Calma. Senta. Respira. Tá tudo bem: Reflexão sobre o tempo certo das coisas

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Antes de nos perguntarmos qual o tempo certo de trocar de carreira, investir aquelas economias ou terminar o mestrado: será que existe um tempo certo?
Mesmo a frente ao sprint final do ano, vale uma reflexão sobre essa época em que precisamos mesmo saborear uma parte por vezes esquecida durante nossa busca pela tal realização: as pequenas vitórias.

por Ponto Eletrônico Texto Matheus Machado - Infame

Larguei tudo e fui fazer outra coisa da vida. Até aí, nenhuma novidade no roteiro batido do cara privilegiado de classe média que deixa seu emprego chato para trabalhar com algo legal. Este mundo acostumou-se a supervalorizar buscas existenciais espalhafatosas e cheias de reviravoltas. Largar tudo, portanto, virou algo sexy. Você provavelmente já leu muitos relatos sobre trajetórias desse tipo. Aqui vai mais um deles. Há relatos para todos os gostos: este é do tipo que acontece em câmera lenta e que faria de tudo para ficar estacionado vendo a vida passar devagar.

Há cerca de quatro anos, lancei com alguns amigos uma plataforma de conteúdo chamada Infame. Em linhas bem gerais, nascíamos como um site de vídeos, textos e ensaios fotográficos cujo objetivo era, como gostávamos de dizer orgulhosamente, “redistribuir olhares” (dando espaço para histórias, opiniões, experiências e sensações que acabavam sendo ignoradas pelos outros veículos).

Antes do levá-lo ao ar, investimos mais de um ano na fase de planejamento e pesquisa. “Mas e aí, quando vocês vão pro ar?”. Escutava essa pergunta umas quatro ou cinco vezes por semana, e isso sem contar as perguntas repetidas, dos amigos que, exatamente por se importarem, reincidiam em perguntar. Quando? Quando? Quando?

Empreender é algo bem complicado. Empreender num país que não valoriza o pensamento crítico, produzindo conteúdo sobre assuntos e perspectivas relativamente marginalizadas, aí já é quase pedir para apanhar. E é claro que a gente apanhou. Apanhamos tentando conseguir investimento, apanhamos para convencer pessoas a colaborarem conosco, apanhamos para aprender a zelar por uma linha editorial, dentre outras tantas surras, esperadas ou não.

Assim, quando alguém me perguntava, eu dizia que foram todas essas coisas que atrasaram o nascimento do Infame. Mas calma aí: atrasaram mesmo?

Dizer que sim seria admitir que o Infame já estava pronto lá atrás, no dia em que o concebemos; como se bastasse tirar um tapume da sua frente, passar um álcool nos seus vidros empoeirados e pronto. O problema é que não estava. Tínhamos um business plan excelente, um conceito definido, sócios motivados, mas aquela coisa lá que a gente queria fazer ainda carecia de algum tipo de amadurecimento prático, algo que uma cesárea antecipada não faria amadurecer à força. Tentando ser mais claro, eu sentia que tinha montado um bar lindo, era capaz de administrá-lo, mas ainda não sabia fazer uma caipirinha.

Foi assim que resolvemos esperar o tempo necessário para que a caipirinha saísse bem-feita. E muito mais do que tirar o peso de um prazo sem sentido que havíamos imposto a nós mesmos (quando? quando? quando?), o grande aprendizado disso tudo foi o privilégio de voltar para o presente.

Semana que vem tudo vai ser melhor, mês que vem as coisas se resolvem, ano que vem será o grande ano. Eu me peguei incontáveis vezes pensando que quando o meu negócio estivesse no ar, aí sim eu isso ou aquilo. Aí sim as coisas fariam sentido. Aí sim eu poderia voltar a respirar. Aí sim. Relacionamentos, grana, fé, saúde, tudo acondicionado dentro de uma redoma protegida do tempo, esperando que eu passasse pelo portal mágico e futuro do aí sim, a partir de onde a vida recomeçaria.

Falar sobre as maravilhas de viver o presente é daquelas coisas que te fazem odiar ter nascido quando você nasceu, porque todo mundo já falou tudo que poderia ser dito sobre esse assunto, das coisas mais geniais àquelas mais idiotas. Pior que isso, além de soar como um clichê bobo, “viver o presente” ainda traz uma conotação hedonista, meio carpe diem, própria de quem só quer “aproveitar a vida”, como dizem por aí em tom pejorativo.

Não. Estar presente não tem nada a ver com livros de autoajuda ou a busca por prazer. Fazer-se presente é a única forma de viver sua própria vida, sua vida real, e não aquela que você ou os outros desejam para você. Viver no futuro é viver uma vida que não é sua. E nunca será, porque por melhor que seja o planejamento, nós nunca seremos capazes de ver além da penumbra do tempo.

Chamamos de psicótico quem vive achando ser um super-herói ou a rainha da Inglaterra, mas quão menos psicótico é viver num futuro idealizado que não vai chegar nunca? Hoje em dia, consideramos uma pessoa de visão aquela que enxerga o futuro, que antecipa acontecimentos, que lê tendências ainda em formação, que chega antes lá na frente onde todos queremos estar. Já a pessoa que enxerga o presente, que avalia aquilo que já tem em suas mãos, que sabe ser grato pelo último segundo que passou, esse aí está fora de moda, foi parar no olho da rua.

Olha, deixa eu te dizer um negócio: nós não estamos atrasados. Você não está atrasado. Ninguém está atrasado, porque os atrasados são inimigos do presente, não querem estar onde estão, fariam de tudo para encontrar um teletransporte que os levem para um futuro que não é deles.

Aprender a esperar me fez desenvolver o amor pelo processo. Amar cortar o limão, medir a quantidade certa de açúcar, derramar a dose ideal de cachaça, mexer com carinho para que tudo se misturasse corretamente. E assim desse jeito um mês que se passava não era mais um mês atrasado deixado para trás em um calendário, era o mês em que entrevistei o John, um refugiado camaronês que faz poesias incríveis; o mês em que eu, um ex-advogado, aprendi a dirigir e editar documentários e me profissionalizava no audiovisual; o mês no qual fui reler Foucault depois de dez anos, em meio à redação de um artigo para o Infame. Parei de correr e, de volta ao presente, voltei sentir o gosto das coisas.

Lembro de um dia quem que um amigo me explicava como a fermentação rápida pela qual a maioria dos pães passa pode nos trazer problemas digestivos. Saí dessa conversa convicto de estarmos doentes. Não é que não conseguimos mais esperar por coisas grandiosas; por um filho, por um casamento, por um emprego. Não. A gente parou de saber esperar por um pão. Estamos doentes, queremos o futuro e o queremos a qualquer custo. Viramos niilistas modernos, negadores do valor de existir. Formamos uma ordem secreta de adeptos que fingem viver e, ao menor sinal de que não estamos sendo espionados pelos guardiões do presente, pegamos um controle remoto mental e tocamos o dedo num botão de fast-forward que faz tudo passar o mais rápido possível, para que os abraços durem menos, um novo dia vire rotina e a vida vire um pedágio até o futuro que, opss, olha só, não era aquele que nos venderam.

A Tulipa Ruiz tem uma música chamada “Efêmera” e não consegui pensar em maneira melhor para fechar este texto. Diz assim a Tulipa:

Vou ficar mais um pouquinho, para ver se acontece alguma coisa nessa tarde de domingo. Congela o tempo pra eu ficar devagarinho, com as coisas que eu gosto e que eu sei que são efêmeras. E que passam perecíveis, e acabam, se despedem, mas eu nunca me esqueço. Vou ficar mais um pouquinho, para ver se aprendo alguma coisa nessa parte do caminho. Martelo o tempo pra eu ficar mais pianinho, com as coisas que eu gosto e que nunca são efêmeras. E que estão despeteladas, acabadas, sempre pedem um tipo de recomeço”.

Na boa, deixa eu te pedir um negócio: pare o que você está fazendo e vá ouvir essa música. Não basta ler a letra: vá ouvir, vá dançar. Dance por aí que eu danço por aqui, enquanto curto a saudade dos tempos em que ainda não tinha a menor ideia de quando o Infame iria nascer. Pois é, nasceu há uns quatro anos. Me trouxe até aqui e fez de mim quem eu sou hoje. Mas talvez se eu resolvesse dançar e parar o tempo eu poderia ficar mais um pouquinho, observando o Infame deslocado do eixo ordinário do tempo e do espaço, como aquilo que é hoje e como aquilo que foi um dia: um sonho, uma produtora de filmes, uma plataforma que publicava coisas diariamente, uma casa sempre aberta a ideias novas e a pessoas diferentes de nós, um vetor de transformação que já impactou a vida de algumas pessoas por aí.

Muita gente me pergunta. “E aí, o Infame deu certo?”. Cara, honestamente, com alguns ajustes de rota ao longo do caminho, acho que deu muito mais certo do que poderia ter dado. Essas são questões relativas e subjetivas. Ganhamos algum dinheiro, tive uma crise de ansiedade violenta no meio do caminho, conheci pessoas fantásticas que jamais teriam cruzado meu caminho de outra forma, perdi várias das concorrências de jobs das quais participamos. E mesmo com tantas incertezas, lembro que costumava pensar, logo nos primeiros meses depois do seu lançamento, que tudo já havia dado certo. Havia dado certo porque era bom no presente. Bom naquela época, bom quando aquilo era o nosso hoje. Porque se fosse para ser bom só no futuro, no amanhã, não teria sido bom, teria sido só um plano, uma expectativa, uma miragem. Se é bom, tem que ser hoje. Futuros não têm lugar para o que é certo. O amanhã não sabe servir de casa para o que é bom.

 

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