Dois jogos sobre a Revolta dos Malês

No dia 25 de janeiro de 1835 uma rebelião de escravizados eclodiu na Bahia.

No escuro das primeiras horas da madrugada, talvez fosse difícil distinguir as dezenas de túnicas brancas que corriam pelas pedras irregulares do calçamento das ruas de Salvador. Os homens que as vestiam carregavam facões, porretes e algumas armas de fogo. Corriam com o ímpeto dos que reconheciam o momento decisivo que viviam e com o fôlego dos que não carregam peso, a leveza dos que têm quase nada a perder.

Divididos em grupos, desceram pelas ladeiras da cidade alta batendo nas janelas, tentando alertar os companheiros de conspiração que esperavam em vigília e ainda não sabiam que a luta havia começado mais cedo do que o planejado. Muitos deles traziam junto ao peito amuletos de proteção, com dizeres protetores escritos em árabe e retirados do Alcorão, o livro sagrado da fé que professavam.

Começava ali a rebelião que entraria para os livros de história como a Revolta dos Malês, uma das mais importantes revoltas escravas ocorridas no Brasil no século XIX, no chamado período regencial.

Esse evento histórico, bastante difundido nos livros didáticos, é agora transportado para um outro tipo de mídia, a dos games.

Lançados recentemente, os jogos Sociedade Nagô – O Início e Sociedade Nagô – O Resgate, contam de maneira interativa a história da Revolta dos Malês contra os senhores de escravos na Bahia da primeira metade do século XIX.

A mecânica do jogo é bastante simples. No estilo Point and Click, o jogador pode circular pelo cenário e interagir com os elementos que fazem o jogo avançar.

Entre portas ocultas e passagens secretas, é possível recolher as peças que lhe permitem reconstituir a história da revolta. Nesses percursos surgem personagens históricos como Manuel Calafate e Ahuna, alguns dos líderes do levante, que convidam o jogador a fazer parte dos preparativos para a rebelião.

Os jogos são embalados pelo som de tambores, berimbaus e outros instrumentos típicos. A narração tem uma dicção própria, peculiar, que nos lembra que os modos de falar e mesmo a entonação das palavras podem estar repletos de significado histórico.

O clima de conspiração é bem aproveitado pelos roteiros dos games que se definem como aplicativos gamificados sobre a Revolta dos Malês, propondo uma interação entre jogador e o conteúdo histórico, para criar uma verdadeira “história fictícia baseada em fatos históricos”.

Como outras iniciativas desse tipo, os dois jogos foram viabilizados com apoio de recursos públicos. Sociedade Nagô – O Início foi lançado em 2017 com recursos obtidos através de edital do Ministério da Cultura, do governo Federal. Já Sociedade Nagô – O Resgate é do final de 2018 e foi financiado com recursos do Governo do Estado da Bahia através de sua Secretaria de Cultura.

Os jogos têm objetivo histórico e pedagógico. Há ferramentas de apoio disponíveis para professores que queiram usar o game como material complementar e mesmo algumas sugestões de lições de casa feitas ao jogador ao longo da evolução do jogo.

Em uma época em que parece ser particularmente difícil fazer com que os estudantes tirem os olhos do celular, jogos como esses podem ser uma boa maneira de sensibilizar alunos e interessados no rico conteúdo da história brasileira.

Por trás dos dois títulos estão o produtor Alexandre Macêdo Santos e a equipe da Strike Games. Já a consultoria histórica para o roteiro foi realizada pelo historiador João José Reis, uma das principais referências acadêmicas no tema e autor de Rebelião Escrava no Brasil – A História do Levante dos Malês em 1835.

Em seu já clássico trabalho sobre a Revolta dos Malês, João José Reis conta que o dia 25 de janeiro foi uma data estratégica, escolhida pelos rebeldes para coincidir com a popular festa religiosa do dia de Nossa Senhora da Guia, então comemorada no bairro do Bonfim em Salvador.

A maior parte dos revoltosos era de origem islâmica, aprisionados no continente africano e trazidos como cativos pelo Oceano Atlântico para o Brasil, onde eram chamados de Nagôs, pela região onde viviam. Os que professavam o Islã, recebiam o nome de Malês, termo derivado da língua iorubá, significando “muçulmano”.

O plano era o de eclodir a revolta enquanto os moradores da cidade estivessem distraídos nos festejos, reunir suprimentos, aglutinar apoiadores entre os escravizados da cidade e então partir para a região do recôncavo onde pretendiam sublevar o grande número de cativos dos engenhos da zona rural. A parti daí, se vitoriosos, pretendiam fundar um reino islâmico, ou califado, em terras brasileiras.

Como em tantas outras conspirações, os rebeldes foram traídos e delatados antes que pudessem por seus planos em marcha. Forçados a antecipar a revolta, se bateram contra as forças oficiais de maneira improvisada e em menor número do que o planejado.

Segundo dados do historiador econômico Luiz Felipe de Alencastro, que constam no Dicionário da Escravidão e Liberdade, o Brasil foi o maior receptor de escravizados africanos entre as nações do Novo Mundo. Estima-se que entre 1550 e 1850 mais de 4,8 milhões de cativos desembarcaram em terras brasileiras (Falei um pouco mais sobre esse livro aqui).

Ainda segundo José Reis, o clímax da escravidão brasileira ocorreu nessa época, na primeira metade do século XIX. Estima-se que somente nesse período cerca de 2 milhões de escravizados foram trazidos ao Brasil, que se tornou um terreno fértil para revoltas escravas de todo o tipo.

É fato que um regime escravista que perdurou durante tanto tempo não desaparece sem deixar marcas. Não por acaso, o segundo jogo da série Sociedade Nagô, convida o jogador a alternar os acontecimentos e cenários entre 1835 e 2018. A provocação parece ser a de que as fontes de hoje, se olhadas com cuidado, podem revelar parte de um passado profundo ainda bastante presente.

Os jogos da série Sociedade Nagô contam uma das muitas histórias de escravidão e liberdade que aconteceram por aqui. Lembrá-las pode também ser um exercício de contestação, uma maneira de questionar um passado que insiste em se fazer atual e em nos cercar por todos os lados.

 

Versão resumida ×

Exibir texto integral

Comente

Mudando de assunto...

Ética e transparência: desejos contemporâneos no consumo de moda

Unfashion

Desde o século 15, a moda é uma ferramenta de distinção entre nobreza e burgueses. Esse comportamento separatista ainda é pertinente hoje: a moda se mantém como ferramenta de validação do valor do indivíduo. Na contra corrente, comportamentos emergentes de consumo — menos atrelados à necessidade de pertencimento — inspiram produtos e serviços dos próximos anos.

O papel do design no estímulo à consciência lowsumer

Lowsumerism

O desafio do design contemporâneo é manter a relevância em um mundo cheio. Quem precisa do excesso? Mais do que apenas uma tendência, é uma questão de responsabilidade. Novos criadores propõem inovações que preveem os desejos do futuro e inspiram o mercado tradicional.

O algoritmo entende de música?

Music Trends

Vamos continuar com um dos fascinantes temas do SXSW esse ano, “O valor da toque humano na curadoria musical”, e lembramos de uma pauta que é quase um bode na sala para todos nós: Algoritmos nas plataformas de música. Todos usamos, estamos separados entre amar e odiar a intervenção de inteligências não-humanas através do algoritmo,…