam, encontrarei uma que funciona.

Me pego imaginando o que Thomas Edison nos perguntaria após escrever essa frase sobre seu processo criativo na construção da primeira lâmpada elétrica. Seria algo como: “meus caros, até quando vocês insistirão numa opção que não funciona?” Tenho muito mais dificuldade em imaginar qual seria nossa resposta.

Mas um caminho interessante seria olhar com atenção para os quase três meses que duraram as ocupações em São Paulo. Tentar entender como essa molecada trouxe vida à escola e a colocou de volta na pauta do dia. Em como eles transformaram o conhecimento em uma construção social e não mais em um objeto a ser transmitido, confirmado e repetido.

Nessa volta às aulas, eles ainda lutam por “cursos mais interessantes” e “infraestrutura mínima”, mas num rápido bate-papo fica claro que já estão percebendo a total falta de sentido da atmosfera que os cerca. Após anos de omissão, enfim corremos o risco de nos tornar irrelevantes no mundo que criamos, e pelas mãos de quem sempre foi coadjuvante.

Só espero que sejamos capazes de aprender algo com isso.

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