Deep learning e o futuro da respiração profunda

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Respirar é uma função essencial de nosso corpo, no entanto é muito mais do que isso. A cultura do bem-estar alimentada pela internet expõe os benefícios da “respiração consciente” para a saúde física e mental, entretanto 9 em cada 10 pessoas no mundo respiram ar poluído. Como esse paradoxo de priorização pessoal (a cultura do autocuidado) e crise global (poluição atmosférica) modificará nossa relação com a respiração propriamente dita?

por Becky Willoughby Tradução Michelle Neris

Respiração Profunda

“Respire, filho da puta!”, grita o atleta holandês de esportes radicais Wim Hof, conhecido como “The Iceman” (“homem de gelo”, em inglês), devido à sua habilidade de resistir a temperaturas extremamente baixas – uma característica que ele atribui principalmente às “técnicas de respiração Wim Hof”.

A “respiração consciente” (ou seja, a percepção de sua respiração e o desenvolvimento de técnicas para aprimorá-la) foi tendência para o bem-estar em 2018 e Wim Hof é apenas um exemplo de como o ato de respirar se tornou moeda de troca no mercado de experiência. Resumindo: a respiração profunda é um grande negócio. E a marca registrada de Wim Hof é uma indústria, que abrange desde videoaulas, livros, camisetas (ao comprar a camiseta “Respire, filho da puta!”, você ajuda a “divulgar o poder do oxigênio”), até passar uns dias aprendendo a respirar com o próprio atleta.

É claro que não há nada de errado em ensinar alguém a respirar corretamente – seus benefícios para a saúde são cientificamente comprovados –, mas o ato de incentivar alguém a respirar profundamente em tempos em que a qualidade do ar diminui cada vez mais rápido é tão irônico que merece uma frase em uma camiseta, bem ao estilo Wim Hof: “Respire, e você estará f*didx!”. Uma afirmação com a qual os habitantes de Santa Gertrudes, um pequeno município a cerca de 280 quilômetros de São Paulo, irão concordar.
Santa Gertrudes foi classificada como a cidade com a pior qualidade de ar em ambientes abertos do Brasil, de acordo com o banco de dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). A situação deixa os habitantes em um beco sem saída: a poluição vem das indústrias, meio de sua subsistência, ao passo que também os faz adoecer.

“Não há o que fazer. Não podemos parar de respirar.”

Nesse contexto, se de um lado a prática da “respiração consciente” é um luxo, de outro é um ultraje. O ministro da Saúde do Brasil informou que 49 mil pessoas morrem no país anualmente em decorrência de doenças relacionadas à qualidade do ar.

Enaltecer os benefícios e a importância da respiração adequada não é um conceito novo. O metre zen Kodo Sawaki introduziu a importância da respiração na vida da população no início do século 20 de uma maneira muito mais abrangente: “Nossa expiração é a do universo inteiro. Nossa inspiração é a do universo inteiro”.

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Nós somos o que respiramos, e o conceito de “Breathfulness” (“respiração plena”, em português literal) vem gradativamente substituindo o de “Mindfulness” (“atenção plena”) como tendência para uma boa forma. Enquanto o Mindulness foca no momento presente com o objetivo de reduzir o estresse e aprimorar a memória e a concentração, o Breathfulness concentra-se em como respiramos e em seu impacto em nosso bem-estar físico e emocional. Entretanto, embora reconheçamos a importância do modo como respiramos, o que respiramos deve ter a mesma relevância, considerando um estudo recente realizado pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), que determinou que níveis elevados de poluição são associados a uma diminuição nos níveis de felicidade (bem-estar emocional), o que demonstra uma omissão desconcertante, a fim de não associar os dois fatores.

O estudo, liderado por Siqi Zheng, do Departamento de Estudos e Planejamento Urbanos e do Centro de Imóveis do MIT, e publicado no Nature Human Behaviour Journal, estimou os níveis de felicidade diários em diversas cidades da China aplicando um algoritmo de machine learning que analisava tweets com informações de geolocalização. Esse algoritmo foi treinado para medir o “sentimento” contido em cada post e o valor médio para aquela cidade e dia específicos. Os pesquisadores, então, fundiram suas descobertas com dados meteorológicos e encontraram uma correlação significativa entre poluição e infelicidade. Ainda, de acordo com Zheng, a poluição atmosférica também trouxe grandes impactos à vida e ao comportamento das pessoas, como evitação da poluição, migração para cidades mais puras, mais tempo em locais fechados e gastos com equipamentos de proteção, como máscaras e purificadores de ar, por exemplo.

Zheng diz: “As pessoas ficam infelizes, o que as faz tomar decisões irracionais”. Irracionais como escalar uma geleira usando shorts, assim como Hof, o “homem de gelo”? Talvez. Porém, considerando que 68% da população mundial viverá em cidades até 2050 (fonte: Organização das Nações Unidas), é sensato supor que as pessoas buscarão soluções mais sensatas que as permitam viver de forma adequada, como entender que a “respiração consciente” não é apenas uma técnica física, mas sim uma combinação de técnica e escolha pessoal de tecnologias e produtos, a fim de melhorar a qualidade do ar que respiramos.

 

 

Respiração como inspiração

Reconhecendo a abordagem multifacetada para o futuro da respiração, a exposição “Catch your breath” (“recupere o fôlego” em inglês), da Universidade de Durham e de Bristol (decorrente do projeto unificado “Life of breath”), explora a ideia de que a respiração é bem mais do que uma sinalizadora – e facilitadora – de saúde, mas também uma condutora de comunicação e criatividade, entre outros. A exposição aborda nosso relacionamento com o ato de respirar através dos tempos. Na parte 2 de nossa série “Deep learning e o futuro da respiração profunda”, exploraremos a tendência em ascensão da “respiração como inspiração” (como aparece na exposição “Catch your breath”) da perspectiva das tecnologias transformadoras, inteligência artificial e machine learning, e seu impacto no futuro da respiração.

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