Veganismo, esporte e (mais) desafios para a nova masculinidade

Frente ao tempo que vivemos, as propostas para nova masculinidade explodem aos montes. E ingerir proteínas de origem não animal fazem muito bem, obrigado. Mas se alguma roda de amigos ser vegano é ser menos atleta ou menos homem, vamos conversar melhor sobre.

 

(Revisado em 05/02/2019)

Frente ao tempo que vivemos, as propostas para nova masculinidade explodem aos montes. As ainda presentes ondas de ódio direcionadas à liberdade na orientação afetiva vestida de “defesa dos valores familiares” e do papel do homem no mundo, a população masculina tem uma parcela que merece atenção: intolerante, que olha para o próprio umbigo e extremamente carente de cuidados para sua saúde mental.

Desde grupos de ódio a executivos que se matam por não cumprir suas metas no trabalho, o homem que ainda resiste em manter-se “igual” aos de seu convívio comum ainda paga caro para existir – rindo dos limites físicos e psicológicos, escondendo mágoas, engolindo choro. E tendo em mãos um problema já sentido pelos que se permitem mudar raciocínio, a parte que tange o conceito de virilidade, força física versus alimentação, tem alguns pontos para levantar.

Dentro do mercado fitness a informação obviamente gira rápido, dos centros de pesquisa aos influencers nas redes sociais – todo mundo de fato tem algo a falar. E quando tocamos no assunto origem da proteína a se ingerir (que se transforma em cadeias de aminoácidos responsáveis pela construção e densidade muscular, a já conhecida sequência) começa o problema. Com base nos velhos conceitos que proteína de origem animal é a única saída e contando com a discussão em cima de atletas que seguem a plant based diet gerar bastante discussão, e os ainda mais caros suplementos de origem 100% vegetal escondem na verdade um impasse maior, que é o embate entre a nova e a velha masculinidade.

 

 

 

 

Em pleno 2019, a relação entre o consumo de carne e o atestado de virilidade por si só, já é um tabu a se quebrar nos grupos masculinos maiores. Um caminho que uma boa parte pensa e efetivamente percorre rumo a novas perspectivas precisa ser fomentado. Conversar com nossos pais e irmãos que tomados por tradições familiares e culturais que acham impossível um ser humano não comer carne ou mais além, que o homem na sua essência precisa manter hábitos da época das cavernas para se “manter homem”. Manter-se atento às mudanças é importante e de certa forma “salva” nossa consciência, mas pouco contribui quando entendermos que o tal “papel de homem” só terá mudanças significativas alcançando mais pessoas: os aptos a debater ou os que lerão chamados como esse em silêncio, e encontrar seu próprio caminho e processo de entendimento.

 

O mercado logicamente, tem sua parcela

De novo: o desempenho, ganhos e qualidade muscular de um atleta não está atrelada ao consumo de proteína animal. Um recente estudo nascido da parceira entre o The Good Food Institute e o Plant Based Foods Association nos EUA (que além da geração de dados e relatórios, conduzem uma série de estudos para avanços e democratização do consumo da chamada plant-based meat e a clean-meat) conduzido pela Nielsen apontou um consumo superior a US$3,7bi em 2018. Nas grandes capitais brasileiras, o percentual de pessoas que já optam por alimentos e origem não-animal atinge os 16% ou cerca de 30 milhões de pessoas, segundo levantamentos do IBOPE Inteligência em parceria com a Sociedade Vegetariana Brasileira. Ou seja, não é questão de falta embasamento para uma abordagem mais abrangente.

Mas a contrapartida da publicidade e da lógica de consumo proposta ainda coloca o papel da masculinidade muito enviesado no que era praticado milhares de anos atrás, onde o homem ideal pode hoje assumir seus cuidados especiais com aparência e beleza por exemplo, mas que só terá resultados consideráveis de sua rotina de exercícios se consumir proteína animal na alimentação e suplementação, e por consequência anulando a performance de atletas veganos, os tratando mais diretamente como “menos macho”. É uma seara delicada. Estamos falando de pessoas ainda bastante resistentes a novas propostas de vida, consumo e comportamento.

É um modelo masculino muito fixado em aspectos como a importância do culto ao corpo (onde indústrias de nutrição esportiva e agronegócio estão de mãos dadas por debaixo da mesa).  E essa combinação mantém estática toda e qualquer corrente de mudança comportamental. O ser homem mudou para você, mas talvez não tenha mudado para seu amigo, parente ou o grandão barulhento da academia que você frequenta. Um bom começo de abordagem é mostrar a ótica de homens de várias idades e estilos de vida:

 

 

Repensando Força

O conceito de demonstração de força ainda dentro dessa fatia da população masculina ainda é a física, e de certa forma serve para sesconder traumas e inseguranças a fase de infância e primeira adolescência. Aquela autoafirmação no seu círculo de amizades que pode trazer consequências complicadas para se reverter. Aproveitando a fase transição na linha pensamento e uma abertura bem melhor para o diálogo, que o desafio para mercado, os órgãos de pesquisa e dados e nós enquanto sociedade é justamente tratar isso como algo igualmente nocivo. A cultura de competição deve ser canalizada para quebrar marcas e barreiras individuais, e não uma competição de quem é o macho Alpha. Não há ganhos coletivos na competição acirrada e é bem verdade que o esporte em seu fundamento não nos ensina a superação do outro, mas sim a superação de nossas próprias barreiras. Força é algo que se constrói no emocional, muito além do físico e obviamente, o complementa.
Portanto, façamos o exercício de abater uma cultura de que a validação de virilidade está ligada ao que se come pois, atrás dessa cultura existem empresas inteiras ainda são conduzidas por ideais que estão em total desuso nos dias de hoje e, nocivos para nossa saúde mental. A postura e posicionamento não pode de forma alguma moldar a nossa interpretação do que é ser homem, se essa é uma pergunta que atualmente precisa de resposta. Saber o que não acrescenta nada para sermos mais livres e nos sentir melhores internamente só vai nos trazer ganhos para as próximas décadas. Senhores, por favor cuidem-se!

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